PicPay completa um mês na bolsa, ação cai 10%, mas mercado vê potencial

Por Clara Assunção 2 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
PicPay completa um mês na bolsa, ação cai 10%, mas mercado vê potencial

Um mês depois de tocar a campainha de estreia na Nasdaq, o PicPay já vive o teste mais importante para uma companhia recém-listada: o da realidade do mercado.

Primeira Oferta Pública Inicial (IPO) de uma empresa brasileira em quatro anos, a fintech começou a ser negociada em 30 de janeiro a US$ 19,01. No fechamento da sexta-feira, 27, as ações (PICS) estavam em US$ 17,08— uma queda de aproximadamente 10,11% no período. Nesse meio do caminho, elas chegaram à mínima de US$ 13,19.

O valor de mercado da instituição, que na listagem foi estimado em US$ 2,6 bilhões já considerando o dinheiro novo, hoje gira em torno de US$ 2,3 bilhões.

O movimento frustrou parte das expectativas criadas na estreia, que saiu no topo da faixa indicativa e marcou a retomada das empresas brasileiras no mercado americano. Para Gustavo Moreira, planejador financeiro CFP e sócio da InvestSmart XP, o desempenho faz parte do roteiro clássico de pós-IPO.

"Na minha avaliação, esse recuo no primeiro mês das ações do PicPay está muito ligado a um ajuste natural depois de uma estreia cercada de forte demanda e projeções bastante otimistas de crescimento", afirmou Moreira.

"Fica claro que parte relevante dos investidores entrou no IPO com expectativa de alta acelerada no curto prazo e, como essa performance imediata não se confirmou, ocorreu uma pressão vendedora típica de realização de ganhos".

Pesou também contra o papel, segundo o analista, o fato de o mercado recalibrar os múltiplos da empresa frente a outras fintechs negociadas nos Estados Unidos. "E mesmo com instituições como Citi apontando espaço para valorização estrutural, no curtíssimo prazo predominou uma postura mais conservadora e de ajuste de carteira por parte dos investidores", disse.

Mas é justamente nessa recalibragem de múltiplos que entram os relatórios mais recentes.

No início desta semana, o Citi iniciou cobertura do papel com recomendação de compra e preço-alvo de US$ 28 para o fim de 2026, apontando um potencial de alta de 78,23% frente ao último fechamento considerado no relatório.

A tese central do banco americano está na expansão do crédito, especialmente na carteira própria, que ainda é pequena, mas deve ganhar escala nos próximos anos.

O banco estima que a carteira avance de R$ 21,5 bilhões em 2025 para R$ 50,5 bilhões até 2027. O paralelo traçado é com o modelo do Nubank, começar com produtos mais seguros e limites baixos e, gradualmente, elevar ticket e rentabilidade.

O Citi também projeta um crescimento médio anual de lucro de 35% entre 2025 e 2030 e vê o retorno sobre patrimônio (ROE) saltando de 17% em 2024 para 31% em 2027.

Pelas contas do banco, o PicPay negocia com desconto de 5% em relação ao Nubank e de 47% frente ao Inter, considerando as estimativas para 2026.

Do lado do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), que se reuniu com a administração após o IPO, a leitura é que a empresa pode estar em um ponto de inflexão, saindo de um ciclo pesado de investimentos para uma fase de maior alavancagem operacional.

A estratégia reforçada pela gestão em reunião com o BTG, realizada nesta semana, é a de "começar de baixo e crescer" no crédito. O que significa que o PicPay começa concedendo crédito de forma mais conservadora, com limites menores e prazos curtos e, à medida que o cliente demonstra bom comportamento de pagamento dentro do aplicativo, aumenta gradualmente os valores e a exposição.

O banco destacou ainda a expansão em consignado privado, com carteira de cerca de R$ 3,6 bilhões e ROE acima de 30%, além do avanço da vertical de seguros com a aquisição da KOVR, a corretora de seguros, por R$ 620 milhões, ainda sujeita a aprovação regulatória.

Listagem nos EUA, mas com foco no Brasil

Esse foco ajuda a entender por que a listagem ocorreu nos Estados Unidos, mas a estratégia segue 100% doméstica, como contou Eduardo Chedid, CEO do PicPay, na ocasião do IPO.

Fundado em 2012 como carteira digital para transferências entre pessoas, o PicPay virou banco múltiplo e soma mais de 42 milhões de clientes ativos. Segundo o executivo, o foco nos próximos dois a três anos é execução no Brasil — especialmente aumentar a penetração de crédito e o cross-selling na base de mais de 66 milhões de contas.

Já a escolha da Nasdaq, apesar do interesse local, foi para acessar investidores especializados em tecnologia, crescimento e mercados emergentes.

Na esteira do PicPay, o Agibank também listou ações na bolsa, agora em fevereiro.

A fintech levantou US$ 240 milhões e passou a negociar ações na New York Stock Exchange (Nyse). Os papéis começaram cotados a US$ 10,60 e encerraram o último fechamento a US$ 11,70, acumulando alta de quase 9% desde a estreia. Assim como o PicPay, abertura de capital do Agibank ocorreu em um contexto de incerteza.

Se o primeiro mês do PicPay foi de ajuste, com perda de valor de mercado e volatilidade, os relatórios de bancos globais indicam que a discussão já migrou do “timing do IPO” para a execução da estratégia. O mercado, agora, parece menos interessado na narrativa da estreia histórica e mais atento à capacidade da fintech de transformar base de clientes em rentabilidade sustentável.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: