'Problema de cultura não é do RH, é do CEO', diz Paulo Camargo no RH Summit
Empresas falam cada vez mais sobre inteligência artificial, produtividade e transformação digital. Mas, para Paulo Camargo, mentor de executivos e ex-CEO de empresas como McDonald’s Brasil, Zamp e Espaçolaser, o principal problema das organizações continua sendo humano.
A discussão apareceu no RH Summit 2026, realizado nos dias 5 e 6 de maio no Expo Center Norte, em São Paulo. O evento reuniu cerca de 6.000 participantes presenciais e teve como um dos principais temas o novo papel estratégico do RH diante da inteligência artificial e das mudanças no mercado de trabalho.
Durante entrevista no RH Summit, Camargo afirmou que muitas empresas ainda tratam problemas de cultura e gestão de pessoas como se fossem responsabilidade exclusiva do RH.
“Tem CEO que fala: ‘Estamos com problema de turnover, problema de clima organizacional’, e chama o RH para resolver”, diz. “Mas isso é um problema do CEO.”
Segundo ele, o RH funciona como parceiro técnico da liderança, mas não substitui o papel da alta gestão na construção da cultura organizacional.
“O principal parceiro é o RH, porque ele entende muito desse assunto. Mas a liderança desse processo é do CEO.”
Na avaliação de Camargo, essa responsabilidade aparece principalmente nos pequenos comportamentos tolerados dentro das empresas.
“A destruição da cultura é aquilo que você permite que aconteça toda segunda-feira às 7 horas da manhã.”
Cultura organizacional não se sustenta na parede
Paulo Camargo abriu o RH Summit falando sobre estratégia, liderança e gestão de pessoas. Na visão dele, independentemente do setor de atuação, empresas continuam dependendo basicamente de três fatores: processo, tecnologia e pessoas.
“No final do dia, se vai ter Big Mac, Whopper ou procedimento estético é um detalhe”, afirma. “As empresas precisam de processo, tecnologia e gente para fazer isso acontecer.”
Segundo ele, um dos erros mais comuns das lideranças é acreditar que cultura organizacional se sustenta apenas em discurso institucional.
“Não adianta estar escrito na parede, nos valores e na missão.”
Na prática, afirma, a cultura é definida pelo comportamento cotidiano das lideranças.
“É um chefe tóxico, um processo ético que não está sendo cumprido.”
Camargo afirma que o RH ajuda empresas a identificar esses problemas antes que eles se tornem crises maiores.
“O RH ajuda a perceber os invisíveis.”
Segundo ele, profissionais de RH conseguem captar sinais de desgaste, conflito e desconexão que muitas vezes passam despercebidos pelos CEOs.
“Eles conhecem os caminhos para descobrir isso.”
Na visão do executivo, essa relação exige proximidade constante entre CEO e RH.
“É quase sessão de terapia.”
IA amplia capacidade — e também limitações
A inteligência artificial foi um dos temas centrais do RH Summit neste ano. Para Camargo, o principal erro dos gestores ainda é tratar IA como ameaça em vez de ferramenta de ampliação.
“Muita gente tem medo”, afirma. “E só tem um jeito de aprender: usando.”
Hoje, ele utiliza ferramentas como ChatGPT, Claude e NotebookLM em parte da rotina de mentorias, palestras e produção de conteúdo.
Segundo ele, a IA funciona como uma espécie de extensão da capacidade humana.
“A IA vai amplificar o que você é.”
Na avaliação dele, profissionais que utilizam a tecnologia de forma superficial recebem resultados superficiais. Já quem desenvolve perguntas melhores consegue elevar a qualidade da interação.
“Você começa fazendo perguntas inteligentes.”
Camargo afirma que, com o tempo, as próprias ferramentas passam a devolver questionamentos mais sofisticados para o usuário.
“Ela começa a fazer perguntas para você que retroalimentam o processo.”
Segundo ele, isso muda a forma como gestores organizam ideias, estudam e produzem conteúdo.
Como executivos usam IA no dia a dia
Durante a entrevista, Camargo descreveu aplicações práticas da inteligência artificial na própria rotina de trabalho.
Ele afirma usar agentes personalizados para estruturar cursos, palestras, livros e imersões voltadas a liderança e gestão.
“Eu sou mestre em terceirizar minhas fraquezas”, diz.
Uma dessas limitações, segundo ele, é memória.
“Eu sou incapaz de lembrar de tudo.”
Nesse contexto, a IA funciona como ferramenta de recuperação de ideias, organização de conteúdo e conexão entre temas.
“Ela está te lembrando das coisas.”
Camargo afirma que usa os sistemas para recuperar tópicos esquecidos em livros, apresentações e artigos.
“Ela concatena essas ideias e facilita muito o processo de cocriação.”
Segundo ele, isso acelera produtividade, mas não elimina responsabilidade humana.
“No final do dia, você é o responsável por escrever e revisar.”
“Não dá para ficar para trás”
Na avaliação de Camargo, a adoção de inteligência artificial já se tornou uma questão competitiva para empresas e executivos.
“Será o diferencial competitivo da próxima década.”
Ele compara o momento atual a outras grandes mudanças tecnológicas, mas afirma que a velocidade da IA é diferente.
“A gente fala da internet, do celular, da revolução industrial. Mas é diferente o que está acontecendo agora.”
Segundo ele, líderes precisam abandonar a postura passiva diante da tecnologia.
“Não dá para ficar para trás.”
Camargo também afirma que muitos profissionais ainda usam IA apenas como mecanismo de busca simples, sem explorar capacidades mais avançadas.
“Não é Google. É diferente.”
Ele defende que gestores aprendam conceitos como prompts, projetos e agentes personalizados para aumentar produtividade e qualidade das entregas.
“Você pode treinar a IA com manuais, critérios e contexto específico.”
Segundo ele, o principal conselho para líderes hoje é começar imediatamente.
“Perde o medo.”
Da operação de fast-food às mentorias para CEOs
Depois de passagens por empresas como Arcos Dorados, Zamp e Espaçolaser, Paulo Camargo direcionou a carreira para mentorias, conselhos e desenvolvimento de lideranças.
Hoje ele acompanha diretamente seis CEOs, participa de três conselhos de administração e atua como advisor, conselheiro estratégico, do iFood.
Segundo ele, parte do trabalho atual envolve justamente ajudar líderes a lidar com cultura, gestão de pessoas e transformação tecnológica.
“Muito trabalho, mas é do jeito que a gente gosta.”
Além das mentorias, Camargo mantém agenda de palestras, escreve artigos semanais e trabalha em um novo livro sobre liderança.
Ele também participou do reality “Choque de Gestão”, da EXAME, em um episódio dedicado à hamburgueria Sampa Burger, de São Paulo.
No RH Summit, a principal mensagem dele para os gestores foi direta: tecnologia não elimina a necessidade de liderança.
“Empresa continua precisando de gente para fazer as coisas acontecerem.”
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