Por que brasileiros estão trocando a Disney por Tóquio e Leste Europeu
Crise geopolítica, câmbio inflado e alta no combustível podem até ser dificultadores na hora de planejar uma viagem ao exterior. Com a guerra no Oriente Médio, o preço das passagens subiu e o dólar anda flutuando. Mas parece que, ainda assim, o brasileiro não vai parar de viajar.
É o que mostram os estudos do turismo global e nacional dos últimos dois anos, e especialistas ouvidos pela Casual EXAME. O que está mudando, na verdade, é a configuração geográfica e tecnológica dessas jornadas.
Segundo levantamento da plataforma de experiências turísticas Civitatis, o interesse por destinos tradicionais da América do Norte abriu espaço para uma busca por imersão cultural na Ásia e no Leste Europeu em 2025. Tóquio liderou o crescimento de reservas feitas por brasileiros, com uma alta de 346%. Na Europa, a liderança ficou com destinos fora do circuito óbvio: Zurique, na Suíça (212,9%), Viena, na Áustria (115,7%), e Cracóvia, na Polônia (114%).
"Notamos que as viagens seguem acontecendo; o que muda é o destino. As políticas de Trump, por exemplo, reduziram significativamente o turismo nos Estados Unidos, não só de brasileiros, também de europeus. Mas as pessoas não estão ficando em casa, estão buscando destinos alternativos", diz Alberto Gutiérrez, fundador da Civitatis, em entrevista exclusiva à Casual EXAME.
O estudo mostra que as viagens de brasileiros para os Estados Unidos até aumentaram 12% em relação ao ano anterior. Mas outras regiões, como o Caribe e a Europa, registraram aumentos de 40%. "Globalmente, o turismo continua existindo e crescendo ano após ano, mas alguns destinos oscilam", completa ele.
A mudança de destino permanece, também, diante das altas do câmbio e do transporte. No primeiro trimestre de 2026, as passagens aéreas no Brasil subiram cerca de 20%, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Companhias passaram a reduzir voos e ajustar rotas, com um recorte de maio em queda de 3,3% na programação de voos no país.
Ainda assim, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) registrou crescimento da demanda global em fevereiro e destacou que o Brasil teve força no mercado doméstico, com aumento de 10,8% no RPK e de 8,7% no ASK em março — o que sugere demanda ainda resiliente.
Como o viajante brasileiro escolhe a próxima viagem?
Na hora de escolher o destino, mostra um estudo do Ministério do Turismo realizado entre 7 e 11 de dezembro de 2023, os principais atrativos são as belezas naturais do destino, preço baixo ou favorável e reencontro com familiares e amigos. E vale acrescentar: 61% dos brasileiros fazem ao menos uma viagem de lazer por ano, o que ajuda a entender como a decisão de viajar segue recorrente, mas bastante sensível a orçamento.
Para além das questões geopolíticas e econômicas, justamente pela limitação financeira, permanece uma pesquisa mais confiável, longe das ferramentas de inteligência artificial.
Um estudo global da Civitatis, feito com base em 7.000 usuários, mostra que 60% dos viajantes ainda rejeitam o uso da tecnologia para organizar seus roteiros de viagem. O principal motivo apontado é o medo de erros críticos em informações dinâmicas — como horários defasados, preços desatualizados e a indicação de atrações fechadas ou inexistentes.
Para evidenciar a fragilidade das ferramentas automatizadas, a operadora criou uma campanha baseada na fictícia "Ilha de San Elías", um destino inexistente que passou a aparecer como recomendação real em respostas geradas por ferramentas de IA generativa.
“A Inteligência Artificial é muito inteligente, mas também muito artificial. É inevitável que mais pessoas a utilizem em suas pesquisas iniciais, mas o olhar e a curadoria humana ganham relevância para discernir o que é informação útil e o que é apenas ruído digital”, avalia Alexandre Oliveira, Country Manager da Civitatis Brasil.
Vista aérea da praia da Azedinha, em Búzios, no Rio de Janeiro (Marcelo Nacinovic/Getty Images)
O "hype" visual e o peso do luto
A mudança nas escolhas do brasileiro combina o impacto estético das redes sociais com o turismo de memória e nicho. No caso do Japão — cuja excursão ao Monte Fuji lidera as vendas para o público brasileiro —, o fluxo é impulsionado pela viralização de conteúdos sobre a gastronomia, tecnologia e cultura pop oriental no TikTok e no Instagram Reels.
Já o crescimento do Centro e do Leste Europeu responde a uma lógica de conveniência logística, em que a contratação de passeios guiados é vista como mandatória pelo viajante. Em Cracóvia, por exemplo, o motor das reservas é a visitação ao campo de concentração de Auschwitz, afirma Gutiérrez.
"Paris ou Madri são cidades onde o turista pode simplesmente caminhar por conta própria se preferir. Mas para visitar Auschwitz, quase 100% dos viajantes contratam um tour estruturado. Existem lugares que, sem estarem no topo do volume geral de turismo massivo, são recordistas de vendas para nós por causa de uma atividade específica relevante", explica a direção da plataforma.
Apesar da ascensão dos destinos exóticos, os mercados consolidados mantêm resiliência devido a fatores comerciais específicos de entretenimento e consumo. Orlando registrou alta de 199,7% impulsionado pela abertura do complexo Universal Epic Universe, enquanto Nova York segue como o quarto polo mais reservado pelos brasileiros na plataforma global, puxado pelo turismo de compras.
Tóquio: empresas japonesas podem emitir dívidas com custos menores. (iStock /Getty Images)
Top 10 destinos com maior crescimento de reservas de brasileiros:
Os dados são da Civitatis, referentes às reservas de 2025.
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