Por que nem mesmo Donald Trump quer um dólar forte
O dólar voltou a cair e chegou a R$ 5,15 nesta semana, o menor patamar desde abril de 2024. O movimento amplia a tendência vista desde o início do ano e reforça uma mudança de humor global em relação à moeda americana.
No acumulado recente, a divisa já perdeu força frente a moedas desenvolvidas e emergentes. A queda não é resultado de um único fator, mas de uma combinação de política monetária nos EUA, estratégia econômica da Casa Branca e mudança no comportamento dos investidores.
No exterior, a leitura é de que o ciclo de aperto monetário americano chegou ao fim. O Federal Reserve baixou juros e agora espera novos sinais de inflação controlada para reduzir a taxa novamente. Juros menores reduzem a atratividade dos títulos do Tesouro americano e estimulam a busca por retornos em outros mercados.
Há também um componente político. Parte do mercado avalia que o governo dos Estados Unidos não vê com maus olhos a desvalorização da moeda, dentro de uma estratégia de reindustrialização e redução do déficit externo. No ano passado, o dólar já havia perdido entre 10% e 11% frente a pares de países desenvolvidos.
Depois que Trump afirmou não se preocupar com a queda do dólar, grandes gestores passaram a questionar a concentração excessiva na moeda americana. O efeito prático é a diversificação para ativos físicos, como ouro, e para outras moedas.
Em julho, o presidente americano disse preferir um dólar forte, mas não negou que um dólar fraco faz com que os Estados Unidos ganhem muito mais dinheiro. “Quando há um dólar forte, algo que parece bom, não há turismo. Não se pode vender fábricas, nem caminhões, nem nada. É bom para a inflação, mas é só isso. E não temos inflação”, explicou Trump.
“A gente tem visto o presidente Trump e o secretário do tesouro sem querer defender muito o dólar. O Trump já disse não ver problema na queda do dólar. Quando o investidor vê o próprio presidente falando contra a moeda dele, ele passa a pensar que diversificar mais pode ser uma boa escolha”, explica André Diniz, economista-chefe da Kinea.
Luciano Telo, CIO da UBS, concorda e acrescenta haver um motivo para que Trump não se importe com a queda da moeda americana. “A ideia é reindustrializar os Estados Unidos e diminuir o déficit em conta corrente”, explica.
Como o real se beneficia?
Essa reprecificação do dólar tem impacto direto no Brasil. Historicamente, o ambiente de juros em queda nos EUA combinado a um dólar enfraquecido favorece mercados emergentes. O capital global migra em busca de retornos mais elevados — e encontra aqui no país uma taxa básica ainda alta.
Com a Selic em dois dígitos, o diferencial de juros sustenta operações de carry trade, estratégia em que investidores captam recursos em economias de juros baixos para aplicar em países com taxas mais elevadas. O fluxo estrangeiro para a bolsa brasileira tem sido um dos reflexos mais visíveis desse movimento.
Nem todos, porém, se beneficiam do dólar mais fraco. No mercado acionário, cresce o ceticismo em relação a empresas exportadoras como Suzano (SUZB3) e Klabin (KLBN11). Embora o preço da celulose esteja em alta no mercado internacional, as companhias são consideradas “dolarizadas” — e a conversão das receitas para um real mais valorizado reduz o efeito positivo da commodity nos balanços. O câmbio, nesse caso, passa a ser um fator de compressão de margem e de revisão de expectativas.
O impacto também aparece nos BDRs. Segundo analistas do Santander, o câmbio recente prejudicou a rentabilidade desses ativos em reais. Além da pressão cambial, as fatias de ações estrangeiras negociadas na B3 sofreram com resultados corporativos mais fracos no exterior e com o aumento da volatilidade, especialmente entre empresas de tecnologia. O resultado é uma combinação de fatores que limita o desempenho, mesmo em um cenário de dólar estruturalmente mais baixo.
Do ponto de vista do investidor pessoa física, há ainda o fator psicológico. Quando o dólar recua — de níveis acima de R$ 6 para a casa de R$ 5,20 e agora R$ 5,15 — cresce a tentação de esperar novas quedas antes de investir no exterior.
Especialistas alertam, no entanto, que tentar acertar o piso da moeda é uma estratégia arriscada, sobretudo em um país cuja moeda já perdeu grande parte de seu valor frente ao dólar desde o Plano Real.
Bancos centrais também participam dessa reconfiguração. Países como a China vêm reduzindo exposição a títulos do Tesouro americano e ampliando reservas em ouro, ativo que não pode ser alvo de sanções e funciona como proteção em cenários de tensão geopolítica.
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