Por que crescer no franchising é saber cortar
Em um ciclo de pressão por expansão e margens comprimidas, a Convenção Anual da International Franchise Association (IFA) 2026 recolocou no centro do debate um tema pouco glamouroso, mas decisivo: eliminar excessos para proteger a economia da unidade.
A principal provocação que emergiu na palestra de Kate Cole, CEO global da AG1 e ex-presidente e COO da Focus Brands, grupo responsável por marcas como Cinnabon e Auntie Anne’s, não foi sobre acelerar crescimento ou diversificar portfólio. Foi sobre retirar.
Em vez de discutir novas frentes, a mensagem central foi pragmática: crescer sem disciplina de simplificação compromete a economia da unidade e, no longo prazo, fragiliza a própria rede.
Com mais de duas décadas à frente de operações bilionárias no franchising, Kat apresentou um princípio que costuma ser negligenciado em ciclos de expansão: reduzir pode ser a decisão mais sofisticada da liderança.
O desperdício começa no detalhe
O caso apresentado no evento partiu de uma pergunta simples feita a operadores da rede: o que os clientes estão jogando fora?
A resposta revelava desperdício recorrente. Um importante produto da rede, o cinnamon roll gigante, um pão doce de canela com cerca de 30 cm, constantemente não era consumido por inteiro e a sobra, descartada. Ao mesmo tempo, havia demanda por um tamanho menor, mas que era negada pela rede.
A reação à queda de tráfego pelo produto gerou aumento de preços para proteger margem. O resultado foi retração agravada.
A decisão estratégica foi redimensionar o produto, mantendo essência e processo produtivo, mas oferecendo versões menores. O receio inicial era o “trade down”, que caracteriza a escolha do consumidor por uma versão mais barata, menor ou mais simples de um produto ou serviço que antes consumia em uma categoria superior, e a possível redução do ticket médio. A solução foi estruturar testes com proteção de risco aos franqueados pioneiros.
Segundo dados apresentados, as porções menores responderam por mais da metade do crescimento e por grande parte da recuperação da lucratividade. Não houve ampliação de portfólio. Houve ajuste de modelo.
O paralelo inevitável: o lixo invisível das empresas
O exemplo do produto descartado nas lojas é uma metáfora direta ao que acontece dentro das companhias.
Empresas acumulam:
O desperdício raramente está apenas no estoque físico. Ele se manifesta no tempo disperso, na energia da equipe fragmentada e na margem corroída por complexidade.
Redes maduras, em especial, sofrem desse fenômeno. A cada ciclo de expansão, adicionam-se novos itens, novos projetos, novas exigências. Poucas vezes alguém pergunta: o que pode sair?
A complexidade não gerenciada atua como redutor silencioso de rentabilidade. E seu impacto é cumulativo.
Economia global: expansão com menos gordura
O contexto global torna esse debate ainda mais relevante. Em ciclos de volatilidade econômica, com pressão sobre custos e consumo mais criterioso, margens deixam de ser protegidas por volume. O crescimento passa a exigir eficiência estrutural.
Modelos inchados sofrem mais. No franchising, isso se intensifica porque o sistema é uma equação distribuída, isto é, se a unidade perde rentabilidade, a rede perde tração. Sustentabilidade não nasce do faturamento consolidado. Nasce da saúde financeira do ponto de venda.
Em ambientes macroeconômicos instáveis, simplificação deixa de ser opção estética e se torna ferramenta estratégica.
O recado para o franchising brasileiro
Para o setor de franquias no Brasil, o aprendizado é direto:
Reduzir não é recuar
Existe um equívoco comum no ambiente empresarial: associar corte à fraqueza. Na prática, a ausência de corte costuma indicar falta de foco. Eliminar excessos antes de acelerar cria base para crescimento estável.
Por isso, escalar a partir de evidência concreta reduz improviso. Proteger margem sustenta expansão.
Em vez de perguntar “o que mais podemos lançar?”, talvez a pergunta estratégica para 2026 seja outra: O que estamos mantendo que já não fortalece a economia da unidade?
No franchising, especialmente em redes maduras, a resposta a essa pergunta pode definir quem cresce com consistência e quem apenas amplia estrutura.
Crescer também é saber cortar.
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