Para além da moda: Miu Miu expande braço cultural com clube literário

Por Marina Semensato 17 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Para além da moda: Miu Miu expande braço cultural com clube literário

A Miu Miu realiza entre 22 e 24 de abril, em Milão, a quarta edição do Miu Miu Literary Club, seu clube literário idealizado pela fundadora da marca, Miuccia Prada.

O tema deste ano é "Políticas do Desejo", partindo de duas obras: "Memória de menina" (2016), da francesa Annie Ernaux, Nobel de Literatura em 2022, e "Changes: A Love Story" (1991), da ganense Ama Ata Aidoo, uma das principais vozes do feminismo pós-colonial africano. A discussão gira em torno de desejo, sexualidade e consentimento.

O encontro acontece no Circolo Filologico Milanese, durante a Semana de Design de Milão, e se inspira na tradição dos salões literários da Europa. As inscrições abrem em 13 de abril no site da marca.

Programação

Dois formatos estão previstos. Os painéis, já tradicionais no clube, e, como novidade deste ano, duas palestras individuais. Além disso, nos dois primeiros dias, há apresentações musicais e leituras de prosa e poesia entre as conversas.

22 de abril

A programação começa em 22 de abril com a conversa em torno do livro de Ernaux, que reconstrói o verão de 1958, quando a autora, então monitora de acampamento aos 18 anos, teve suas primeiras experiências sexuais.

O debate tem a jornalista franco-alemã Annabelle Hirsch, a pensadora feminista italiana Lea Melandri e a escritora irlandesa Megan Nolan, com mediação da curadora britânica Lou Stoppard.

Ainda no dia 22, a teórica cultural Olga Goriunova faz a palestra "Desire After AI", a partir de seu livro "Ideal Subjects. The Abstract People of AI" (2025), sobre como o desejo passa a se orientar por abstrações produzidas pela inteligência artificial (IA).

23 de abril

No dia 23, o painel se volta para "Changes: A Love Story" (sem edição brasileira), romance vencedor do Commonwealth Prize de 1992 e obra mais conhecida de Aidoo. O livro acompanha uma mulher ganense de meia-idade que se divorcia de um marido abusivo e entra em um casamento poligâmico acreditando preservar sua independência.

Participam a romancista italiana Francesca Marciano, a autora liberiana-americana Wayétu Moore e a antropóloga surinamesa-holandesa Gloria Wekker, sob mediação da jornalista e crítica Nadia Beard. Na sequência, a autora britânica Katherine Angel apresenta a palestra "How Do We Talk About Consent?", baseada em seu livro "Tomorrow Sex Will Be Good Again" (2021).

A curadoria geral é de Olga Campofreda, em colaboração com a filósofa feminista Rosi Braidotti, também responsável pela seleção da biblioteca instalada no Circolo Filologico, inédita nesta edição.

24 de abril

Em 24 de abril, pela primeira vez, o clube abre um dia de programação ao público, com uma sala de leitura, sem painéis, para consulta livre ao acervo. Também é a primeira edição do evento em que os exemplares dos dois livros estarão disponíveis.

Braço cultural de uma marca em expansão

O clube literário é o mais recente projeto cultural da Miu Miu, marca fundada por Miuccia Prada em 1993 como a linha mais jovem e experimental do grupo. É também a que puxa hoje o crescimento do conglomerado.

Em 2025, a Miu Miu registrou alta de 35% nas vendas, quarto ano consecutivo de expansão. Em 2024, havia ultrapassado pela primeira vez a marca de € 1 bilhão em receita, com € 1,37 bilhão, avanço de 93% sobre 2023.

O Grupo Prada encerrou 2025 com receita de € 5,72 bilhões e lucro líquido de € 852 milhões, no 20º trimestre consecutivo de crescimento, enquanto a marca Prada recuou 1% no varejo no ano e a recém-adquirida Versace passa por reestruturação.

A Miu Miu se apoia nas estratégias culturais há mais de uma década. Antes do clube literário, a Miu Miu lançou em 2011 o Women's Tales, série de curtas-metragens dirigidos por mulheres, a mais longeva desse tipo na indústria da moda.

São dois filmes por ano, um para a coleção de verão, apresentado na semana de moda de Nova York em fevereiro, e outro para a coleção de inverno, com estreia na seção Giornate degli Autori do Festival de Veneza desde 2012. A única restrição é que os figurinos sejam da marca.

A lista de diretoras já convocadas inclui Agnès Varda, Miranda July, Mati Diop, Alice Diop, Janicza Bravo, Chloë Sevigny e Dakota Fanning.

Em março de 2024, estreou em Xangai o curta número 27, "I Am the Beauty of Your Beauty, I Am the Fear of Your Fear", da cineasta malaia Tan Chui Mui. Em agosto do mesmo ano, no Festival de Veneza, a argentina Laura Citarella, conhecida por "Trenque Lauquen" (2022), apresentou "El Affaire Miu Miu", na 28ª edição da série.

Take do curta "I Am the Beauty of Your Beauty, I Am the Fear of Your Fear", disponível no Prime Video (Reprodução/Prime Video)

O clube literário trouxe a ideia cultural da Miu Miu para a literatura, com primeira edição em abril de 2024, em Milão, em torno de dois clássicos italianos: "Uma Mulher" (1906), de Sibilla Aleramo, considerado o primeiro romance feminista do país, e "Caderno Proibido" (1952), de Alba de Céspedes.

A segunda edição em Milão, em abril de 2025, tomou como base "Os Inseparáveis", de Simone de Beauvoir, publicado postumamente em 2020, e "Os Anos de Espera" (1956), da japonesa Fumiko Enchi. Uma edição intermediária foi levada a Xangai em 2025.

As autoras de 2026

Ernaux, nascida em 1940 na Normandia, construiu sua obra em torno do atrito entre memória pessoal e história social. Criada em Yvetot, onde os pais tinham uma mercearia e um café, passou da escola católica de classe média ao estudo de literatura em Rouen depois de abandonar a formação como professora.

Desenvolveu ali a chamada écriture plate, prosa sem ornamentos e sem sentimentalidade, que marca livros como "O Lugar" (1983), vencedor do Prix Renaudot, e "Os Anos" (2008), que lhe rendeu indicação ao International Booker Prize. Em 2022, recebeu o Nobel de Literatura. É a primeira mulher publicada em vida na coleção Quarto, da Gallimard.

Annie Ernaux e Ama Ata Aidoo são as autoras escolhidas para o clube literário da Miu Miu em 2026 (Reprodução/Site Miu Miu)

Já Aidoo, nascida em 1942 na então Costa do Ouro, hoje Gana, foi a primeira dramaturga africana a ter uma peça publicada, "The Dilemma of a Ghost" (1965). Atuou como ministra da Educação de Gana entre 1982 e 1983 e deixou o cargo ao não conseguir tornar o ensino gratuito e universal no país. Fundou a Mbaasem Foundation, voltada ao apoio a escritoras africanas.

Sua obra, que inclui o romance experimental "Our Sister Killjoy" (1966) e a coletânea "No Sweetness Here" (1970), rejeitou a ideia de que a educação ocidental seria o motor principal da emancipação das mulheres africanas. Morreu em 2023.

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