Petróleo a US$ 100 espanta o mercado — mas dá para dizer que está caro?
O preço do petróleo voltou ao centro das atenções dos mercados globais nos últimos dias. Depois de disparar e encostar em US$ 120 por barril, o equivalente a R$ 619, nível não visto desde meados de 2022, a commodity passou por uma queda brusca poucas horas depois nesta segunda-feira, 9.
No meio dessa votalidade, analistas e investidores tentam entender se o atual patamar da commodity reflete um novo equilíbro do mercado ou apenas um prêmio temporário de risco provocado pelo conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã.
O que parte dos operadores avaliam, inicialmente, é que a resposta para isso depende, em grande parte, de como se interpreta o atual momento do mercado e, sobretudo, o peso do risco geopolítico.
A disparada no início da semana aconteceu quando o Brent, a referência global, chegou a US$ 119,50 por barril, no maior salto absoluto já registrado em um único dia. Antes disso, a commodity já acumulava uma forte escalada. Desde o início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro, o Brent havia subido 28% e o WTI, parâmetro dos EUA, acumulava alta de 36%.
O movimento refletiu o temor de uma interrupção prolongada no fluxo global de petróleo, especialmente após a paralisação do tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% da produção mundial.
Mas o mercado mostrou rapidamente o quanto essa alta estava ligada ao noticiário da guerra. Nesta terça, 10, os preços despencaram 18%, na maior queda percentual em uma única sessão desde 2022, depois que o presidente americano Donald Trump afirmou que o conflito contra o Irã poderia estar próximo do fim.
No encerramento, o Brent caiu 11,27%, cotado a US$ 87,80 por barril, e o WTI recuou 11,94%, a US$ 83,45. Mesmo com o recuo, porém, o episódio deixou claro o grau de sensibilidade do petróleo aos desdobramentos geopolíticos desse conflito no Oriente Médio.
Um preço inflado pelo risco
Segundo João Daronco, analista CNPI da Suno Research, o nível que o petróleo atingiu nesta semana está claramente acima da média histórica. "Esse preço engloba diversas preocupações em relação à duração do conflito e já precifica uma extensão dos conflitos por um tempo maior do que o mercado está esperando", diz.
O analista observa que o patamar atual se assemelha ao observado durante os desdobramentos da guerra entre Rússia e Ucrânia, quando o temor de interrupções na oferta global também impulsionou as cotações.
Ainda assim, na avaliação dele, o principal motor da alta recente é o risco geopolítico, e não mudanças estruturais no equilíbrio do mercado. O que é corroborado pela análise de Marcus D’Elia, sócio da Leggio Consultoria.
Para o especializada em petróleo e gás, o pico próximo de US$ 120 pode ser interpretado como parte da volatilidade natural de um momento de forte tensão geopolítica.
Considerando que o conflito tem cerca de dez dias e que houve restrições significativas ao transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz, D’Elia avalia que o mercado esperava preços entre US$ 80 e US$ 100. Nesse contexto, um salto temporário acima desse intervalo não seria inesperado.
"Um pico de US$ 120 ainda estaria dentro de uma expectativa de volatilidade. Reforçando que este pico se deve especificamente ao contexto ocorrido ao longo do fim de semana, onde instalações de produção e refino de petróleo e gás foram atingidas por ataques aéreos", afirma o especialista.
O preço sem guerra
Se o conflito sair da equação, a percepção sobre o valor do petróleo muda significativamente. Daronco afirma que, em um cenário sem interrupções na oferta global, um preço mais "normalizado" estaria bem abaixo do observado nos últimos dias.
"Na nossa visão, um patamar normalizado seria algo próximo de US$ 65 a US$ 70 por barril, sem considerar conflitos que possam prejudicar a oferta global", diz.
D’Elia também observa que o patamar atual não encontra sustentação estrutural. Segundo ele, o mercado vinha enfrentando inclusive um cenário de sobreoferta global antes da escalada da guerra. "Hoje não existe nenhum fator estrutural que permita que o petróleo permaneça cotado indefinidamente em US$ 100", afirma.
De acordo com o especialista, a alta recente reflete principalmente um problema logístico, em que o petróleo produzido na região do Golfo Pérsico enfrenta dificuldades para chegar ao mercado devido ao risco de navegação na área.
Liberação de estoques de emergência
Diante do risco de escassez da commodity, um dos mecanismos capazes de conter a alta do petróleo é a liberação de reservas estratégicas por grandes economias. Os ministros de energia do G7 discutem um acordo sobre a liberação das reservas estratégicas de petróleo para lidar com crise de abastecimento no Oriente Médio.
De acordo com D'Elia, essa medida funciona como um "amortecedor" para o mercado, ao compensar temporariamente o petróleo que deixou de ser exportado. "É como se houvesse uma estabilização artificial, em função desse fator de amortecimento representado pelas reservas estratégicas", diz.
O objetivo, segundo ele, seria tentar manter os preços próximos de US$ 100 enquanto o fluxo normal de petróleo não é restabelecido. Ainda assim, esse instrumento tem limites. As reservas estratégicas são calculadas com base em dias de importação de petróleo e variam entre os países cerca de 200 dias nos Estados Unidos, entre 115 e 120 dias na China e cerca de 90 dias na Europa.
Até onde os preços do petróleo podem ir
Para o mercado, o principal fator que determinará o preço do petróleo nas próximas semanas é a duração das restrições no Estreito de Ormuz. O sócio da Leggio calcula que se houver apenas uma restrição parcial prolongada, com cerca de 70% a 80% do fluxo normal de petróleo, os preços poderiam se manter entre US$ 100 e US$ 120 durante esse período.
Em um cenário mais extremo, com bloqueio completo da rota por cerca de três meses, o mercado poderia enfrentar um choque de oferta mais severo.
"Neste caso, os estoques estratégicos não são suficientes para conter a pressão de preços e assim podem atingir patamares de 150 USD a 180 USD. Este é um cenário limite que não deve ocorrer, devido ao forte impacto na economia mundial", afirma D'Elia.
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