Por que a China não consegue aumentar o 'muro' do consumo na sua economia
Ao elaborar as decisões do atual plano quinquenal — plano político e econômico que conduz a administração chinesa por cinco anos — em dezembro, o presidente chinês, Xi Jinping, sublinhou que a demanda doméstica deveria ser a principal força motriz do crescimento econômico.
Segundo o Xinhua, o principal jornal chinês vinculado ao Partido Comunista, a China deveria "coordenar esforços para promover o consumo e expandir o investimento".
Todavia, seis meses depois, o país enfrenta problemas econômicos em ambas as frentes: as vendas de varejo atingiram o nível mais baixo desde 2022, revelando baixa atividade consumista, que vem como herança da pandemia. Fraquezas no investimento também desafiam o plano quinquenal, com uma redução de 4,1% nos primeiros cinco meses do ano em comparação ao mesmo período de 2025, as piores métricas desde os primeiros dias da pandemia.
As tendências negativas dos dados mensais mostram uma economia que luta para se livrar do clima de pessimismo doméstico, apesar dos esforços de Pequim para galvanizar a demanda interna.
O modelo econômico chinês: competitivo fora, preocupante em casa
Porto de Qingdao, na província de Shandong, na China: exportações permanecem fortes e agem como coluna vertebral da economia chinesa; todavia, o modelo atual gera pouca confiança no mercado interno (Costfoto/NurPhoto/Getty Images)
Essas preocupações surgem, em última instância, do modelo econômico chinês em vigor há décadas, apontam várias fontes de análise econômica, como o jornal britânico Financial Times, a revista The Economist, apurações do jornal de Hong Kong South China Morning Post e o think tank associado ao banco holandês ING Bank, entre outros.
Focado em exportações e no desenvolvimento competitivo de suas indústrias internas, orientado para a exportação e para a projeção de poder para o exterior — o que garantiu à China um crescimento estonteante e posições de poder econômico e geopolítico —, o modus operandi chinês, apesar de todo o prestígio global que lhe rendeu, falha em animar o consumidor doméstico.
A confiança dos chineses no mercado interno não aumentou desde o fim da pandemia, tendência agravada por uma série de fatores. Entre eles, está uma crise imobiliária intensa, o que torna consumidores mais relutantes; além disso, as vendas de automóveis também despencaram nos últimos meses, caindo mais de 20% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Por sua vez, empréstimos bancários totalizaram 520 bilhões de yuans (R$ 395 bilhões) em maio, segundo dados do Banco Popular da China divulgados na última sexta-feira. O valor ficou abaixo dos 620 bilhões de yuans (R$ 470 bilhões) registrados no mesmo período do ano passado, evidenciando um desempenho significativamente inferior tanto no crédito corporativo quanto no crédito a pessoas físicas, as duas principais categorias.
Avaliando não o poderio industrial nem a competitividade internacional que isso confere ao país, mas a saúde da economia como um todo, o modelo de crescimento da China falha em sustentar um mercado doméstico saudável e ativo. Isso se deve a diversos fatores que geram problemas que, por sua vez, reduzem a confiança do consumidor.
O que segura o cunsumo doméstico da China, afinal?
O mercado interno chinês sofre com baixa oferta de emprego, crises imobiliárias e desigualdade social (Leandro Fonseca /Exame)
Um dos motivos é que o modelo econômico gera menos empregos na China. A recente expansão das exportações chinesas tem apresentado características distintas das dos ciclos anteriores de crescimento industrial.
Parte desse fenômeno se explica pelo fato de que o valor das exportações cresceu mais rapidamente do que o volume produzido e pela maior participação de setores de alta tecnologia, que empregam menos mão de obra.
Indústrias estratégicas para o modelo atual, como a de veículos elétricos, tendem a gerar menos empregos por yuan investido do que setores tradicionais, como a fabricação de automóveis convencionais ou a construção civil.
Como reflexo dessa transformação, a parcela de trabalhadores migrantes empregados na manufatura caiu de quase 37% em 2010 para 28% no ano passado, segundo dados do Escritório Nacional de Estatísticas da China.
Além disso, a concentração dos grandes polos industriais chineses em poucas cidades, embora mais conveniente sob o viés econômico, inevitavelmente gera desigualdades em relação a regiões mais pobres: a participação de províncias do interior da China na indústria do país caiu de 48% para 36% em pouco mais de uma década, aponta o mesmo órgão.
Isso agrava o impacto de diversas crises, pois gera pobreza. Por exemplo, a crise imobiliária resultou em miríades de imóveis vazios e em negócios fechados nas províncias mais pobres do país.
Por fim, outro fator que limita o impacto da estratégia chinesa está relacionado às finanças públicas locais. O fluxo de recursos de indústrias emergentes frequentemente ocorre na direção oposta aos cofres de autoridades provinciais e municipais.
Na tentativa de impulsionar empresas consideradas estratégicas para as indústrias do futuro, administrações locais oferecem incentivos fiscais e subsídios que pressionam suas contas públicas. Esse apoio também contribui para a entrada excessiva de empresas em setores considerados promissores, aumentando a concorrência e reduzindo a rentabilidade dos fabricantes mais eficientes.
Um estudo da consultoria AlixPartners estimou que, em 2025, apenas 15 das 129 marcas chinesas de veículos elétricos deverão apresentar viabilidade financeira até 2030.
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