Por que a corrida se tornou tão popular?
A corrida foi o esporte mais praticado no mundo em 2025, segundo o relatório de Tendências Esportivas do Strava. No Brasil, a prática ganhou dois milhões de novos adeptos, que agora somam 15 milhões em todo o território nacional.
Os dados brasileiros são da segunda edição do estudo "Por Dentro do Corre", da Olympikus e da consultoria Box1824. O levantamento também aponta que hoje, a corrida é a quarta atividade física mais praticada no Brasil, com 14% de adesão da população, ante 12% em 2024. O ranking geral é liderado pela caminhada (39%), musculação (25%) e futebol (16%), seguido por corrida e ciclismo (10%).
As informações parecem só repetir uma realidade que a maioria da população já conhece. Afinal, todos os dias nos deparamos com alguém — seja nas redes sociais ou no trabalho — que passou a correr. Mas afinal, o que explica a popularidade repentina da corrida?
Praticidade
Para Ana Paula Simões, médica especializada em medicina do exercício e esporte, a resposta está na combinação de fatores práticos e científicos. "A corrida apresenta uma das melhores relações entre benefício clínico e risco dentre todas as modalidades de exercício físico, especialmente quando realizada em volumes baixos a moderados", explica em entrevista à EXAME.
Ela sugere que a praticidade da corrida está entre os principais motivos para o seu boom: por não exigir habilidades complexas, tomada de decisão rápida nem interação com outras pessoas, a modalidade se adapta com facilidade a agendas apertadas.
"A corrida exige pouco tempo, baixo custo financeiro e mínima infraestrutura, o que facilita a adesão e a manutenção a longo prazo. Podemos ir na hora que dá: em viagens, na hora do almoço, onde der", brinca.
Simões chama essa flexibilidade de "gerenciamento de carga", conceito que ajuda a explicar o perfil atual do corredor brasileiro. Segundo o estudo "Por Dentro do Corre", a classe C se tornou o principal grupo dentro da corrida, de 36% em 2024 para 43% em 2025. A maior concentração de praticantes está na faixa de 25 a 44 anos.
Mulheres em cena
Outra mudança ocorrida no ecossistema da corrida está relacionada ao gênero. Em um ano, o número de mulheres no esporte cresceu 8 pontos percentuais, indo de 42% em 2024 para 50% em 2025.
Ana Paula Simões é veterana desse grupo, pois já completou cinco maratonas. A primeira, em Nova York, foi a mais marcante. "Os últimos quilômetros são sempre ‘com o coração’. Existe aquela expectativa se vamos conseguir completar os 42 quilômetros, porque o treino nunca vai até esse volume", relata.
Além de Nova York, a médica já competiu em provas reconhecidas internacionalmente e, no último Campeonato Mundial de Maratonas, ficou entre as cinco melhores brasileiras de sua categoria. "Como atleta amadora, mulher, com mais de 45 anos e mãe, fico feliz em poder representar essa força e mostrar que é possível se descobrir e se reinventar por meio da corrida", afirma.
Benefícios físicos e mentais
A busca por saúde integral é o principal motivo da adesão à corrida. Segundo o estudo "Por Dentro do Corre", a maioria das pessoas começa a correr pensando em melhorar a saúde física (47%) e o condicionamento (36%). Entre os novatos, a perda de peso tem apelo maior (21%).
Do ponto de vista médico, a corrida é um exercício aeróbio que gera adaptações coordenadas em diferentes sistemas do organismo. "Seus benefícios não se devem a um único mecanismo, mas à convergência de adaptações cardiovasculares, metabólicas, musculoesqueléticas, neuroendócrinas e inflamatórias", afirma Simões.
No sistema cardiovascular, por exemplo, a corrida causa um aumento do débito cardíaco máximo, melhora da função endotelial e redução da rigidez arterial, além de hipertrofia cardíaca fisiológica e maior eficiência do coração.
Metabolicamente, há aumento da sensibilidade à insulina, redução de gordura visceral, melhora do perfil lipídico e diminuição da inflamação crônica de baixo grau, associada às doenças cardiometabólicas, como a obesidade.
"Estudos populacionais mostram redução de alterações cardiovasculares e incidência de doenças crônicas mesmo com doses mínimas semanais de corrida. Isso torna a atividade extremamente atrativa do ponto de vista de saúde pública", diz a médica.
A saúde mental também é relevante, citada por 34% dos praticantes e por 37% das mulheres do estudo da Olympikus. Simões explica que o esporte influencia diretamente o sistema nervoso central e está associado à menor incidência de depressão, ansiedade e declínio cognitivo.
Para 74% dos entrevistados, a corrida deixou de ser apenas um esporte e se tornou um estilo de vida. "Ela permite progressão individualizada, sensação clara de evolução e controle preciso da intensidade, fatores fortemente associados à continuidade do exercício", afirma a médica.
O fator social da corrida
Além dos ganhos físicos e mentais, Ana Paula destaca o fator social da corrida como um dos seus grandes impulsionadores. "Ela favorece a formação de amizades e vínculos sociais, o que contribui para a manutenção da prática", diz.
Esse movimento reflete no crescimento da coletividade e da competitividade. De 2024 a 2025, a participação em grupos de corrida cresceu 33%. O número de participantes em provas de rua também avançou, sobretudo entre jovens e mulheres.
Amigos corredores (28%) e familiares são as maiores fontes de inspiração. No ambiente digital, 64% dos praticantes consomem conteúdo sobre corrida com frequência, especialmente via TikTok.
Modismo ou tendência duradoura?
Para Ana Paula Simões, o avanço da corrida não indica um pico momentâneo e tende a se sustentar diante do envelhecimento da população, do aumento das doenças crônicas e da consolidação de diretrizes internacionais que priorizam exercícios aeróbios.
"Mesmo com flutuações temporárias na participação em eventos competitivos, o comportamento de correr se mantém estável em estudos de longo prazo. A corrida atende simultaneamente aos objetivos de prevenção primária, secundária e promoção de saúde funcional, o que sustenta sua continuidade como prática dominante", completa.
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