Por que os ingressos da Copa de 2026 estão tão caros? Entenda a estratégia bilionária da Fifa

Por Gabriella Brizotti 30 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que os ingressos da Copa de 2026 estão tão caros? Entenda a estratégia bilionária da Fifa

A Copa do Mundo de 2026 pode se transformar no torneio mais lucrativo da história da Fifa. Impulsionada por preços mais altos, venda dinâmica de ingressos e demanda recorde, a entidade projeta uma arrecadação bilionária, enquanto cresce a preocupação com o custo para os torcedores.

A entidade pode arrecadar cifras recordes com o Mundial disputado nos Estados Unidos, México e Canadá, impulsionada principalmente pelo aumento do preço dos ingressos.

Mas o movimento vem acompanhado de críticas. A principal reclamação gira em torno dos valores cobrados dos torcedores, considerados por muitos proibitivos até para fãs acostumados com grandes eventos esportivos. O assunto ganhou repercussão a ponto de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar recentemente que não pagaria pelos preços praticados.

A Copa de 2026 marca a estreia do dynamic pricing, sistema de preços dinâmicos já usado em shows, companhias aéreas e ligas esportivas americanas. Na prática, o modelo faz com que os ingressos mudem de valor em tempo real, conforme demanda, procura, fase de vendas e disponibilidade.

O resultado é um cenário de preços voláteis e pouca previsibilidade para o consumidor. Na Copa do Catar, em 2022, ingressos da categoria 1 para a fase de grupos custavam aproximadamente US$ 220, enquanto moradores locais conseguiam comprar entradas de alguns jogos por cerca de US$ 11. A final tinha ingressos premium na faixa de US$ 1,6 mil.

Agora, o cenário mudou radicalmente. Os ingressos da categoria 1 da Copa de 2026 começaram a ser vendidos por cerca de US$ 600 no fim de 2025. Hoje, muitos ultrapassam facilmente US$ 1 mil, segundo a revista Fortune.

A partida de abertura, na Cidade do México, já apresenta ingressos superiores a US$ 2,5 mil nas categorias principais, enquanto até mesmo setores mais baratos passam da casa dos US$ 1 mil. Para a final, os valores dispararam ainda mais: entradas premium começaram acima de US$ 6 mil e chegaram a superar US$ 32 mil em determinadas fases de venda.

Como a Fifa pode faturar mais de US$ 15 bilhões

Por trás da escalada dos preços existe uma lógica financeira poderosa. A Fifa opera em ciclos orçamentários de quatro anos, concentrando grande parte de sua arrecadação na Copa do Mundo. Embora seja formalmente registrada como organização sem fins lucrativos na Suíça, a entidade movimenta cifras comparáveis às maiores empresas do esporte global.

O Mundial de 1994, também realizado nos Estados Unidos, já havia mostrado o potencial do mercado americano. Na ocasião, o torneio gerou cerca de US$ 700 milhões em receita líquida, superando projeções iniciais graças a patrocínios e vendas de ingressos acima do esperado.

Décadas depois, a máquina financeira da entidade cresceu de forma exponencial. No ciclo encerrado com a Copa de 2022, a Fifa havia projetado receitas de US$ 6,4 bilhões, mas terminou o período com aproximadamente US$ 7,6 bilhões arrecadados. Direitos de transmissão, marketing e desempenho comercial acima do previsto foram determinantes.

Para 2026, a projeção inicial da entidade saltou para US$ 11 bilhões em receitas. Posteriormente, o próprio orçamento revisado elevou a estimativa para US$ 13 bilhões, de acordo com a Fortune.

Mas analistas do setor acreditam que o número real pode ir muito além. Estimativas apontam que a Fifa pode fechar o ciclo da Copa de 2026 entre US$ 14 bilhões e US$ 19 bilhões, impulsionada principalmente por ingressos, hospitalidade premium e revendas controladas pela própria entidade.

A Copa expandida amplia o poder de negociação da Fifa

O novo formato da Copa ajuda a explicar parte da explosão financeira. Pela primeira vez, o torneio terá 48 seleções, mais jogos, mais cidades, mais torcedores e um salto expressivo na procura por entradas.

Mesmo com estádios maiores do que os utilizados em diversas edições recentes, a demanda supera muito a oferta.

Segundo dados divulgados pela Fifa, houve mais de 500 milhões de solicitações de ingressos para o sorteio inicial, enquanto o total disponível gira em torno de 7,1 milhões de assentos.

Esse desequilíbrio oferece enorme margem de manobra comercial à Fifa. A entidade tentou reduzir parte das críticas criando ingressos populares chamados "Supporter Entry Tickets”, vendidos por aproximadamente US$ 60 por meio das federações nacionais.

O problema é a quantidade. São menos de 600 entradas por partida, parcela considerada pequena diante do universo total de bilhetes colocados à venda. Além disso, boa parte das vendas ocorre em fases posteriores, normalmente mais caras, enquanto muitos setores dos estádios aparecem classificados nas categorias premium.

Para onde vai todo esse dinheiro?

A discussão, porém, vai além da dificuldade para comprar um ingresso. A pergunta central é outra: o que a Fifa fará com os bilhões extras?

Oficialmente, a entidade afirma que sua missão é desenvolver o futebol, ampliar o acesso ao esporte e gerar impacto social positivo. Os números orçamentários, contudo, alimentam dúvidas.

Entre os ciclos recentes, os investimentos em competições e eventos cresceram em ritmo muito superior aos programas de desenvolvimento do futebol.

Enquanto os gastos com torneios tiveram aumento superior a 100%, a participação proporcional dos programas de desenvolvimento no orçamento diminuiu.

Especialistas questionam, por exemplo, a necessidade de reservas financeiras bilionárias acumuladas pela entidade e se os recursos adicionais realmente estão sendo convertidos em projetos ligados ao crescimento do futebol global.

A discussão ganha peso por causa do histórico institucional da própria Fifa, frequentemente alvo, ao longo das últimas décadas, de investigações, acusações de corrupção, problemas de governança e questionamentos sobre transparência financeira.

A entidade implementou reformas e criou iniciativas como a Fifa Foundation, focada em ações sociais ligadas ao esporte.

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