Pequeno empréstimo, grande fila: ela atende os ‘sem acesso’ ao sistema financeiro
Em um país em que 81,2 milhões de pessoas estavam inadimplentes em dezembro — quase metade da população adulta —, uma empreendedora pernambucana decidiu começar do outro lado da fila: os brasileiros que nem aparecem no radar de bancos e financeiras.
A Cloq, criada por Rafaela Cavalcanti, oferece empréstimos de pequenos valores, de no máximo R$ 500, para quem não tem histórico em bureaus de crédito ou já está negativado, com a missão de construir um histórico positivo em vez de empurrar o endividamento para a frente.
Até agora, a empresa já realizou mais de 30 mil nano-empréstimos para um universo de pouco mais de 12 mil pessoas, com mais de 100 mil cadastradas na plataforma — e uma fila de espera que varia entre 140 mil e 150 mil interessados, todos chegando basicamente por indicação de amigos e familiares.
Os valores são deliberadamente pequenos: o primeiro crédito liberado fica entre R$ 100 e R$ 150, com prazo mínimo de um mês e máximo de quatro, para evitar que o empréstimo vire “dinheiro extra de carteira” usado em consumo imediato e esquecido na hora de pagar.
Como tudo começou
A Cloq nasceu de uma história que começa bem longe de termos como score alternativo e algoritmo. Cavalcanti cresceu em Recife, em uma família de empreendedores informais: o pai com um mercadinho, a mãe com uma lojinha de rua.
Ainda criança, aprendeu a somar atrás do balcão, ajudando a dar troco e escolher produtos para vender. O negócio cresceu, mas virou alvo de violência: foram 17 assaltos ao longo dos anos, muitos deles com arma em punho, até que a família passou a recorrer a agiotas para conseguir repor mercadorias.
Sem acesso a crédito formal, a mãe de Cavalcanti entrou em uma espiral conhecida de perto por milhões de brasileiros: empréstimos informais cobrando algo próximo a 3.000% de juros ao ano.
A família levou quase dez anos para sair desse ciclo. A lojinha segue de pé, mas a experiência deixou marcas — e um problema que Cavalcanti decidiu enfrentar em escala maior.
A jovem pernambucana estudou administração na UFPE e trabalhou como au pair para pagar os estudos no exterior. Passou por projetos de consultoria em mercados como Índia, China e Holanda, sempre em negócios voltados a países em desenvolvimento.
Foi em Amsterdã, já com carreira consolidada, que o problema da família voltou a bater na porta: ao visitar a filha, a mãe apareceu com um novo empréstimo de agiota, desta vez a 10% para apenas 15 dias de viagem.
“Ela não vê a porcentagem, vê só o valor: ‘vai me custar mil reais, quando eu voltar eu trabalho e pago’”, conta Cavalcanti. “Para quem não domina juros compostos, isso parece um detalhe — mas é exatamente aí que começa a bola de neve.”
A partir dessa conversa, ela e o atual sócio, um holandês com experiência em scores alternativos usados por um banco internacional na Indonésia, decidiram testar um modelo de crédito diferente, com foco em um público de alto risco percebido, mas completamente invisível para o sistema financeiro tradicional.
Como funciona?
A Cloq opera com um score de crédito próprio, baseado principalmente em comportamento, e não em dados de SPC ou Serasa.
A empresa começou a testar o modelo em 2018, ainda em um programa do Startup Chile, oferecendo empréstimos muito pequenos para pessoas sem qualquer histórico de crédito ou já negativadas. A pergunta central era simples: elas vão pagar de volta?
O desenho do produto parte dessa premissa. Quem baixa o aplicativo não recebe crédito na hora: o algoritmo precisa observar como a pessoa se comporta dentro da plataforma e em algumas interações iniciais antes de classificá-la como “confiável” ou “de risco”.
Quando o empréstimo é liberado, o valor inicial não passa de R$ 150, mesmo para quem tem renda maior. O prazo mínimo é de um mês e o máximo, de quatro. A empresa também oferece desconto nos juros para quem antecipa o pagamento.
Há também um conjunto de “nãos” programados no sistema. A Cloq não libera crédito em datas como Carnaval, Ano-Novo ou São João, justamente para desincentivar o uso do dinheiro em algo que será difícil de lembrar depois — o dinheiro gasto em um fim de semana na praia, por exemplo, só traz sorrisos no momento.
A ideia é que o empréstimo seja associado a algo concreto, como estoque para uma esmalteria ou insumos para um pequeno negócio, o que ajuda o usuário a perceber o impacto daquela decisão e a manter o pagamento em dia.
A próxima etapa de crescimento, prevista para o fim deste semestre, será baseada em indicações: bons pagadores poderão “puxar” alguém da fila, acelerando a análise e a eventual liberação de crédito para amigos e familiares — sempre em número limitado de convites por pessoa.
“Queremos ensinar educação financeira sem falar de educação financeira”, diz Cavalcanti.
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