Por que o futuro dos escritórios de advocacia dependerá menos de leis e mais de pessoas
Por décadas, o sucesso na advocacia foi medido pela excelência técnica. Memorizar jurisprudência, redigir petições, conhecer cada artigo do código sem consultar... Hoje, no entanto, isso não basta. Nos maiores escritórios do país, o profissional que deseja chegar ao topo precisa dominar competências que raramente são ensinadas nas faculdades de Direito: gestão de pessoas, resolução de conflitos, visão estratégica de negócios e, mais recentemente, a capacidade de trabalhar lado a lado com a inteligência artificial.
Poucas pessoas acompanharam essa transformação tão de perto quanto Andrea Massei, sócia da área trabalhista do Machado Meyer Advogados.
Especialista em Direito do Trabalho, ela construiu uma carreira de mais de duas décadas em um dos mais tradicionais escritórios do Brasil. E o mais curioso é que essa trajetória começou quase que por acaso.
Aos 16 anos, quando prestou vestibular, Andrea imaginava seguir outro caminho. Seu interesse inicial era a Agronomia. Mas, diante das limitações que enxergava naquele mercado à época, decidiu ouvir o conselho de uma professora que enxergava nela o perfil de uma advogada. E deu certo.
“Entrei na faculdade de Direito sem ter certeza absoluta da escolha, mas me apaixonei pela profissão. Meu primeiro estágio foi na área trabalhista e, sempre que tentava conhecer outras áreas, acabava voltando para ela”, conta. Desde então, toda sua trajetória profissional esteve ligada ao Direito do Trabalho.
Quando ser boa advogada deixou de ser suficiente
A virada mais importante não aconteceu dentro de um tribunal, mas quando Andrea se tornou sócia. Foi nesse momento que percebeu que os desafios da profissão iam muito além das leis e de processos complexos.
“A faculdade nos ensina a ser advogados. Não nos ensina a ser gestores”, diz.
A constatação é cada vez mais comum em escritórios de advocacia, consultorias e empresas intensivas em conhecimento. Profissionais altamente qualificados tecnicamente acabam assumindo posições de liderança sem necessariamente terem sido preparados para lidar com pessoas. E, segundo Andrea, essa transição costuma ser mais difícil do que muitos imaginam.
Ser um bom gestor, segundo ela, exige escuta, empatia, dedicação e capacidade de compreender perfis profissionais completamente diferentes dentro da mesma equipe. "Sem pessoas, nosso negócio não existe."
A complexidade aumenta porque o mercado atual reúne profissionais de gerações distintas, com expectativas, hábitos de trabalho e formas de comunicação radicalmente diferentes. Para líderes, o desafio deixou de ser apenas coordenar entregas. Hoje é necessário criar ambientes capazes de conectar experiências, visões e repertórios diversos.
Sócia do Machado Meyer há mais de duas décadas, Andrea Massei diz que o maior desafio da carreira não veio dos tribunais, mas da gestão de pessoas
O novo desafio dos líderes
Se a gestão de pessoas já era complexa, a chegada da inteligência artificial adicionou uma nova camada de responsabilidade. Para Andrea, a tecnologia deixou de ser uma possibilidade futura para se tornar uma necessidade presente. Ferramentas de IA são utilizadas para revisar documentos, analisar grandes volumes de informações, apoiar auditorias jurídicas e acelerar processos que antes consumiam centenas de horas de trabalho. Os ganhos de eficiência são evidentes. Mas existe um risco que a preocupa.
"A inteligência artificial ajuda muito. O problema é quando as pessoas param de pensar e passam apenas a confiar na tecnologia."
Na visão da advogada, o grande desafio das lideranças é garantir que os colaboradores não se tornem dependentes da IA. O raciocínio crítico, a capacidade analítica e o julgamento humano continuam insubstituíveis.
A tecnologia pode apontar caminhos, diz ela, organizar informações e sugerir respostas. Mas a responsabilidade pela decisão permanece humana. “Ela pode ser um excelente ponto de partida, mas nunca o ponto final.”
A advocacia está mudando — e rapidamente
Durante muito tempo, escritórios de advocacia prosperaram apoiados em modelos altamente especializados, nos quais cada profissional dominava profundamente um único campo do conhecimento.
Essa lógica está sendo substituída por outra. Hoje, segundo Andrea, os clientes exigem uma visão muito mais integrada. Questões trabalhistas se conectam a temas tributários, previdenciários, societários, regulatórios e estratégicos. Compreender apenas uma parte do problema já não é suficiente. O advogado do futuro, acredita ela, precisará ser cada vez mais multidisciplinar.
Mais do que interpretar normas, deverá entender negócios. Mais do que responder perguntas jurídicas, precisará ajudar empresas a construir soluções. "Nosso papel não é simplesmente dizer o que não pode ser feito. É ajudar o cliente a fazer a coisa certa, de forma segura e alinhada aos seus objetivos."
O aprendizado que veio fora do Direito
Foi justamente essa percepção que levou Andrea a buscar formação além da advocacia. Após anos atuando exclusivamente no universo jurídico, decidiu ampliar horizontes e ingressou no Advanced Board Program for Women (ABPW), programa da Saint Paul Escola de Negócios voltado à formação de mulheres para posições de liderança e conselhos de administração.
O objetivo era sair da própria bolha profissional. Conviver com executivas, empreendedoras, administradoras, arquitetas, farmacêuticas e profissionais de diferentes setores permitiu uma ampliação de repertório que ela considera transformadora.
Andrea Massei durante módulo internacional do Advanced Board Program for Women da Saint Paul, em Melbourne: experiência fora do universo jurídico que ampliou sua visão de liderança
Mais do que adquirir conhecimento técnico, a experiência reforçou uma convicção: os desafios contemporâneos da liderança raramente pertencem a uma única área do conhecimento. Eles exigem visão ampla, capacidade de adaptação e disposição permanente para aprender.
Ao olhar para a própria trajetória, Andrea identifica uma mudança profunda no perfil dos profissionais mais valorizados pelo mercado. Se antes bastava dominar uma especialidade, agora é necessário compreender pessoas, tecnologia, negócios e transformação organizacional.
A advocacia continua sendo uma profissão baseada em conhecimento. Mas, cada vez mais, o diferencial competitivo está na capacidade de conectar conhecimentos diferentes.
Talvez por isso a principal lição de sua carreira não tenha vindo de uma sala de audiência. Veio da descoberta de que liderar pessoas pode ser tão complexo quanto interpretar uma lei. E que, em um mundo cada vez mais automatizado, serão justamente as competências humanas que continuarão fazendo a maior diferença.
A trajetória de Andrea Massei mostra que chegar aos conselhos exige mais do que experiência: exige preparo, repertório e visão ampliada de negócios. O ABP-W da Saint Paul desenvolve competências técnicas e comportamentais para executivas C-Level, diretoras e futuras conselheiras atuarem com mais segurança, governança e impacto. Conheça o programa que prepara mulheres para ocupar espaços estratégicos de decisão.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: