Por dentro do museu do Centro Presidencial Obama: mais que monumento, um chamado à ação
Chicago - Barack Obama tinha 23 anos quando chegou a Chicago, em 1985, vindo de Nova York por uma avenida de quatro pistas que cortava o Jackson Park.
Quatro décadas depois, ele aponta para uma cerca instalada quase onde ficava aquela via. "Foi ali que cheguei", disse, diante de convidados reunidos na quarta-feira, 17, que aguardavam uma visita privativa ao museu do Obama Presidential Center.
O espaço é a principal atração do centro presidencial da Obama Foundation, que abre ao público na sexta-feira, 19. Nesse dia, a cerca cai em definitivo, no mesmo terreno por onde o então futuro presidente passou de carro pela primeira vez. E agora, onde havia uma via expressa, há um parque ampliado.
Numa manhã de tempo instável, algo comum em Chicago - ventava forte e um alerta de tempestade para o fim do dia adiantou o evento, inicialmente marcado para a tarde - o casal Obama recebeu convidados com discursos emocionados.
Michelle Obama falou primeiro. "Isso não é uma ideia. É real. As pessoas podem vir aqui e ver tudo o que é e tudo o que tem a oferecer", celebrou.
Em seguida, pediu que quem pudesse doar mais, doasse, e que ajudassem a trazer outras pessoas para o projeto. "Vamos continuar trabalhando, mas preciso saber que vocês estão conosco nisso, pelo resto do nosso tempo."
Na sequência, o ex-presidente assumiu o microfone e começou listando os endereços que marcaram sua vida no South Side, bairro onde o complexo está instalado. A recepção de casamento, contou, foi no South Side Cultural Center, a 20 minutos a pé.
O primeiro apartamento do casal ficava à mesma distância e as filhas nasceram no hospital da Universidade de Chicago. A primeira candidatura, ao Senado estadual de Illinois, foi anunciada num hotel na Lakeshore Drive.
Do bairro vieram ainda lições que ele diz ter levado para as campanhas e para Washington, como a resiliência diante da dificuldade, o senso de comunidade e a capacidade de manter o bom humor quando as coisas não vão bem.
Agora, mais do que devolver um espaço à altura dessa história, o centro é, em suas palavras, um recado ao país: "estamos fincando uma bandeira que diz que acreditamos na democracia, na igualdade e em tratar as pessoas bem."
Nem biblioteca, nem monumento
O Obama Presidential Center ocupa 7,7 hectares no Jackson Park, parque histórico desenhado em 1871 pelos mesmos criadores do Central Park de Nova York. Conta com uma filial da Biblioteca Pública de Chicago, uma quadra de basquete com dimensões oficiais da NBA, restaurante e jardim.
Mas é o museu, alojado numa torre de granito, que carrega o peso simbólico do projeto. A começar pelo fato de o centro não seguir o modelo das bibliotecas presidenciais americanas, geridas pelo governo federal.
Vista do museu do Obama Presidential Center, maior das atrações do complexo.
Foi erguido só com recursos privados, é administrado pela Obama Foundation e teve o acervo presidencial inteiramente digitalizado pela primeira vez, cerca de 30 milhões de páginas - uma diferença que não é apenas administrativa.
Em vez de um arquivo de documentos voltado ao passado, o que se encontra é um espaço pensado para receber, formar e fazer pensar, com programas para jovens, professores e moradores da região.
É também ali que a essência do casal fica mais evidente. Não só a do presidente e da primeira-dama, mas a de duas pessoas cujo trabalho começou muito antes da Casa Branca, nas igrejas e nas ruas deste mesmo bairro.
O país antes do presidente
Importante destacar que o museu não se propõe a ser uma homenagem a Obama. Apresenta-se quase como um relato do que tornou possível sua chegada à presidência.
E a ordem das salas confirma a intenção. A visita não se inicia pela presidência ou infância de Barack, mas pela história dos Estados Unidos.
A primeira exposição, Toward a More Perfect Union, remete à declaração de Independência, escravidão, sufrágio feminino e o mobilizações pelos direitos civis - movimentos que influenciaram mudanças que abriram caminho até a Casa Branca.
Só mais adiante a história pessoal entra em cena e os dois fios passam a andar juntos, em painéis que reconstroem a trajetória do ex-presidente antes da política.
Nos andares superiores, estão galerias dedicadas às iniciativas públicas de Michelle como primeira-dama e também uma vitrine de figurinos marcantes que vão de vestidos de gala a uma peça básica comprada na popular loja Target.
Vitrine com acervo de peças usadas por Michelle Obama enquanto era primeira-dama dos Estados Unidos. (Obama Foundation)
Há também uma réplica em escala real do Salão Oval como era durante o governo Obama, onde os visitantes podem sentar à mesa presidencial. Um cenário que ganhou outro peso depois que o gabinete real passou por uma reforma radical e hoje quase não lembra o que era antes.
A todo tempo, os visitantes são convidados a interagir com as atrações e a imaginar o próprio impacto. Na saída, está gravada a pergunta: o que você vai fazer com isso?
A arte que não decora
Trinta artistas de origens diversas foram convidados a criar peças originais, numa escala inédita para uma instituição presidencial americana.E nenhuma delas está ali para decorar. Todas cobram, de certa forma, algo de quem visita.
