Por que a Petrobras cai mesmo com o petróleo em alta no mercado?

Por Clara Assunção 5 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que a Petrobras cai mesmo com o petróleo em alta no mercado?

As ações da Petrobras operam em queda nesta quinta-feira, 5, mesmo com a valorização do petróleo no mercado internacional. O movimento da estatal contrasta, inclusive, com o desempenho positivo de outras petroleiras listadas na B3. A companhia também divulgará os resultados do quarto trimestre e do ano cheio de 2025 hoje, após o fechamento do mercado.

Perto das 12h30, as ações ordinárias da Petrobras (PETR3) caíam 0,79%, enquanto as preferenciais (PETR4) recuavam 0,99%. O recuo da companhia ajuda a pressionar o Ibovespa, dado o peso relevante na composição do índice, de 11,4%. No mesmo horário, o Ibovespa recuava 2,07%, aos 181.527 pontos.

Já no exterior, os preços do petróleo voltaram a disparar com o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã no centro do debate. O barril do Brent, referência global, subia cerca de 2,7%, negociado a US$ 83,59, enquanto o WTI avançava mais de 3%, para a faixa de US$ 77.

Se a Petrobras não acompanha o movimento do mercado internacional, as demais petroleiras operam na cola das cotações e avançam. As ações da Prio (PRIO3), por exemplo, estão entre as três maiores altas do dia, com avanço de quase 2%. A Brava Energia (BRAV3) e a PetroReconcavo (RECV3) também sobem 0,96% e 0,88%, respectivamente.

De acordo analistas do mercado, esse contraste em relação à Petrobras conta de uma combinação de fatores.

Um deles, é o fato das ações da estatal já terem subido mais de 30% neste ano. "É bastante e boa parte disso, se não tudo, vem da alta do preço do petróleo, que já foi precificada", disse Flávio Conde, head de research da Levante Investimentos,

Uma parte do mercado também espera que as dificuldades para os navios saírem do Estreito de Ormuz, diminuam na próxima semana e, com isso, o petróleo e os navios passem com menos dificuldade. "O que levará a uma oferta maior e o petróleo pode cair na semana que vem".

Expectativa por balanço aumenta cautela

Outro fator que contribui para a cautela dos investidores é a divulgação do resultado financeiro da Petrobras referente ao quarto trimestre de 2025, prevista para esta quinta-feira após o fechamento do mercado.

Na teleconferência de resultados, marcada para o dia seguinte, analistas esperam que a diretoria da companhia comente os possíveis impactos da escalada de tensões no Oriente Médio sobre o negócio.

O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã elevou o nível de incerteza no mercado de petróleo e impulsionou os preços da commodity. Para a Petrobras, um barril mais caro tende a favorecer as exportações, mas também pode pressionar os preços de derivados no mercado doméstico.

"A alta do Brent, em tese, seria positiva para a Petrobras. Mas hoje existe uma defasagem no preço dos combustíveis no Brasil. Quando o petróleo sobe lá fora, a companhia não tem repassado esse movimento com a mesma rapidez aqui", afirma Felipe Sant'Anna especialista em investimentos do grupo Axia Investing.

"Há estimativas de que o diesel brasileiro esteja mais de 40% defasado em relação ao mercado internacional. Ao segurar esses reajustes, a Petrobras acaba deixando de capturar parte da alta do petróleo, o que reduz o potencial de lucro para os acionistas", acrescente o operador.

Outro ponto de cautela em relação ao balanço da companhia é o anúncio dos dividendos. Segundo Conde, se os proventos vierem na parte inferior, R$ 1 bilhão, a ação pode seguir em queda nesta sexta, 5.

Notícias corporativas pesam sobre a estatal

Parte da pressão sobre os papéis da Petrobras ocorre em meio a um noticiário corporativo mais carregado nesta quinta.

A companhia informou que recebeu indicações do governo federal para a eleição do conselho de administração, prevista para a assembleia geral ordinária marcada para 16 de abril. Os nomes ainda serão analisados pelo comitê de elegibilidade da empresa.

O acionista controlador indicou a recondução de Bruno Moretti, Magda Maria de Regina Chambriard, Renato Campos Galuppo, José Fernando Coura e Marcelo Weick Pogliese ao conselho de administração. Também foram indicados novos nomes para o colegiado, além de candidatos para o conselho fiscal.

Além disso, a estatal foi autuada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) após a identificação de uma não conformidade crítica na sonda ODN-II, que perfura o poço de Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial brasileira.

A autuação ocorreu durante fiscalização para verificar a conformidade do Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional. Segundo a agência reguladora, houve desvio nos planos e procedimentos relacionados ao teste, inspeção e manutenção das bombas de combate a incêndio da instalação. A multa pode chegar a R$ 2 milhões.

E por que outras petroleiras sobem mais?

No atual cenário geopolítico, analistas têm apontado maior sensibilidade de algumas petroleiras independentes à alta do petróleo.

Relatório do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) destaca que a escalada no Oriente Médio tem perfil mais sistêmico, sobretudo pelo risco de disrupção logística no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do comércio global de petróleo e gás natural liquefeito.

Nesse contexto, a Prio surge como a empresa com exposição mais direta ao preço da commodity. A companhia concentra 100% da produção em petróleo e possui menor nível de hedge, ou seja, utiliza menos contratos financeiros para se proteger de quedas de preço — o que faz com que capture de forma mais integral a valorização do barril.

Segundo estimativas do banco, em um cenário de Brent a US$ 80, o retorno sobre fluxo de caixa ao acionista da Prio poderia chegar a 27% em 2026.

Já a Petrobras, embora também se beneficie da alta do petróleo, apresenta menor sensibilidade ao preço da commodity. De acordo com o BTG, isso ocorre por três fatores: a integração ao refino, o possível atraso no repasse de preços domésticos de combustíveis e a própria estrutura operacional da companhia.

Nesse mesmo cenário de Brent a US$ 80, o retorno sobre fluxo de caixa ao acionista da estatal poderia chegar a cerca de 13%.

A XP Investimentos também aponta Prio e Petrobras entre suas principais escolhas no setor, mas mantém preferência pela petroleira independente, citando maior geração de caixa em diferentes cenários para o preço do petróleo.

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