Por que a gigante Philips acredita que a era da IA exige mais — e não menos — humanidade

Por Daniel Giussani 27 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que a gigante Philips acredita que a era da IA exige mais — e não menos — humanidade

Um cateter que entra pela artéria femoral, atravessa o corpo e chega ao cérebro para reverter um AVC em minutos. O resultado: pacientes que chegam em estado extremamente grave, e saem andando.

É esse tipo de tecnologia que Peter Skillman, chefe global de design da Philips, usa como referência quando fala do que mais o orgulha no trabalho que desenvolve na companhia holandesa.

Longe de ser uma fabricante de televisores, como talvez possa estar no imaginário do brasileiro, a Philips é hoje uma empresa centrada em saúde — um movimento iniciado há cerca de duas décadas e que reposicionou o grupo holandês em um dos setores mais pressionados da economia global.

Mas o ponto central não é a tecnologia em si. É a forma como ela é concebida. Na visão de Skillman, o design deixou de ser uma camada estética para se tornar uma ferramenta de decisão sobre problemas complexos — especialmente em um sistema de saúde que, segundo ele, já opera no limite.

“Alguém pode chegar ao hospital à beira da morte e sair andando depois do procedimento”, afirmou em entrevista à EXAME no South Summit Brasil, um dos maior eventos de inovação do país. “Isso muda completamente onde eu escolho investir meu tempo como designer.”

E quando falamos em investimento de tempo, também falamos, indiretamente, de inteligência artificial.

Para a Philips, o avanço da inteligência artificial não reduz a importância do fator humano — expõe ainda mais sua ausência. Em hospitais cada vez mais orientados por dados, algoritmos e protocolos, o risco deixou de ser a falta de tecnologia e passou a ser o excesso dela sem mediação.

O resultado é um sistema mais eficiente no papel, mas mais distante na prática: profissionais sobrecarregados, decisões fragmentadas e pacientes que viram apenas fluxos de informação.

É dessa distorção que nasce a defesa do humanity-centered design. Na leitura de Skillman, quanto mais poderosa a tecnologia, maior precisa ser o esforço deliberado para recentrar o cuidado nas pessoas — não só no paciente, mas em toda a cadeia ao redor dele.

“Nunca perca de vista o problema real do cliente”, afirma . No caso da saúde, isso significa usar IA para remover fricção, antecipar risco e devolver tempo — não para adicionar mais uma camada de complexidade a um sistema que já opera no limite.

Do design como estética ao design como sistema

Skillman é o oitavo chefe de design em mais de 100 anos de história da área dentro da Philips. A trajetória da companhia ajuda a entender essa mudança de papel. A Philips nasceu na iluminação, passou por eletrônicos de consumo, inventou a fita cassete, co-criou o CD e se tornou uma marca global de TVs.

Até que a dinâmica da indústria mudou.

A ascensão de cadeias produtivas na Ásia pressionou margens e forçou a empresa a buscar diferenciação fora do hardware tradicional. A resposta foi migrar para saúde — não só como mercado, mas como posicionamento estratégico.“Não é uma empresa sobre uma coisa só. É uma história de adaptação”, diz Skillman .

Essa mudança redefiniu também o papel do design. Em vez de pensar em produto, a área passou a atuar sobre sistemas: fluxos hospitalares, jornadas clínicas e decisões médicas.

O pano de fundo dessa transformação é um sistema sob estresse.

Hospitais operam com custos crescentes, escassez de profissionais e níveis altos de burnout. Em alguns casos, a rotatividade de enfermeiros chega a 40% ao ano. Ao mesmo tempo, médicos gastam até 40% do tempo em tarefas administrativas.

A tecnologia, que deveria aliviar esse cenário, muitas vezes teve o efeito oposto.

Sistemas de prontuário, monitoramento e gestão aumentaram a capacidade de análise e melhoraram desfechos clínicos — mas também adicionaram camadas de complexidade que afastam o profissional do paciente.

“Se eu devolvesse uma hora para esses profissionais, todos dariam a mesma resposta: passar mais tempo com o paciente”, afirma.

