Por que mulheres estão se aproximando dos esportes de combate

Por Marina Semensato 24 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que mulheres estão se aproximando dos esportes de combate

Durante boa parte do século passado, esportes de contato físico eram vistos como inadequados para mulheres. Em muitas modalidades, qualquer coisa que remetesse à agressividade era desencorajada, ao ponto de as regras serem adaptadas para evitar colisões. Nas competições femininas de basquete, por exemplo, era proibido "arrancar" a bola até a década de 1960.

Esse olhar ainda não desapareceu completamente. Jogadas mais duras em ligas femininas costumam repercutir muito mais do que nas masculinas, como se o contato e agressividade — que por vezes fazem parte do esporte — não fossem esperados delas.

É algo que vem mudando aos poucos. Um dos sinais mais claros disso é o avanço das mulheres em modalidades mais físicas. O contato, antes associado à agressividade, tem se distanciado desse conceito e se aproximado de algo mais técnico, como um elemento natural das disputas esportivas.

Nos Estados Unidos, por exemplo, esportes como luta livre, rugby e futebol americano (inclusive o flag football) viraram febre entre as adolescentes. Além do desafio físico, são esportes mais receptivos para iniciantes, têm menor custo e uma cultura mais acolhedora, segundo informações do The Atlantic.

Existe uma mudança mais profunda que acompanha as novas gerações, cada vez mais imersas na cultura do bem-estar e do autodesenvolvimento. Para elas, cuidar de si não fica só na alimentação ou na estética, mas também inclui questões de autopercepção e autonomia.

Os esportes de combate entram nessa história porque exigem, além da força, reação rápida, controle sob pressão e atenção constante ao outro. Desenvolver essas habilidades pode ser um atalho para se sentir mais seguro e autoconfiante, o que torna essas práticas algo diretamente relacionado a como essas jovens se enxergam.

E no Brasil?

Por aqui, o movimento já aparece com força. É o que mostra uma pesquisa da Maximum Boxing: 62% das mulheres dizem que querem iniciar, continuar ou retomar a prática de esportes de combate em 2026. Entre os homens, são 52%.

Para elas, aprender a se defender é central (57,9%). Também pesa a busca por aliviar o estresse e cuidar da saúde mental (52,3%). Já entre os homens, o principal objetivo é o físico: 69,9% citam condicionamento e resistência.

Os dados mostram as influências das questões sociais, como o crescimento da violência contra a mulher. Para muitas entrevistadas, a prática está diretamente ligada ao dia a dia. Mais da metade (54,3%) acredita que, treinando, se sentiria mais segura para andar sozinha na rua. Outras falam em mais firmeza para impor limites (47,7%) e mais tranquilidade no transporte público (42,8%).

Já entre os homens, as motivações são um pouco diferentes: para eles, a prática está mais associada ao preparo para proteger familiares ou amigos (48,8%), à capacidade de manter a calma sob pressão (46%) e à autonomia para circular em espaços públicos sozinho (35,6%).

"Os estímulos mudam bastante entre homens e mulheres: muitos deles se aproximam das modalidades pela busca de desempenho físico, enquanto boa parte delas procura segurança e qualidade de vida", afirma William Ferraz, coordenador de marketing da Maximum Boxing.

"Embora a melhora do condicionamento seja importante para todos, os dados sugerem que o público feminino tende a enxergar nos esportes de combate um caminho para fortalecer a autoconfiança e o equilíbrio emocional, enquanto o masculino valoriza mais os ganhos corporais", completa.

Essa intenção também aparece na escolha das modalidades. O Muay Thai lidera entre elas, com 42,2%. Depois vêm jiu-jitsu (32%) e boxe (26,1%), todas práticas que trazem aprendizados para além do treino, como autocontrole e autoconfiança. Entre os homens, o ranking muda: jiu-jitsu aparece na frente, seguido por boxe e karatê.

Outro apontamento da pesquisa é que ainda existe uma dificuldade das mulheres acessarem esses esportes no Brasil. A falta de tempo é o principal entrave, citada por 47% das mulheres. O receio de lesões e o custo das aulas também pesam. Mesmo assim, há abertura para investir: cerca de 40% dizem que pagariam até R$ 200 por mês para treinar, enquanto entre os homens esse percentual é ligeiramente menor, de 35%.

Entretanto, o cenário se inverte quando o investimento envolve valores mais altos. Apenas 23% das mulheres afirmam que pagariam acima de R$ 300 por mês, contra 28,1% dos homens.

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