Paradoxo climático: acordo Mercosul-UE pode impulsionar investimentos verdes e elevar emissões
Ao mesmo tempo que pode destravar uma nova onda de investimentos verdes no Brasil, o recém-assinado acordo entre Mercosul e União Europeia também traz um paradoxo climático: a expansão do comércio entre os blocos pode elevar emissões de gases de efeito estufa.
Isso acontece porque o aumento do fluxo de mercadorias tende a ampliar o transporte internacional e a produção de bens exportados, atividades responsáveis por uma parcela significativa da pegada de carbono global.
Hoje, cerca de 30% dos gases poluentes emitidos na atmosfera estão associados ao comércio internacional, principalmente à logística.
“A expansão comercial pode aumentar emissões logísticas e de produção, o que pode neutralizar parte dos ganhos climáticos”, destaca Carolina Pavese, diretora da Impacta Consultoria Estratégica e uma das advisors do tratado internacional que iniciou formalmente as negociações ainda na década de 90.
Para a especialista, a mudança comercial precisa ser entendida dentro de um contexto mais amplo de transformação energética global.
“Um dos efeitos é a aproximar dois mercados complementares: uma Europa que demanda recursos para descarbonizar e um Brasil com potencial enorme para ser fornecedor da transição energética", diz.
Assinado em janeiro de 2026, o acordo prevê o livre comércio e parceria estratégica entre os blocos: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai de um lado e os 27 países da União Europeia do outro, eliminando tarifas sobre cerca de 91% dos bens comercializados.
Segundo Carolina, o acordo está mais próximo de sair do papel do que em qualquer momento das últimas duas décadas: ratificado por Uruguai e Argentina, enquanto no Brasil o texto foi aprovado pelo Senado e aguarda apenas a publicação no Diário Oficial da União.
Com três dos quatro países do Mercosul concluindo o processo, a expectativa é que o novo capítulo comercial possa entrar em vigor em breve, de forma provisória.
Na prática, o tratado deve facilitar exportações agrícolas e industriais, reduzir barreiras comerciais e integrar cadeias produtivas.
Estimativas indicam que a liberalização comercial pode eliminar cerca de R$ 22 bilhões de tarifas entre os dois blocos.
Além disso, especialistas são unânimes: é preciso analisar as novas regras no contexto geopolítico global,caracterizado por tensões geopolíticas e conflitos no Oriente Médio, que expõem a forte dependência global de combustíveis fósseis.
A União Europeia busca reduzir sua dependência de cadeias industriais dominadas pela China e garantir acesso a insumos estratégicos para a transição energética, como minerais críticos, tecnologias limpas e energia renovável.
++ Leia mais: Como a guerra no Oriente Médio pode impulsionar energias renováveis
Nesse cenário, o Brasil ganha relevância como parceiro estratégico e sai na frente na corrida pela transição energética.
Comércio tende a crescer com pressão por padrões ambientais
Hoje, a União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Mercosul, enquanto o bloco sul-americano representa cerca de 2% do comércio total europeu.
Apesar dessa assimetria, a balança comercial entre as regiões apresenta uma característica incomum: ela é relativamente equilibrada e chegou a registrar superávit para o Mercosul.
A estrutura do comércio, porém, reflete diferenças importantes entre as economias. O Mercosul exporta principalmente commodities, como combustíveis minerais, produtos agrícolas e minerais metálicos.
Já a União Europeia vende ao bloco sul-americano bens manufaturados e tecnologia, como máquinas, equipamentos industriais, produtos farmacêuticos e veículos.
A expectativa é que o acordo amplie o comércio entre os blocos em cerca de 2,3%. Projeções indicam que, até 2040, as exportações podem crescer 2,7% no Mercosul, 2,3% no Brasil, 3,48% na Argentina e 2,57% no Uruguai.
Por outro lado, a especialista aponta que há uma tendência de aumentar a pressão por padrões ambientais mais rigorosos e sustentáveis nas cadeias produtivas, já que o bloco europeu tem incorporado critérios de clima cada vez mais rígidos em seus acordos comerciais.
Nos últimos anos, a União Europeia passou a incorporar critérios climáticos cada vez mais rígidos em suas políticas comerciais. Entre eles estão o CBAM (mecanismo de ajuste de carbono na fronteira) e o regulamento europeu antidesmatamento, que exige rastreabilidade de commodities.
“Para a Europa, a descarbonização já é uma condição para fluxos de produtos internacionais”, afirma Carolina.
Na prática, isso significa que empresas que exportam para o bloco europeu precisarão comprovar padrões ambientais mais rigorosos para acessar o mercado.
Investimentos verdes em alta
Mais relevante do que o impacto direto no comércio pode ser o aumento dos investimentos.
A União Europeia já é hoje o maior investidor estrangeiro no Brasil, considerando o conjunto de seus países. Entre os principais destinos desses recursos estão serviços financeiros, petróleo e gás, comércio, infraestrutura energética e indústria química.
Nos últimos anos, alguns setores ligados à transição energética registraram crescimento acelerado de investimentos europeus no país, como educação, pesquisa e desenvolvimento científico e mineração de minerais críticos.
Segundo Carolina, a tendência europeia é ampliar presença no país em setores estratégicos da nova economia verde.
“Há uma mobilização muito grande de empresas interessadas em investir mais no Brasil em setores como energia, aço verde e tecnologias de descarbonização”, garante a executiva.
O impacto do acordo não deve se limitar à geração de energia renovável. A expectativa é que ele estimule cadeias industriais ligadas à transição climática, como biocombustíveis, hidrogênio verde, minerais críticos e produtos industriais de baixo carbono.
O impacto final ainda depende da implementação
Apesar do potencial econômico e climático do acordo, especialistas apontam que os efeitos concretos dependerão da implementação das regras ambientais e das políticas industriais adotadas pelos países envolvidos.
Se bem executado, o tratado pode transformar o comércio internacional em um instrumento para acelerar a descarbonização. Caso contrário, corre o risco de ampliar emissões em cadeias produtivas ainda intensivas em carbono.
“É preciso antecipar riscos, mas também se preparar para as enormes oportunidades para o Brasil", conclui Carolina.
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