Por que o Brasil é o mercado mais atraente do mundo para renda fixa tokenizada?
Por Christian Gazzetta*
Em 2025, o mercado brasileiro de Renda Fixa Digital movimentou R$ 3,3 bilhões em 614 emissões, com taxa de sucesso de captação de 99,7%. Esses números refletem um momento histórico de convergência entre a maturidade da tecnologia de tokenização, os avanços regulatórios capitaneados pela CVM e a entrada de instituições financeiras tradicionais neste mercado.
O brasileiro paga caro por crédito. Com a Selic a 14,5% ao ano, instrumentos de crédito privado tokenizados entregaram rentabilidade média de 18,9% ao ano em 2025, com quase 30% das emissões na faixa de CDI+5% a CDI+10% (dados do Relatório Renda Fixa Digital).
Para colocar em perspectiva: um fundo de crédito trabalhando com investment grade corporativo dos EUA opera na faixa de 5% a 7% e um fundo de crédito privado europeu, com mais risco e menos liquidez, dificilmente passa de 10%. O spread entre o que o Brasil oferece e o que mercados desenvolvidos pagam é largo o suficiente para justificar o exercício de diligência de qualquer alocador internacional que tenha mandato para emergentes.
E o mais relevante é a composição do yield. A maioria dessas operações tem lastro em CCBs, notas comerciais e recebíveis de PMEs brasileiras, ou seja, em crédito com garantias formalizadas para empresas que, até recentemente, não tinham alternativa ao crédito bancário e estão ganhando acesso ao mercado de capitais graças à tokenização.
Regulação que existe, opera e faz sentido
No cenário internacional, as maiores jurisdições estão regulando gradualmente o universo de ativos digitais, mas ainda falta clareza sobre a tokenização: nos Estados Unidos, a SEC ainda não definiu como tratar ativos do mundo real tokenizados; Na Europa, a MiCA se concentra em criptoativos e stablecoins, mas sem endereçar crédito tokenizado de forma específica; e, em Singapura, o framework da MAS é sofisticado, mas o volume de crédito tokenizado ainda é marginal.
Enquanto isso, o Brasil combina velocidade regulatória com pragmatismo: os R$ 3,3 bilhões captados por ofertas de Renda Fixa Digital em 2025 são consequência direta dessa combinação e de uma adoção institucional em aceleração.
O maior catalisador desse movimento é, provavelmente, a atuação da CVM. Para começar, a comissão criou um enquadramento que segue a lógica da substância econômica: o que determina as regras aplicáveis é o ativo sendo ofertado, não a tecnologia usada para registrá-lo. Assim, uma nota comercial tokenizada é regulada como nota comercial e uma debênture tokenizada é regulada como debênture. Isso parece óbvio, mas em muitas jurisdições o simples fato de um ativo estar registrado em blockchain cria um limbo regulatório que paralisa o mercado.
Além da clareza regulatória, há um regime amigável para ofertas tokenizadas: a maior parte segue a Resolução CVM 88, que viabiliza operações para PMEs com exigências regulatórias simplificadas, regras claras de informação ao investidor, limites de captação, restrições sobre quem pode participar e onde as ofertas podem ser oferecidas. As operações maiores seguem a RCVM 160, regulação tradicional das ofertas públicas no Brasil, e o acesso via fundos opera sob a RCVM 175.
Um ecossistema que já roda com escala
Os números de 2025 contam uma história de maturação acelerada. No primeiro semestre, o mercado acumulou R$ 507 milhões com ticket médio de R$ 2,34 milhões. No segundo semestre, foram R$ 2,83 bilhões com ticket médio de R$ 7,5 milhões. Essa mudança de patamar indica a entrada de operações maiores e mais estruturadas, com perfil mais próximo do crédito privado institucional.
A composição de indexadores reforça essa leitura. Emissões pré-fixadas dominam em quantidade (75% das operações, concentradas em tickets pequenos e prazos curtos), mas o CDI domina em volume (54% do total, com R$ 1,78 bilhão), sendo o preferido dos alocadores institucionais. Operações grandes e longas usam indexadores que refletem preocupação com risco de mercado, seguindo o comportamento padrão do mercado tradicional de debêntures, e por boas razões: é o mesmo tipo de operação, apenas com outra camada de registro.
O que ainda falta?
Um dos maiores obstáculos atuais a esse mercado é a liquidez. A Resolução CVM 88 cria silos de negociação por plataforma, o que significa que o investidor que comprou um token de crédito na plataforma A não consegue vendê-lo na plataforma B. Além disso, os mercados subsequentes ainda são embrionários, de forma que se recomenda seguir a premissa conservadora de carregar a operação até o vencimento.
O risco de crédito também merece uma nota de sobriedade. A infraestrutura digital melhora a transparência e reduz custos operacionais, mas não altera a capacidade de pagamento do devedor. Uma CCB tokenizada de uma PME com fluxo de caixa frágil continua sendo um crédito de risco. O profissional que entra nesse mercado precisa saber analisar crédito de PME com a mesma rigorosidade que aplicaria a qualquer outra operação de crédito privado.
A janela que está aberta
O Brasil parece estar 18 a 24 meses à frente de qualquer outro mercado emergente em renda fixa tokenizada. A convergência de yield alto, regulação operacional, infraestrutura com histórico robusto e ecossistema competitivo cria uma condição que outros países vão levar anos para replicar.
A aceleração do segundo semestre de 2025, com capital institucional começando a marcar presença em operações superiores a R$100 milhões, indica que essa janela de aprendizado e posicionamento não vai ficar aberta para sempre.
Nesse momento, vê-se uma oportunidade importante para (i) os profissionais de investimento que alocarem com segurança para aproveitar os diferenciais de rentabilidade ajustada ao risco; e (ii) para os empresários e CFOs que entenderem como usar a tokenização para captar com menos custos e mais celeridade do que pela tradicional via bancária.
*Christian Gazzetta é cofundador da DeFin Research, onde produz análise institucional e educação sobre ativos digitais, tokenização e blockchain para o mercado financeiro.
Siga o Future of Money nas redes sociais: Instagram | X | YouTube | Tik Tok
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: