Para a Geração Z, socializar agora é treinar, diz relatório do Strava
Fazer exercício virou jeito de socializar e conhecer gente nova, pelo menos para a Geração Z. Academias e clubes de corrida passaram a cumprir, entre jovens de 15 a 30 anos, a função que o bar exerceu por décadas.
Segundo o 12º Relatório Anual de Tendências Esportivas do Strava, que analisou bilhões de atividades registradas por mais de 180 milhões de usuários em 185 países, 39% mais jovens da Geração Z do que da Geração X afirmam usar o esporte para conhecer pessoas com interesses em comum. Quando o assunto é primeiro encontro marcado no treino, 46% dizem sim sem hesitar, enquanto 31% dizem não.
A infraestrutura para isso cresceu junto: em 2025, o número de novos clubes no Strava quase quadruplicou e chegou a um milhão. Os clubes de caminhada foram os que mais cresceram, seguidos pelos de corrida. Eventos organizados por esses clubes também foram mais frequentes, o que transformou comunidades online em encontros presenciais.
Até os aplicativos de relacionamento entraram na onda. Bumble e Tinder passaram a destacar atividades físicas nos perfis, com modalidades e frequências distintas, como ponto de conexão entre usuários.
Sem bebida
A mudança no rito social mexe com o consumo. O dinheiro que antes ia para rodadas de chope e drinques agora vai para mensalidade de academia e assinatura de clube. Em reportagem do Wall Street Journal, Joe Wadford, economista do Bank of America Institute, chamou o fenômeno de "grande moderação": jovens que redirecionam tempo e dinheiro para hábitos mais saudáveis, com efeito sobre a indústria de bebidas e sobre o setor fitness.
Um estudo do Health Behaviour in School-aged Children, patrocinado pela Organização Mundial da Saúde, mostra que só 8% dos jovens da Geração Z bebem álcool toda semana — um terço do registrado em 2006 entre adolescentes da mesma idade. Nos Estados Unidos, um levantamento de 2020 apontou que a parcela de universitários que não bebem subiu de 20% para 28% em dez anos.
No Brasil, o Relatório Covitel de 2023 mostra que o consumo frequente de álcool entre jovens de 18 a 24 anos caiu de 10,7% antes da pandemia para 8,1% em 2023. Na faixa dos 45 aos 54 anos, o índice ficou em 9,1% — uma inversão do panorama antigo, em que os mais jovens bebiam mais do que os mais velhos.
Mas por que a geração Z bebe menos?
A comentarista cultural Ruby Warrington cunhou, em 2018, um termo para descrever esse esforço consciente de avaliar a própria relação com o álcool sem necessariamente abandonar a bebida: "sober curiosity", ou curiosidade sóbria.
O estudo Copo Meio Cheio, da consultoria Go Magenta, ouviu mil brasileiros acima de 18 anos que tinham bebido álcool nos dois meses anteriores. Cerca de 30% dos gen-z disseram beber menos por medo da "ressaca moral" — o desconforto psicológico, a vergonha que vem depois de beber, diferente da ressaca física, que preocupa mais os millennials.
As redes sociais também entram nessa conta, para além de toda a influência que já exercem no meio — Instagram e TikTok viraram espaço de divulgação de estilos de vida sóbrios, com campanhas como #SoberLife e #SobrietyJourney normalizando a recusa ao álcool.
Além disso, antes, conhecer alguém exigia tempo e vários encontros presenciais, mas hoje basta olhar o perfil ou fazer uma busca para adiantar parte desse processo — isso vale tanto para relações pessoais quanto profissionais. Logo, ninguém quer correr o risco de ser exposto ou causar má impressão, e é um perigo ter as próprias ações feitas sob efeito de álcool imortalizadas online.
O financeiro também é um ponto importante. "Para a Geração Z também tem uma questão de preço. Eles estão menos dispostos a gastar valores mais altos em bebidas", afirmou Gabi Terra, fundadora da Go Magenta, à EXAME. No total, 62% dos entrevistados disseram já ter pensado em reduzir o consumo.
O que entra no lugar da bebida?
O dinheiro que sai do álcool entra no esporte, já que a Geração Z é a que mais gastou com atividade física em 2025, segundo o relatório do Strava. O dado convive com o aperto no bolso: 65% dos jovens disseram ter sido afetados pela inflação no ano, e ainda assim 30% queriam aumentar os gastos com exercício.
Rebecca Palmer, da Fruitful, disse ao WSJ que seus clientes na faixa dos 20 e 30 anos tratam esse gasto como despesa fixa. "Bem-estar é uma das últimas coisas que eles cortam do orçamento", afirmou.
Quanto aos produtos, os wearables concentraram a maior parte dos gastos da Geração Z em 2025, apontados por 63% dos entrevistados. O Apple Watch liderou entre os relógios, seguido pelo Garmin.
Do lado das marcas de bebida, entra o investimento em produtos que, além de zero álcool, oferecem benefícios funcionais, como fibras, proteínas, probióticos e vitaminas. Para se ter uma ideia, esse mercado específico deve crescer de US$ 148,1 bilhões em 2025 para US$ 371 bilhões até 2034 no mundo, segundo dados da Business Research Insights.
O paradoxo do Brasil
A Geração Z que investe em esporte convive, no Brasil, com um cenário de sedentarismo alto. O país lidera o ranking de sedentarismo da América Latina e ocupa a quinta posição no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que 47% dos adultos brasileiros são sedentários. Entre os jovens, o número sobe para 84%. Ou seja, o grupo que puxa o mercado fitness não representa a maioria da geração. O consumo de bem-estar, medido por gastos com academia, wearables e aplicativos, está concentrado em um recorte específico da Geração Z brasileira: de média e alta renda.
Para Michael Martin, CEO do Strava, a migração das telas para o movimento deve continuar. "Mais da metade da Geração Z planeja usar o Strava com mais frequência em 2026, enquanto a maioria afirma que usará Instagram e TikTok na mesma medida ou menos", afirmou. "Trata-se do público que mais cresce no Strava, e sabemos que eles estão em busca de experiências reais, e não de mais tempo olhando para telas."
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