Petróleo, trens e TI: como funciona a parceria entre Irã e China

Por Rafael Balago 5 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Petróleo, trens e TI: como funciona a parceria entre Irã e China

Em 2021, ainda usando máscaras por causa da pandemia, ministros da China e do Irã assinaram um termo de cooperação estratégica que previa US$ 400 bilhões em investimentos chineses, em troca de um suprimento garantido de petróleo iraniano, vendido com descontos.

Naquela ocasião, na prática, o Irã passou a integrar o projeto trilionário Cinturão e Rota, uma rede de investimentos chineses pelo mundo, para facilitar a circulação de mercadorias.

Na ocasião, Mohammad Javad Zarif, ministro das Relações Exteriores do Irã, celebrou o acordo. Ele chamou a China de "um amigo para tempos difíceis". Do outro lado, o chanceler chinês Wang Yi disse que "nossas relações com o Irã serão permanentes e estratégicas".

Nos anos seguintes, nem todos os investimentos saíram do papel, mas os dois países se aproximaram em várias frentes.

A principal parceria entre os dois países envolve petróleo. O país é o maior comprador do produto iraniano. Dados do ano passado, citados pela agência Reuters, apontam um volume de 43 milhões de barris por mês, cerca de 90% do total exportado pelo Irã.

Assim, o Irã responde por cerca de 13% das compras de petróleo da China. O país depende da importação do produto, pois produz 30% do petróleo que consome.

O Irã, alvo de sanções, não pode vender o petróleo para países ocidentais. Assim, as compras da China ajudam a manter a economia do país. Ao mesmo tempo, a China aproveita a vantagem de comprar o produto com descontos, já que o Irã tem menos compradores disponíveis.

"Qualquer coisa que aconteça no mercado de petróleo preocupa muito a China. Mas o país tem reservas estratégicas, que seriam suficientes para suprir as necessidades de importação por 78 dias", diz Cláudia Trevisan, diretora do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

"No curto prazo, a China não terá qualquer colapso por conta do fornecimento de petróleo. E a China tem alternativas, como aumentar a importação de petróleo da Rússia", afirma.

Navio petroleiro no Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico (Germán Vogel/Getty Images)

Ferrovias e energia solar

O acordo de 2021 veio em meio a uma série de investimentos e projetos bilionários. Segundo o instituto The American Enterprise, os investimentos chineses entre 2007 e 2025 foram de quase US$ 5 bilhões.

O valor é elevado, mas menor do que a China investiu em outros países da área. Os Emirados Árabes Unidos receberam mais de US$ 8,1 bilhões, e a Arábia Saudita, US$ 15 bilhões, em períodos similares.

A petroleira Sinopec, por exemplo, assinou um acordo de US$ 2,1 bilhões para reformar uma refinaria em Abadan.

Em ferrovias, duas empresas chinesas assinaram termos para expandir ramais de ligação entre Teerã e o oeste do país.

Outros contratos incluem um enorme projeto de energia solar, de US$ 1,16 bilhão, capaz de gerar 2 bilhões de KWh de energia por ano. O acordo foi assinado em 2024 pela empresa chinesa LDK Solar.

No entanto, boa parte dos projetos ainda não foram concluídos. Alguns deles foram atrasados por conta do aumento das pressões e ataques de Israel e Estados Unidos sobre o Irã.

Cooperação em defesa

A China também atua no Irã com serviços de defesa e vigilância. Em 2010, a empresa de tecnologia ZTE assinou um contrato de US$ 130 milhões para implantar um sistema de vigilância nas redes de telefonia e internet do Irã.

A cooperação em TI se estende a outras áreas, como o fornecimento de tecnologias de reconhecimento facial e de inteligência artificial, e de ferramentas de controle de acesso à internet, inspiradas no modelo usado na própria China, apelidado de "Grande Firewall".

"A tecnologia de vigilância que permite à Guarda Revolucionária rastrear, identificar e punir dissidentes foi fornecida pelas mesmas empresas que realizam funções idênticas para o Partido Comunista em Xinjiang", ,diz Zineb Riboua, pesquisadora do Hudson Institute, que pesquisa paz e segurança no Oriente Médio, em um artigo. "Para Pequim, um Irã dependente e é um Irã útil."

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: