Por que as ações do Nubank caem mesmo com lucro maior no 1º trimestre

Por Clara Assunção 15 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que as ações do Nubank caem mesmo com lucro maior no 1º trimestre

As ações da Nubank (NU) mantêm a queda iniciada no after market após a divulgação do balanço do 1° trimestre de 2026.

Na véspera, 14, os papéis chegaram a cair até 12% nas negociações pós-mercado da Nasdaq logo após a divulgação dos resultados. Já nesta sexta-feira, 14, às 12h10, as ações recuavam 6,54%, enquanto o índice Nasdaq caía 1,28%, em um pregão marcado por aversão global a risco diante das preocupações com inflação, alta do petróleo e falta de avanços nas negociações entre Estados Unidos e Irã.

A reação negativa veio mesmo após o Nubank reportar lucro líquido de US$ 871 milhões no trimestre, o que representa um crescimento anual de 41% em base FX neutro — métrica que elimina o efeito da variação cambial entre o real e o dólar e reflete o desempenho operacional puro do negócio.

O lucro líquido ajustado, que inclui despesas não-caixa e remuneração em ações pagas a executivos e funcionários, ficou em US$ 937 milhões no trimestre, também numa alta anual de 54%.

Para analistas de BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), banco Safra e Itaú BBA, porém, o resultado foi ofuscado pelo salto nas provisões para perdas com crédito, pela piora dos indicadores de inadimplência e pela pressão sobre a rentabilidade ajustada ao risco, pontos negativos e de atenção destacandos em comum pelas instituições.

Provisões para perdas com crédito chama atenção do mercado

O principal ponto de preocupação foi o salto nas provisões para perdas com crédito. No balanço, o Nubank apontou que, em relação ao 4° trimestre, quando o indicador estava em 33%, houve uma queda atribuída à sazonalidade do começo do ano, quando provisões sobem por conta do comportamento histórico de inadimplência de curto prazo nesse período do ano.

O estoque de provisões encerrou o trimestre em US$ 6,1 bilhões, alta de US$ 799 milhões em relação ao final de 2025. A maior parte do aumento veio do crescimento orgânico da carteira, que demanda provisões adicionais proporcionais e, em menor medida, pela expansão para segmentos de maior risco.

O BTG destacou que as provisões para perdas com empréstimos avançaram 38% na comparação trimestral e ficaram cerca de 30% acima do esperado pelo mercado. "O que, dadas as crescentes preocupações com a qualidade dos ativos no Brasil, inicialmente empurrou as ações para baixo em até 12% no mercado de balcão", afirmaram os analistas do banco.

O Safra afirmou que as despesas com provisões vieram 27% acima de suas estimativas, enquanto o Itaú BBA apontou alta de 33% na linha. Na prática, isso significa que o Nubank precisou reservar mais dinheiro para cobrir possíveis calotes futuros, movimento que costuma ser interpretado como um sinal de aumento de risco na carteira de crédito.

Durante a teleconferência, porém, a administração da fintech apontou que o aumento nas provisões estava totalmente em linha com suas próprias expectativas e que continuava refletindo uma dinâmica subjacente saudável da carteira, segundo o BTG. Com isso, as ações recuperaram parte das perdas ao longo da teleconferência e fecharam com queda de 4%.

Piora nos indicadores de qualidade dos ativos

Mas outro fator que chamou atenção dos analistas foi a piora nos indicadores de qualidade dos ativos, especialmente na chamada migração para "Stage 2", a categoria que reúne clientes cujo risco de inadimplência aumentou significativamente, embora ainda não estejam inadimplentes.

O Safra classificou esse como "o verdadeiro ponto central do trimestre". Segundo o banco, a formação de ativos em Stage 2 mais que triplicou em relação ao primeiro trimestre de 2025 em base cambial neutra. Apenas as novas provisões ligadas a essa categoria somaram US$ 535 milhões, contra US$ 183 milhões um ano antes.

O BTG também destacou deterioração visível nessa linha. Nos cartões de crédito, a exposição em Stage 2 subiu para 11,5% da carteira, enquanto nos empréstimos pessoais chegou a 15,4%.

Além disso, houve avanço da inadimplência inicial — os atrasos entre 15 e 90 dias. O BTG apontou que essa taxa subiu de 4,1% para 5%, acima dos padrões sazonais históricos. O Itaú BBA também registrou aumento de 90 pontos-base na inadimplência precoce.

A pressão sobre a qualidade do crédito acabou afetando diretamente a rentabilidade da operação. Tanto BTG quanto Itaú destacaram queda na margem financeira ajustada ao risco (NIM ajustada ao risco), que recuou de 10,5% para 9,5% no trimestre devido ao aumento das provisões.

Pressão nas despesas e certa frustração com o lucro

Além do crédito, os analistas também apontaram pressão nas despesas operacionais. O BTG afirmou que o Opex ficou 6% acima do esperado, enquanto o Safra registrou despesas 2% superiores às suas projeções, impulsionadas por gastos administrativos e suporte ao cliente. O Itaú BBA classificou o nível de despesas como "pesado", citando aumento de 25% nos custos de atendimento ao cliente.

Mesmo com crescimento anual do lucro, os números também frustraram parte das expectativas do mercado. O lucro líquido reportado ficou entre 4% e 6% abaixo das projeções das instituições.

O Safra ainda chamou atenção para o fato de que o lucro líquido foi beneficiado por uma alíquota efetiva de imposto excepcionalmente baixa, entre 8% e 8,7%, patamar que deve voltar para algo entre 15% e 20% nos próximos trimestres. Para o banco, isso reduz parte do fôlego do resultado final.

Bancos mantêm visão positiva a longo prazo

Apesar das preocupações de curto prazo, os bancos mantiveram visão positiva para o Nubank no longo prazo. O BTG reiterou recomendação de compra e afirmou que a fintech segue bem posicionada para atravessar um ciclo de crédito mais desafiador no Brasil.

"Continuamos a acreditar que o Nu está bem posicionado para apresentar desempenho superior durante um ciclo de crédito mais desafiador no Brasil, embora as preocupações em torno da deterioração da qualidade dos ativos do sistema — e, como consequência, do Nu também — provavelmente não desapareçam no curto prazo e devam continuar a pesar sobre as ações", disse o banco.

O Itaú BBA classificou o balanço como "líquido positivo" e disse enxergar os problemas atuais mais como "dores de crescimento" do que como deterioração estrutural.

"O banco inicia o ano muito bem preparado para o crescimento do ano fiscal de 2026 e para as melhorias operacionais habituais que ocorrem após o 1º trimestre. As ações são negociadas a 16x P/L 2026E e 13x P/L, entre os níveis mais baixos já registrados pelo Nubank", afirmou o Itaú.

O banco também ressaltou que os indicadores de inadimplência acima de 90 dias, considerados mais críticos, chegaram a melhorar no trimestre. Já o Safra destacou ainda que a gestão reiterou não enxergar um problema estrutural de qualidade dos ativos e afirmou que o balanço segue preparado para enfrentar um ciclo de crédito mais desafiador.

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