Por que o mercado já age como se a guerra tivesse acabado?
As bolsas globais avançaram nesta quarta-feira, 25, em meio ao 26° dia da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, embaladas por um movimento típico dos mercados financeiros: a antecipação de cenários.
Mesmo com Teerã negando qualquer negociação com o governo de Donald Trump, investidores optaram por se ancorar na sinalização de um possível plano de cessar-fogo, divulgado pela imprensa americana, e passaram a precificar um ambiente menos adverso para a economia global.
No Brasil, o Ibovespa fechou acima dos 185 mil pontos, patamar que não alcançava há 15 dias. Foi a terceira alta consecutiva do índice de referência do mercado acionário brasileiro.
Nos Estados Unidos, as bolsas também encerraram no campo positivo, enquanto, no Brasil, o Ibovespa sustentou ao longo de toda a negociação um avanço de 1%, fechando em alta de 1,60%.
Os sinais de que os EUA estão dispostos a negociar
Por trás desse otimismo está a percepção de que o conflito pode caminhar, ainda que lentamente, para uma desescalada.
Segundo o jornal The New York Times, os Estados Unidos teriam enviado ao Irã uma proposta com 15 pontos para encerrar a guerra, abordando temas sensíveis como o programa nuclear iraniano, o desenvolvimento de mísseis balísticos e a segurança de rotas marítimas estratégicas — incluindo o Estreito de Ormuz, peça central no fluxo global de petróleo.
Apesar disso, autoridades iranianas rejeitaram a existência de negociações. O embaixador do país no Paquistão, Reza Amiri Moghadam, afirmou que não há conversas "diretas nem indiretas" em curso. A negativa foi reforçada por outras autoridades, que classificaram as iniciativas americanas como "manobras" e reiteraram que um cessar-fogo só ocorrerá sobre condições mpostas por Teerã.
Ainda assim, o mercado escolheu olhar para o sinal, e não para a negação. "A simples sinalização já demonstra o interesse com o fim do conflito", afirma João Daronco, analista da Suno Research. "O mercado trabalha com precificação de expectativas e cenários".
"O que mais pesa são as possíveis perspectivas futuras de um final do conflito, que desinflamou o cenário", destaca Daronco.
A reação mais clara dessa leitura está no petróleo. A reação dos investidores aos sinais de que os EUA estão dispostos a negociar o fim da guerra com o Irã também se refletiram nos preços da commodity, com o contrato do Brent, que é referência mundial, para maio caindo 2,17%, a US$ 102,02 por barril.
O WTI, parâmetro americano, recuou 2,20%, a US$ 90,32 por barril, para o mesmo mês. A queda indica que os investidores estão menos preocupados com um choque de oferta e mais focados nos efeitos macroeconômicos — especialmente inflação e juros.
"O mercado funciona muito mais na expectativa do que no fato em si", diz Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos. "Mesmo com o Irã negando negociações, só o fato de os Estados Unidos sinalizarem alguma abertura já muda bastante a percepção de risco".
Impacto no petróleo e na dinâmica de juros e inflação
Segundo Trotta, a queda do petróleo reforça esse movimento, porque "reduz a pressão inflacionária e melhora a perspectiva de juros no mundo". "Isso é positivo para ativos de risco", acrescenta.
Esse pano de fundo ajuda a explicar por que setores mais sensíveis ao ciclo econômico lideram os ganhos. Com a perspectiva de inflação mais controlada e juros potencialmente mais baixos, ações de consumo, construção e serviços financeiros tendem a se beneficiar — movimento observado também no Brasil.
Ações de varejistas como C&A, Localiza, Vivara e Assaí ficaram entre as maiores altas do pregão. "A perspectiva de um final do conflito acaba tendo impacto direto no preço do petróleo, que depois se transmite para inflação e juros. Tudo está conectado", diz Daronco.
Na visão da Eleven Financial, o mercado também reage ao fato de que, pela primeira vez desde o início da guerra, há algum tipo de sinalização diplomática concreta. "Só dos EUA sinalizarem um cessar-fogo já é um indicativo de que o conflito se aproxima do fim. Isso é o que está sendo bem recebido", afirma Fernando Siqueira, head de research da casa.
De acordo com Siqueira, o ambiente segue favorável para mercados emergentes como o Brasil, sustentado por juros em queda, valuations ainda atrativos e rotação global de capital. "Os investidores estão saindo de mercados mais caros, como o americano, e buscando alternativas. O Brasil é um destino importante por ser grande e relativamente barato", diz.
Em fevereiro, a Eleven Financial elevou seu target para o Ibovespa para 196 mil pontos e, segundo a casa, o cenário recente, com queda de juros e avanço das eleições, tem reforçado essa visão mais construtiva para 2026.
"Um agravamento do conflito poderia fazer a correção continuar, mas não é o cenário base neste momento", afirmou o head de research.
Mesmo assim, o cenário está longe de resolvido. A dois dias do conflito completar um mês, o embates continuam intensos no Oriente Médio, com novos ataques registrados nos últimos dias e aumento da presença militar dos Estados Unidos na região, incluindo o envio de cerca de 3 mil soldados adicionais.
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