Por que CEOs estão trocando café por meditação
Durante anos, o símbolo máximo da alta performance corporativa combinava agenda lotada, café em excesso e a ideia de que dormir pouco era sinal de ambição. Mas uma nova imagem começa a ocupar esse espaço nos escritórios, salas de reunião e retiros executivos: CEOs meditando antes do expediente, líderes fazendo ioga entre reuniões e empresas investindo em programas de bem-estar emocional para funcionários. O que antes era associado a um estilo de vida alternativo virou ferramenta de gestão, produtividade e saúde mental. E a ciência ajuda a explicar por quê.
Segundo um estudo publicado em 2024 na revista científica Scientific Reports, houve um crescimento consistente da prática de ioga e meditação nos últimos 20 anos, especialmente após a pandemia, impulsionado principalmente pela busca por equilíbrio emocional e redução do estresse. A mudança não acontece apenas entre praticantes comuns. No universo corporativo, executivos passaram a enxergar o autocuidado não como luxo, mas como estratégia de sobrevivência mental em uma cultura marcada por excesso de estímulos, hiperconectividade e burnout.
Em São Paulo, esse movimento já é visível nas escolas especializadas. Na Academia do Silêncio, no Morumbi, o número de alunos dobrou neste ano, segundo o professor de ioga e sócio do local, Diego Moraes que, ao lado de sua irmã Laura Moraes, também conduz aulas de ioga e meditação em grandes corporações e vê essa demanda aumentar.
“Quando perguntamos o que trouxe essas pessoas até aqui, a resposta é quase sempre a mesma: desacelerar, acalmar a mente, aprender a respirar. Muitos chegam por indicação médica, outros porque já não conseguem lidar com a ansiedade e o ritmo acelerado da vida”, afirma. Ainda segundo Diego a motivação mudou completamente nos últimos anos. “As pessoas não vêm para fazer posturas difíceis ou ganhar flexibilidade. Elas vêm porque estão no limite da saúde mental e emocional.”
Esse é exatamente o caso da COO da Lapinha Spa, Gabriela Brepohl que encontrou na atividade uma forma de se reequilibrar. “Pratico ioga, especialmente Kaiut Yoga, por dois grandes motivos. O primeiro é a capacidade de regular meu sistema nervoso e me tirar do estado contínuo de alta demanda e hiperestimulação que o dia a dia nos impõe. Percebo que, quando cultivo um estado de maior presença, minhas decisões ganham mais clareza e consistência. O segundo motivo é físico: a prática é verdadeira higiene para o corpo, especialmente para as articulações. Tenho uma melhora enorme nas dores e na mobilidade, o que faz toda a diferença para me sentir bem”, diz Gabriela.
Lapinha Spa: Gabriela Brepohl que encontrou na atividade uma forma de se reequilibrar (Divulgação/Divulgação)
O cérebro sob pressão
A ciência já demonstrou que o estresse crônico altera o funcionamento cerebral. Altos níveis de cortisol, o hormônio do estresse, impactam sono, memória, concentração e tomada de decisão. Do ponto de vista neurológico, meditar regularmente funciona quase como um treinamento cerebral.
Estudos de neuroimagem mostram que a prática contínua está associada à diminuição da atividade da amígdala cerebral — região ligada ao medo, ansiedade e respostas de estresse — e ao fortalecimento do córtex pré-frontal, responsável por foco, tomada de decisão, autocontrole e clareza mental.
Pesquisas também observaram aumento de conectividade cerebral em áreas relacionadas à atenção e à regulação emocional, além de uma redução da chamada “default mode network”, rede cerebral associada à ruminação mental e ao excesso de pensamentos. Em outras palavras: o cérebro deixa de operar em estado constante de alerta e passa a funcionar de maneira mais eficiente, calma e organizada.
“Hoje a ciência confirma o que a ioga já dizia há mais de cinco mil anos: se a respiração está acelerada, o corpo entra em modo de sobrevivência”, explica o professor da Academia do Silêncio. “A prática regular ativa o sistema parassimpático, o nosso freio interno de relaxamento, autocura e autorregulação.” Ainda, segundo ele, isso significa menos ansiedade, melhora do sono, maior clareza mental e redução do estado constante de alerta. “Quando a mente desacelera, a pessoa volta a conseguir escutar, perceber e responder com consciência, em vez de apenas reagir automaticamente”, complementa.
Por que as empresas estão pagando por isso?
Se antes a ioga corporativa parecia um mimo, hoje ela aparece cada vez mais como investimento preventivo. Empresas perceberam que equipes emocionalmente exaustas produzem menos, adoecem mais e têm maior dificuldade de colaboração e criatividade. O tema ganhou ainda mais força com a atualização da NR-1, norma regulamentadora que passou a reforçar a responsabilidade das organizações sobre riscos psicossociais ligados ao trabalho, como estresse, ansiedade e sobrecarga mental. “Não existe alta performance com pessoas esgotadas”, diz Diego.
Segundo ele, treinamentos de respiração e meditação têm sido procurados por empresas justamente porque oferecem ferramentas rápidas e acessíveis de regulação emocional. “Quando estou dentro das empresas, vejo profissionais vivendo em alerta constante. Nesse estado, não há entusiasmo, criatividade ou foco. A presença muda a forma como as pessoas se comunicam, decidem e lidam com pressão", relata Diego. Gigantes globais como Google, Nike e Salesforce já incorporaram práticas de mindfulness, meditação guiada e ioga em seus programas internos de bem-estar e liderança.
Existe também um componente cultural nessa transformação. Em uma era de hiperprodutividade, conseguir pausar virou quase um luxo. O professor de ioga acredita que parar para meditar alguns minutos por dia, focando na respiração, já pode fazer efeitos duradouros para o dia todo. "O bom da meditação é que você consegue fazer em qualquer lugar, até mesmo andando em uma avenida agitada a caminho de uma reunião", diz.
Ioga, meditação e longevidade
Especialistas têm defendido que longevidade não significa apenas viver mais, mas envelhecer melhor. No Rosewood São Paulo, os adeptos da ioga podem manter a sua rotina em dia quando estão hospedados no hotel. “No Asaya Spa by Guerlain, observamos uma procura crescente pelas aulas de ioga e práticas meditativas, tanto por hóspedes quanto pelo público local e membros. Inclusive, oferecemos aulas de ioga cortesia para nossos hóspedes algumas vezes por semana, justamente para garantir que eles tenham a oportunidade de dar continuidade às suas práticas de bem-estar mesmo quando estão fora de casa e da rotina habitual”, diz Ana Flores, Diretora de Wellness & Spa do Rosewood São Paulo.
Como responsável pelas iniciativas de wellness do hotel, Ana ressalta que os benefícios da prática vão além da saúde física. “Vejo a prática como um exercício não apenas físico, mas principalmente de consciência e respiração. É um momento importante para silenciar, reduzir estímulos e trazer mais equilíbrio para o dia a dia”.
Para Diego, as pessoas perceberam que precisam encontrar uma forma de desacelerar, mas que isso, inicialmente, se encaixe no dia a dia. “O que vejo principalmente nas grandes cidades é um cansaço crônico, silencioso, que foi normalizado”, diz. “Hoje é comum falar de insônia, burnout, ansiedade, dores crônicas. Mas, quando o corpo volta ao ritmo saudável, a mente volta ao eixo".
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