Por que o preço da comida muda? Uma das respostas está na Ceagesp
Em um país onde o clima muda de forma cada vez mais imprevisível, entender o preço dos alimentos passa, inevitavelmente, por olhar para dentro da Ceagesp. É ali, no maior entreposto da América Latina, que as variações de temperatura, chuva e até hábitos de consumo se transformam em números — e chegam ao bolso do consumidor.
“O principal modulador de preço é o clima”, diz Thiago de Oliveira, chefe da Seção de Economia e Desenvolvimento da Ceagesp. A afirmação parece simples, mas carrega uma cadeia complexa que começa no campo e termina nas feiras e supermercados das grandes cidades.
Na prática, o preço de uma fruta ou verdura não depende apenas da colheita, mas também do comportamento de quem consome.
A relação entre clima e preço não está apenas na produção. Em muitos casos, ela aparece diretamente na demanda. Em dias mais quentes, por exemplo, a procura por frutas como melão, mamão e laranja aumenta — mesmo que a oferta permaneça estável.
“Às vezes entra a mesma quantidade de produto, mas o preço sobe porque está calor nas cidades e as pessoas consomem mais”, afirma Oliveira.
O inverso também acontece. Em períodos de frio, o consumo de frutas tende a cair, enquanto alimentos mais calóricos, como mandioca e abóbora, ganham espaço. Essa mudança de comportamento impacta diretamente os preços, mesmo sem alterações na produção.
Ou seja: o clima afeta tanto quem planta quanto quem compra, diz Oliveira.
Esse efeito observado no mercado brasileiro também se reflete em escala global. A alta constante do preço dos alimentos é monitorada pelo FAO Food Price Index, indicador da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura que acompanha a variação dos preços das principais commodities alimentares no mundo.
O índice usa como base o período entre 2014 e 2016, com valor 100. Desde outubro de 2020, o indicador não fica abaixo desse patamar e atingiu um recorde em 2022, quando chegou a 160,2, no início da guerra na Ucrânia. Em março deste ano, fechou em 128,5 — 7,4 pontos acima do registrado no mesmo mês de 2024.
Preço dos alimentos
Se nas cidades o clima altera o consumo, no campo ele pode definir o sucesso — ou o prejuízo — de uma safra inteira. Hortaliças, especialmente, são altamente sensíveis a variações climáticas.
Chuvas intensas, granizo ou calor excessivo podem comprometer a qualidade ou até inviabilizar a colheita. “Muitas vezes o produtor perde valor comercial ou não consegue colher”, afirma Oliveira.
Grande parte desses alimentos vem de pequenos produtores, que trabalham com ciclos curtos e pouca margem de erro. Em muitos casos, passam até 90 dias sem qualquer receita até a venda da produção.
Para reduzir os impactos dessas variações, a Ceagesp funciona como um ponto de equilíbrio nacional. Produtos chegam de diferentes regiões do Brasil — e até do exterior — para compensar perdas localizadas e manter o abastecimento.
Esse sistema ajuda a evitar oscilações ainda mais bruscas de preço. Quando uma região sofre com excesso de chuva ou seca, outra pode suprir a demanda com produtos de melhor qualidade.
“Essa variação ao longo do Brasil permite manter o estoque regulado e os preços mais normalizados”, diz Oliveira.
Ainda assim, o cenário tem se tornado mais desafiador. Nos últimos anos, a irregularidade climática aumentou, com ondas de calor fora de época e mudanças no regime de chuvas. Isso afeta desde hortaliças de ciclo curto até culturas perenes, como frutas que dependem de períodos específicos de frio para se desenvolver.
O preço da comida
O preço da comida vai subir no mundo — e pode avançar até dois dígitos nos próximos anos. O diagnóstico é do Fundo Monetário Internacional (FMI), que aponta uma pressão crescente sobre alimentos impulsionada pela alta da energia e dos fertilizantes.
Os números mostram que o cenário pode piorar. Em simulações mais adversas, os preços de alimentos podem subir 2,5%. Já em um cenário severo, a alta pode chegar a 5% em 2026 e 10% em 2027.
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