Quem é a empresa dos EUA que comprou a única mina de terras raras do Brasil
Até o começo desta semana, a USA Rare Earth era um nome pouco difundido até mesmo em seu mercado de origem, os Estados Unidos. Fundada há menos de uma década, a mineradora era considerada uma startup até o ano passado, quando listou ações na bolsa. Na última segunda-feira, a quase anônima ganhou as manchetes com uma aquisição bilionária: a do Grupo Serra Verde, em Goiás, que opera a única mina de terras raras do Brasil. Para tanto, vai desembolsar US$ 2,8 bilhões, aproximadamente.
Ao longo da semana, as ações da companhia acumularam alta de aproximadamente 9,6%, saindo de R$ 19,95 na sexta-feira anterior, 17 de abril, e encerrando o período cotadas a R$ 21,86, refletindo a leitura positiva dos investidores sobre a expansão da empresa.
A mina adquirida também é única operação em grande escala fora da Ásia capaz de produzir os quatro elementos magnéticos essenciais (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio).
Mas quem é a empresa listada na Nasdaq como USAR que pode marcar o cenário das terras raras no ocidente, segundo o BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME)?
Menos de 10 anos no mercado
O objetivo declarado da USAR é construir uma plataforma "da mina ao ímã e além", capaz de abastecer setores estratégicos como veículos elétricos, energia renovável, defesa, semicondutores e eletrônicos.
Isso significa estruturar uma cadeia completa, que vai desde a mineração, passando pelo processamento de terras raras nos Estados Unidos, à produção de metais e ligas por meio de sua subsidiária no Reino Unido (Less Common Metals) e a fabricação de ímãs permanentes em Oklahoma, no sul dos EUA, sua sede, além de atividades de pesquisa e desenvolvimento no Colorado, na costa oeste americana.
A empresa também vem ampliando sua presença internacional com parcerias industriais, especialmente na Europa.
O coração dessa estratégia está nos ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB), considerados os mais potentes disponíveis no mercado. Esses componentes são críticos para tecnologias de alta performance, de motores de veículos elétricos a turbinas eólicas, passando por sistemas aeroespaciais, inteligência artificial física e equipamentos médicos.
Apesar do discurso ambicioso e da relevância estratégica, a USAR ainda está em fase de construção. A empresa, fechou 2025com receita de apenas US$ 1,64 milhão e prejuízo líquido ajustado de US$ 80 milhões, refletindo o estágio inicial de operação e o volume elevado de investimentos. A geração de caixa também é negativa, em linha com o avanço de projetos industriais e de mineração.
Em janeiro deste ano, o governo americano informou que vai injetar US$ 1,6 bilhão na companhia, via empréstimos e participação acionária, como parte de uma estratégia mais ampla de Washington para fortalecer cadeias domésticas de minerais críticos.
Esse vínculo com o governo, no entanto, também trouxe escrutínio político. Parlamentares democratas questionam possíveis conflitos de interesse envolvendo instituições financeiras ligadas a membros do governo na estruturação de investimentos na empresa.
Aquisições marcam o 1° trimestre da USAR
Desde o início do ano, a USAR vem acelerando sua estratégia de consolidação. Em março, a empresa fechou a aquisição da Texas Mineral Resources, garantindo controle total sobre o projeto Round Top, no Texas, considerado um dos principais depósitos de terras raras pesadas dos EUA e com início de produção comercial previsto para 2028.
A USA Rare Earth também firmou parcerias industriais, como com a Arnold Magnetic Technologies, e avançou em uma aliança com a Carester, na França, voltada ao processamento e reciclagem desses materiais.
"A criação desta ampla plataforma de processamento e comercialização de terras raras apoiará as prioridades estratégicas da França em matéria de soberania industrial e resiliência da cadeia de valor, garantindo recursos e capacidades essenciais para tecnologias avançadas e a transição energética", afirmou a companhia ao mercado na ocasião.
"Esta iniciativa também reflete a ambição conjunta da França, da USA Rare Earth e da Carester de construir uma indústria europeia de terras raras mais resiliente e sustentável", acrescentou.
Ao incorporar nesta semana o ativo de Serra Verde, em Goiás, já operacional e com capacidade única fora da Ásia, a USAR acelerou seu plano de construir uma cadeia de suprimentos completa fora da China, hoje responsável por cerca de 90% da oferta global de terras raras processadas.
Com o negócio, a empresa de mineração e manufatura passará a controlar integralmente a mina de terras raras Pela Ema e a planta de processamento em Goiás, a única operação em escala fora da Ásia capaz de produzir neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
O acordo também inclui um contrato de compra (offtake) de 15 anos para 100% da produção da fase inicial, por meio de um veículo financiado por entidades ligadas ao governo dos Estados Unidos e investidores privados, com preços mínimos garantidos.
A expectativa é que o Serra Verde atinja um EBITDA anualizado entre US$ 550 milhões e US$ 650 milhões até o fim de 2027, enquanto a empresa combinada pode chegar a US$ 1,8 bilhão até 2030. O fechamento da transação está previsto para o terceiro trimestre de 2026, sujeito a aprovações regulatórias.
Aumento na oferta ocidental
A mineradora brasileira terá preços mínimos garantidos para quatro tipos de terras raras em um contrato de fornecimento de 15 anos firmado com o governo dos EUA e investidores privados. Segundo a Reuters, críticos têm dito que os pisos de preços, que visam nivelar as condições competitivas com a China, produtora dominante de terras raras, têm o potencial de distorcer o mercado.
Na avaliação do BTG, o anúncio "marca um marco significativo para o cenário das terras raras ocidentais".
"Temos defendido que a oferta ocidental, e particularmente a do Brasil, está prestes a se tornar um ator cada vez mais importante no mercado. A transação da Serra Verde reforça essa visão. Como único ativo operacional de terras raras no Brasil, a Serra Verde detém uma clara vantagem de pioneirismo, com a maioria dos projetos de desenvolvimento visando a produção somente após 2028", dizem os analistas Leonardo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo.
De acordo com o banco, a aquisição também reforça o quão crítica se tornou a oferta fora da China para os países ocidentais, particularmente os EUA, diante da necessidade de diversificação de um mercado altamente concentrado.
A instituição diz ver ainda uma "clara preferência" por terras raras pesadas, como disprósio e térbio, segmento que pode enfrentar um déficit de oferta de cerca de 30% até 2030, e avalia que o movimento pode inaugurar "uma onda mais ampla de transações no setor", com empresas em desenvolvimento se tornando alvos de aquisição.
EUA querem ser independentes em terras raras
Em entrevista à Bloomberg, a CEO da USAR, Barbara Humpton, afirmou que a aquisição do Grupo Serra Verde é um passo rumo à independência dos EUA em relação à China no setor de metais de terras raras. "Estamos apenas no início disso", disse Humpton nesta quarta-feira, 20.
"A China estabeleceu isso como um objetivo há décadas. Eles declararam que o Oriente Médio tem petróleo, a China tem terras raras e agora vimos como esse monopólio foi usado para fins de política externa", afirmou.
A executiva também anunciou que a USA Rare Earth planeja aumentar sua produção nacional por meio das operações de mineração no Texas e com as unidades de separação no Colorado e a fábrica de ímãs em Oklahoma. "A empresa está focada no crescimento orgânico para expandir a cadeia de valor, beneficiando-se da demanda de fabricantes de ímãs em busca de um fornecimento confiável", disse a CEO.
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