Passarinhos fumantes? Aves fazem uso curioso de bitucas de cigarro em ninhos
As bitucas de cigarro finalmente podem ter recebido uma funcionalidade interessante. Deixadas por fumantes nas ruas, elas têm se mostrado bastante úteis para diversas espécies de aves urbanas.
Pesquisas realizadas em diferentes países mostram pássaros que desenvolveram o hábito de incorporar os restos de cigarros aos seus ninhos para afastar parasitas.
Quais aves usam bitucas de cigarro nos ninhos?
O fenômeno foi observado em espécies de continentes diferentes.
Espécies como os tentilhões de Darwin, nas Ilhas Galápagos; os tentilhões domésticos e os pardais, no México; os tordos-canoros, na Nova Zelândia; e os chapins-azuis, na Europa, já foram observadas usando bitucas de cigarro na construção de seus ninhos.
No Reino Unido, alguns pássaros chegam a construir ninhos diretamente dentro de cinzeiros externos, segundo o New York Times.
Chapim-real faz ninho em cinzeiro externo em uma fábrica de ferramentas na Inglaterra. Os fumantes da fábrica estranharam quando o canto do pássaro começou a vazar pelo cinzeiro externo (David Jones/PA Images/Getty Images) (David Jones/PA Images/Getty Images)
No México, pesquisadoras da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) foram as primeiras a documentar e estudar sistematicamente o comportamento.
A pesquisa de Monserrat Suárez-Rodríguez examinou ninhos de pardais domésticos e tentilhões domésticos no campus da universidade, na Cidade do México, e constatou que as bitucas eram um elemento persistente e abundante. Segundo o estudo publicado na revista Biology Letters da Royal Society, os ninhos de pardais continham em média oito bitucas, e os de tentilhões, dez, com alguns chegando a acumular até 48.
Mais recentemente, um estudo publicado no periódico Animal Behaviour investigou o comportamento em chapins-azuis, aves coloridas comuns em toda a Europa que constroem ninhos em cavidades naturais ou caixas de madeira.
A pesquisa foi conduzida por uma equipe da Universidade de Lodz, na Polônia, em parques urbanos e florestas próximas à instituição, e monitorou a saúde de 99 filhotes nascidos em três tipos diferentes de ninhos: sem intervenção, com musgo artificial estéril e algodão, e com duas bitucas de cigarro usadas.
Treze dias após o nascimento, três filhotes por ninhada foram medidos e tiveram sangue coletado. Os exames indicaram que os filhotes, tanto nos ninhos estéreis quanto nos ninhos com bitucas, eram mais saudáveis do que os dos ninhos naturais sem tratamento.
Após os filhotes deixarem o ninho, os pesquisadores analisaram as populações de parasitas em todo o material coletado: os invasores eram mais numerosos nos ninhos naturais e quase ausentes nos ninhos com materiais esterilizados.
Nos ninhos com bitucas, os parasitas eram ligeiramente menos numerosos do que nos ninhos naturais, com destaque para a redução de moscas-varejeiras e pulgas.
Como as bitucas funcionam como pesticidas
As bitucas de cigarro contêm cerca de 4.000 compostos químicos, entre eles, nicotina, arsênio, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e metais pesados.
A nicotina, em particular, é um repelente natural de insetos. Derivada da planta do tabaco, a substância já foi utilizada como pesticida em plantações e no controle de ectoparasitas em aves domésticas, segundo o estudo da UNAM.
A hipótese de que as aves estariam se aproveitando dessas propriedades foi testada de diferentes formas.
No México, a equipe da UNAM mediu a quantidade de acetato de celulose, componente dos filtros de cigarro, nos ninhos e constatou que quanto maior a presença do material, menor era o número de ácaros parasitas.
Para confirmar que o efeito estava ligado à nicotina, e não apenas à estrutura física do filtro, os pesquisadores usaram armadilhas térmicas equipadas com fibras de cigarros fumados ou não fumados. As armadilhas com bitucas fumadas, que retêm mais nicotina, atraíram significativamente menos parasitas, segundo o estudo.
O estudo da UNAM demonstrou ainda que, quando pesquisadores adicionavam mais carrapatos vivos aos ninhos, as fêmeas de tentilhão respondiam acrescentando mais bitucas, um indício de que o comportamento pode ser deliberado.
O que esse comportamento nos diz sobre evolução?
Para os pesquisadores, o uso de bitucas de cigarro pode ser uma versão urbana de um comportamento muito mais antigo.
Sabe-se há décadas que diversas espécies de aves forram seus ninhos com plantas aromáticas, cujos compostos voláteis repelem parasitas. A hipótese, levantada por pesquisadores da UNAM, é que nas cidades onde esse tipo de vegetação é mais escasso, algumas aves teriam encontrado nas bitucas um substituto funcional para esse material.
A questão de se o comportamento é de fato intencional ainda está em aberto. Os pesquisadores sugerem que o olfato pode estar envolvido, já que algumas aves que usam plantas medicinais parecem identificá-las pelo cheiro.
"Será que essas aves mostram preferência por marcas de cigarro com alto teor de nicotina? Se mostrassem, isso sugeriria que o comportamento realmente evoluiu como resposta adaptativa aos parasitas", especulou Timothy Mousseau, ecologista da Universidade da Carolina do Sul, ao NYT.
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