É aqui que o discurso de humanity-centered design ganha peso. Não se trata de criar interfaces melhores, mas de redesenhar o sistema para devolver o foco ao cuidado.

IA como acelerador — e distração

A inteligência artificial entra nesse contexto como uma ferramenta ambígua.

Por um lado, abre possibilidades inéditas. A Philips já usa modelos para analisar grandes volumes de dados hospitalares e prever deteriorações clínicas com antecedência. “Podemos identificar que alguém ficará instável horas antes e permitir uma intervenção precoce”, afirma.

Por outro, há um risco claro de desvio de foco. “A IA pode ser uma grande distração ou um acelerador poderoso, depende de onde você aplica”, diz.

Internamente, ela já mudou o processo de design. Protótipos que levavam meses são feitos em minutos. Mas, para Skillman, isso não resolve o problema central. A tecnologia não substitui empatia. E tentar simular isso pode corroer a confiança no sistema.

O limite da automação

Essa preocupação aparece de forma mais concreta quando o tema é decisão clínica. Na Philips, sistemas de IA não operam de forma autônoma. Há mecanismos de validação — como confirmações obrigatórias por médicos — para garantir que a responsabilidade permaneça humana.

“Precisamos deixar claro o que foi gerado por IA e o que é humano. Confiança é fundamental”, afirma.

A lógica é simples: quanto mais invisível a tecnologia se torna, mais importante é deixar explícitos seus limites. Isso vale também para o design das interfaces, ou para o possível fim delas.

Skillman projeta um futuro em que menus e telas sejam substituídos por interações contextuais, muitas vezes por voz. Em vez de navegar sistemas, médicos configurariam equipamentos em tempo real, conforme a necessidade. Mas, mesmo nesse cenário, o princípio permanece: a tecnologia pode desaparecer da superfície. O humano não.

Qual é a história do South Summit

Em meio à crise econômica que atingiu a Espanha no início da década passada, um evento surgiu com a proposta de conectar empreendedores e investidores. O South Summit foi criado em 2012, em Madri, pela empreendedora María Benjumea em parceria com a IE Business School, escola de negócios sediada na capital espanhola.

Naquele momento, o país enfrentava desemprego acima de 20% da população adulta e mais de 50% entre jovens. A falta de crédito e a incerteza sobre o futuro pressionavam empresas e profissionais.

A ideia do South Summit nasceu desse contexto. Benjumea reuniu acadêmicos da IE, executivos de grandes empresas e representantes do governo para criar um encontro voltado a negócios e inovação. “A Espanha estava muito mal naquela época”, afirmou a empreendedora à EXAME.

Empreendedora desde o fim dos anos 1970, Benjumea já havia criado negócios como uma galeria de arte, em 1981, e o Infoempleo, plataforma de empregos lançada nos anos 1990 com a chegada da internet.

A primeira edição do South Summit foi pequena, com algumas centenas de participantes e poucos fundos de investimento. Ao longo dos anos, o evento cresceu e passou a atrair startups e investidores de vários países.

Um dos pilares do encontro é a competição de startups, que seleciona empresas com potencial de crescimento. Entre as participantes estão companhias que depois atingiram valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares.

Com o tempo, o evento se consolidou como ponto de encontro do ecossistema de inovação na Espanha. Madri passou a atrair mais investimento em startups e ganhou espaço entre os principais polos de tecnologia na Europa.

A expansão internacional começou anos depois. Em 2022, o South Summit chegou ao Brasil, com a primeira edição realizada em Porto Alegre, no Cais Mauá. O evento reuniu cerca de 15 mil pessoas de 76 países.

A edição seguinte ampliou a estrutura, com aumento de área e número de palestrantes. Em 2025, o encontro manteve a realização na capital gaúcha mesmo após as enchentes que atingiram a região, reunindo mais de 20 mil participantes.

Hoje, o South Summit reúne startups, investidores e executivos em diferentes países, mantendo o formato baseado em conteúdo, conexões e apresentação de negócios.

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