Logo na primeira sala, ao lado da fotografia de uma manifestante pelo voto feminino, está uma frase de Jane Addams, ativista, sufragista e primeira americana a ganhar o Nobel da Paz:
"O bem que asseguramos para nós mesmos é precário e incerto... até que seja assegurado para todos e incorporado à nossa vida comum."
No saguão principal está The Obamas: Springing Forth (2026), de Njideka Akunyili Crosby, o primeiro retrato oficial duplo do casal. Barack Obama aparece em pé, levemente recuado. Michelle está sentada, olhando de frente.
Ao fundo, a arquitetura lembra o Salão Oval, e, pela janela, vê-se a rua onde ela cresceu, com o Buick do pai estacionado na frente. Mais que uma imagem de poder, o que se vê é o retrato das origens.
Logo adiante, suspensa no teto de um dos salões, está instalação Resistance Reverb: Movements 1 (2018), de Lava Thomas, reúne dezenas de pandeiros cor-de-rosa que flutuam no ar como um coro de louvor e protesto.
Além de homenagear a Marcha das Mulheres de 2017, nas superfícies aparecem fragmentos de discursos de mulheres que marcaram a história, entre eles o "Ain't I a Woman?" de Sojourner Truth e o "Black Lives Matter" de Alicia Garza.
Instalação da artista Lava Thomas's que lembra movimentos como a Marcha das Mulheres e Black Lives Matter. (Obama Foundation)
A placa fecha com uma reflexão sobre o pandeiro, instrumento simples, presente em diversas culturas e usado em protestos ao longo do tempo, capaz de evocar uma humanidade compartilhada.
Como não poderia deixar de ser, Yes We Can, emblemático slogan da campanha de 2008, está gravado em uma enorme parede, como lembrança de que mudanças coletivas continuam possíveis.
A Nelson Mandela Sky Room
No alto da torre, a Nelson Mandela Sky Room oferece um panorama do South Side e do Lago Michigan, enquadrado pelas letras vazadas que recobrem a fachada do edifício.
Mandela é citado por Obama como uma das maiores influências de sua vida política.
"Dele vem uma ideia que atravessa todo o meu percurso: a de que a liberdade de um é inseparável da liberdade de todos, e a de que a liderança verdadeira se mede pela disposição de servir", explica o americano.
Sky Room no Obama Presidential Center, em Chicago. (Obama Foundation)
No teto da sala, a obra Sky of Hope, do artista britânico Idris Khan, sobrepõe milhares de palavras carimbadas à mão, influenciando quem está embaixo a pensar no próprio papel diante do futuro que deseja ver.
O bairro que não recebia investimento
O South Side é a maior e mais negra das regiões de Chicago, marcada por décadas de desinvestimento, fuga de moradores e linhas invisíveis traçadas pela segregação habitacional.
Na noite de terça-feira, em um discurso na solenidade de gala que abriu a agenda de inauguração do centro, Michelle lembrou como a mensagem que o bairro recebia era a de que não merecia investimento. "Agora temos isto", disse, comovida, na ocasião.
É esse o impacto que os Obama dizem buscar. A fundação projeta receber entre 625 mil e 760 mil visitantes por ano, número que pode se aproximar de um milhão.
E estima que o centro gere cerca de US$ 2 bilhões em atividade econômica para o South Side na construção e na primeira década de operação, além de milhares de empregos.
Diferentemente de outras grandes atrações da região, cujos visitantes costumam ir embora sem gastar no bairro, o complexo foi pensado para fazer as pessoas ficarem, com restaurante, jardins e quadra.
A promessa, porém, divide a vizinhança. Moradores e entidades de Woodlawn, Washington Park e South Shore chegaram a declarar que temiam que a valorização dos imóveis acelere a remoção de quem sempre viveu ali.
Por outro lado, defensores do projeto respondem que a mudança virá por adição, não por despejo. E o próprio museu não esconde a tensão, ao reservar uma sala às causas em que o governo Obama não avançou como queria.
Festa, inauguração e o que vem depois
Nesta quinta-feira, 18, a John Lewis Plaza - praça central do campus do Obama Presidential Center e espaço aberto ao ar livre onde devem acontecer reuniões e eventos públicos - recebe a grande cerimônia de inauguração.
Estão previstos shows de Bruce Springsteen, Stevie Wonder, Jennifer Hudson, John Legend, Bono Vox e The Edge, Common, Christina Aguilera, Marc Anthony, Tems, The Roots e Eddie Vedder.
A abertura ao público, no dia seguinte, não cai em qualquer data. É o Juneteenth, feriado que celebra a emancipação dos escravizados nos Estados Unidos - escolha que diz, sozinha, a quem e por quem o museu quer falar.
A mesma intenção está gravada nas paredes. Numa delas, em relevo, uma frase de Obama resume a aposta: "Todos nós, não importa de onde viemos, temos a oportunidade de mudar este país para melhor."
A resposta vem na saída, num trecho do discurso de despedida que ele fez em janeiro de 2017: "Estou pedindo que vocês acreditem. Não na minha capacidade de promover mudança, mas na de vocês".
É a última coisa que o visitante lê antes de voltar ao bairro lá fora.
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