Por que o El Niño pode piorar o cenário da Minerva, segundo o Santander
O Santander vê no clima — mais especificamente no El Niño — um dos principais riscos para o desempenho da Minerva em 2026.
Em relatório publicado nesta quarta-feira, 25, os analistas Guilherme Palhares e Laura Hirata afirmam que a possível volta do fenômeno no segundo semestre pode agravar um cenário já desafiador para a companhia, marcado por custos elevados e um ciclo pecuário desfavorável.
A preocupação não é isolada. No início de março, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou a projeção da NOAA para um novo episódio do El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial.
No Brasil, os efeitos tendem a ser desiguais: mais chuvas no Sul e, principalmente, seca no Centro-Oeste e no Norte. Como cerca de 57% da capacidade de abate da Minerva — excluindo operações em outros países da América do Sul e no Sul do Brasil — está concentrada nessas regiões, o impacto climático pode ser direto sobre a operação.
É justamente aí que está o ponto central. Segundo o Santander, condições mais secas deterioram as pastagens e forçam o produtor a antecipar o abate.
Esse movimento, embora possa elevar a oferta no curto prazo, é negativo no médio e longo prazo, pois inclui o abate de fêmeas e atrasa a retenção necessária para recompor o rebanho. Sem essa retenção, a oferta de gado segue apertada, sustentando preços elevados por mais tempo.
“O clima mais seco pode levar à piora das condições de pasto, acelerando as taxas de abate e atrasando a recomposição do rebanho”, afirmam os analistas.
Esse efeito climático se soma a um problema já em curso. O banco destaca que ainda não há sinais consistentes de recomposição do rebanho no Brasil.
Mesmo em um momento em que o ciclo pecuário indicaria retenção de fêmeas, o abate segue elevado — acima de 30% —, o que posterga a recuperação da oferta. Na prática, o El Niño pode amplificar esse desequilíbrio.
Historicamente, segundo o relatório, eventos do fenômeno estão associados ao aumento do abate no país e, mais relevante, ao crescimento do descarte de fêmeas nos anos seguintes. Isso prolonga o ciclo de baixa oferta de gado e mantém os preços elevados por mais tempo — e o preço do boi é o principal driver financeiro da Minerva.
O Santander estima que, a cada aumento de R$ 15 por arroba, o EBITDA da companhia pode cair cerca de R$ 800 milhões, considerando câmbio e preços da carne estáveis.
Com o gado mais caro e a oferta restrita, a tendência é de compressão de margens — especialmente em um mercado doméstico que não absorve integralmente os repasses de preços.
“O consumo de carne bovina no Brasil é altamente sensível a preços”, dizem os analistas, o que limita a capacidade de repasse e pode reduzir volumes.
O ciclo pecuário
A leitura do banco é de que o risco climático chega em um momento particularmente delicado.
As ações da Minerva acumulam queda de cerca de 40% desde dezembro de 2025, pressionadas pela valorização do real e pela deterioração do ciclo do gado, enquanto o Ibovespa avançou 10% no período.
Além disso, o próprio setor já sinaliza um ambiente mais difícil. Levantamento da Datagro aponta queda de 7,5% nos abates em 2026, para 38 milhões de cabeças, reflexo direto do estágio atual do ciclo pecuário.
Após um período de abate elevado, como em 2025, a oferta de bezerros diminui, elevando o chamado “ágio da reposição” e incentivando a retenção de fêmeas — movimento que ainda não se consolidou.
Ainda assim, há possíveis fatores de alívio. Um câmbio mais desvalorizado ou um mercado externo mais aquecido tendem a beneficiar a companhia, que tem forte exposição às exportações — cerca de 60% da receita.
O Santander projeta um EBITDA próximo de R$ 5 bilhões em 2026 e mantém preço-alvo de R$ 6,80 para a ação, ante cerca de R$ 3,96 atualmente.
Mesmo assim, o diagnóstico é direto: o El Niño pode não ser a causa do problema, mas tem potencial para aprofundar um ciclo já negativo — e prolongar a pressão sobre custos e resultados.
Do lado da empresa, o tom também é de cautela. Em conversa com analistas na semana passada, o diretor financeiro da Minerva, Edison Ticle, afirmou que 2026 deve ser mais desafiador. “Dependendo do que acontecer, devemos ter um ano de 2026 realmente pior do que em 2025”, disse.
A expectativa é de inflação de custos, com pressão de itens como diesel, energia e frete. “Isso tudo deve fazer a margem em 2026 ser pior que 2025”, afirmou o executivo.
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