Para além da música: o legado de Michael Jackson na moda

Por Gustavo Frank 16 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Para além da música: o legado de Michael Jackson na moda

Michael, filme biográfico sobre a vida de Michael Jackson dirigido por Antoine Fuqua e com Jaafar Jackson no papel do tio, estreou em 24 de abril nos Estados Unidos e arrecadou US$ 97 milhões no primeiro fim de semana, a maior abertura já registrada para um longa-metragem do gênero, superando Straight Outta Compton, que havia liderado a categoria desde 2015 com US$ 60,2 milhões. Em dois fins de semana, a produção acumulou mais de US$ 217 milhões globalmente.

Mas, além dos números, o filme trouxe de volta ao centro da conversa algo que acompanhou toda a trajetória do cantor: a moda. A relação de Michael Jackson com a roupa nunca foi secundária. Cada era tinha um vocabulário visual preciso, pensado para amplificar a presença de palco e construir uma identidade inconfundível.

A jaqueta vermelha de couro do Thriller, desenvolvida ao lado do figurinista Dennis Tompkins. As meias brancas à mostra com os loafers pretos, que tinham uma função técnica clara: tornar o trabalho dos pés visível para quem estava nas últimas fileiras do show. A luva única, cravejada de cristais Swarovski, que apareceu pela primeira vez no especial Motown 25, em 1983, na mesma noite em que o moonwalk estreou para o mundo. O terno marfim com listras e meias azul-cobalto do clipe de Smooth Criminal. Os três elementos juntos criaram uma imagem que não precisava de explicação.

Com o tempo, o vocabulário foi se tornando mais elaborado. Nas eras Dangerous e HIStory, as jaquetas militares com dourado e epauletes remetiam à iconografia barroca e aos retratos de regentes históricos. Jackson descreveu suas roupas como "uma armadura". Colaborou com Riccardo Tisci, Hedi Slimane e Christophe Decarnin, muito antes de qualquer um deles virar o nome mais importante de suas respectivas casas.

Jaafar Jackson: ator interpreta Michael Jackson no filme 'Michael' (Glen Wilson/Lionsgate/Divulgação)

A moda sempre soube usar essa iconografia. O que nem sempre soube foi o que fazer com o resto. Em 2017, a Supreme lançou uma série de hoodies e camisetas com imagens de Jackson na era Billie Jean. Em janeiro de 2019, a Louis Vuitton de Virgil Abloh apresentou uma coleção inteira inspirada no cantor, com jaquetas que remetiam ao Thriller, personagens de O Mágico de Oz e uma camiseta com renderização das meias pretas e loafers. Abloh descreveu Jackson como "o inovador mais importante da história do vestuário masculino". Oito dias depois, Leaving Neverland estreou no Sundance.

Dois meses mais tarde, após a exibição do documentário na HBO, a Louis Vuitton interrompeu a produção de todos os itens que faziam referência direta ao cantor. O convite do desfile, uma luva branca cravejada de strass, hoje é vendido no eBay por até US$ 3.000. É a única peça daquela coleção que de fato sobreviveu.

A cinebiografia termina no início da Bad Tour, antes das acusações surgirem. É exatamente o recorte que a moda sempre preferiu: o período em que Jackson ainda era apenas o mágico musical que dominou a MTV. A decisão narrativa foi criticada por boa parte da imprensa, e o filme registra apenas 39% de aprovação no Rotten Tomatoes. O público recebeu melhor: nota A no CinemaScore.

Para a designer de figurinos Marci Rodgers, o desafio foi reconstruir cada peça do zero, com pesquisa em arquivos, busca por tecidos originais e reconstrução manual. Uma das maiores dificuldades foi recriar as calças vermelhas do clipe do Thriller com a tonalidade exata: Rodgers foi até a rua de noite para comparar o tecido sob a luz da lua, o mesmo contexto em que as calças originalmente apareciam na cena. Jaafar Jackson usa apenas recriações, sem acesso às peças originais do acervo.

O impacto no mercado foi imediato. Buscas por jaquetas militares bordadas, loafers com meias brancas e jaquetas de couro vermelhas cresceram nas semanas seguintes à estreia. É um ciclo que se repete cada vez que Jackson volta ao centro da conversa cultural. A moda sempre volta junto, com a mesma seletividade de sempre.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: