Queremos mais negócios com os EUA, diz secretária de comércio do Brasil

Por Rafael Balago 11 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Queremos mais negócios com os EUA, diz secretária de comércio do Brasil

Apesar dos altos e baixos trazidos pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos, o Brasil tem grande interesse em ampliar as parcerias com os norte-americanos, em áreas como minerais críticos e tecnologia agrícola, diz Tatiana Prazeres, secretária de comércio exterior do governo brasileiro.

“Os Estados Unidos hoje respondem por menos de 10% de tudo que o Brasil vende pro mundo, o que é muito pouco, considerando que são a principal economia do mundo”, diz Prazeres, em entrevista à EXAME.

“O Brasil conseguiu lidar com essas adversidades [das tarifas] de maneira positiva. Nosso interesse é fortalecer o relacionamento com os Estados Unidos e lidar com essas adversidades, porque é um comércio que nos interessa”, diz. “O comércio com os Estados Unidos é de produtos de maior valor agregado, temos exportações de maior intensidade tecnológica. Os Estados Unidos são um país para o qual o maior número de empresas [brasileiras] exporta.”

Entre as áreas de cooperação, há destaque para minerais críticos e terras raras, além de energia e setor agrícola. “A questão é construir essa agenda de interesses comuns, porque o Brasil tem interesse em agregar valor no país e estimular o processamento [de minerais críticos] no Brasil”, afirma.

Veja a seguir mais trechos da conversa.

Como o tarifaço mudou as relações comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos?

Em primeiro lugar, destacaria que, apesar do tarifaço, as exportações brasileiras atingiram recordes em 2025. Nunca o Brasil exportou tanto quanto no ano do tarifaço. Apesar de uma queda de 6,6% das exportações para os Estados Unidos, o aumento das exportações para outros destinos mais do que compensou essa retração para o país, que é o terceiro destino de exportações do Brasil.

É interessante também ver que, em 2025, o Brasil bateu recorde de empresas exportadoras, o que é um indicador pelo qual a gente também olha com muita atenção. Embora a gente tenha perdido quase 300 empresas exportadoras para os Estados Unidos, cresceu o número de empresas para outros destinos. No agregado, o ano de 2025 foi muito positivo para o nosso comércio exterior, especialmente em função das circunstâncias.

Se a gente quiser fazer um zoom nos Estados Unidos, os produtos sujeitos ao tarifaço foram especialmente prejudicados. Agora, as tarifas não explicam tudo no que diz respeito à queda das nossas vendas para lá. No petróleo, que é um produto excluído do tarifaço, teve uma queda também, que teve a ver com a produção e demanda americanas.

Quais foram os efeitos para as empresas?

Ao longo do ano, a situação passou por altos e baixos, o que fez com que as empresas passassem por momentos muito complicados. As empresas, em muitos casos, absorveram parte do prejuízo, negociaram com seus fornecedores dos Estados Unidos, se empenharam para manter o cliente no mercado americano. Tiveram que lidar com todas essas dificuldades logísticas associadas à imprevisibilidade da política tarifária americana, ou seja, você embarca sem saber qual tarifa o produto vai pagar no destino e qual o comportamento do cliente em função disso.

Ao mesmo tempo, vimos, em muitos casos, um esforço de diversificação de mercados. Muitas empresas passaram a explorar alternativas ao mercado americano. Em muitas situações, isso não foi possível. Tem casos sob encomenda de máquinas, equipamentos e clientes específicos que entraram em redução.

A evolução da política americana em relação ao Brasil envolveu vários fatores. O governo esteve empenhado todo o tempo nessa negociação com os americanos, de uma maneira muito vocal, defendendo e praticando o diálogo com o governo americano. O setor privado americano, mas também o setor privado brasileiro, no esforço de demonstrar ao governo americano quão prejudiciais aquelas tarifas eram, certamente tiveram um papel. Ao longo do tempo, esses fatores combinados levaram a uma redução do alcance do tarifaço no Brasil. Isso tudo culminou na decisão da Suprema Corte.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exibe quadro de tarifas em 2 de abril de 2025 (Brendan Smialowski/AFP)

Como vê a questão do aumento do déficit na balança comercial do Brasil com os EUA?

Vale notar o crescimento das importações do Brasil, originárias dos Estados Unidos. Isso acabou levando a um déficit importante em relação aos Estados Unidos. Ou seja, apesar do Brasil ter tido um superávit [geral] robusto, o terceiro maior da série histórica, nós tivemos um déficit de 7,5 bilhões de dólares com os Estados Unidos.

O déficit não é o nosso ponto central de preocupação. Na verdade, o que nós buscamos é promover mais comércio e mais investimentos com os Estados Unidos. Os Estados Unidos hoje respondem por menos de 10% de tudo o que o Brasil vende pro mundo, o que é muito pouco, considerando que são a principal economia do mundo.

O Brasil conseguiu lidar com essas adversidades de maneira positiva. De fato, houve prejuízos em diferentes setores. Mas a gente virou o ano e ficou, principalmente depois da decisão do Suprema Corte, em uma posição muito melhor do que estávamos em julho. Mas o comércio está claramente aquém do potencial.

Nosso interesse é fortalecer o relacionamento com os Estados Unidos e lidar com essas adversidades, porque é um comércio que nos interessa. O comércio com os Estados Unidos é de produtos de maior valor agregado, temos exportações de maior intensidade tecnológica. Os Estados Unidos são um país para o qual o maior número de empresas exporta. São muitos investimentos americanos no Brasil que movimentam o comércio bilateral.

Como o vice-presidente [Geraldo Alckmin] costuma dizer, o Brasil não é problema para os Estados Unidos, é um comércio que é ganha-ganha. Então, todo o nosso interesse é fortalecer esse relacionamento econômico-comercial.

Para este ano, há o risco de que o Brasil seja alvo de novas tarifas, por meio da Seção 301. Há preocupação de que o país possa ser atingido por novas taxas?

Sim, esse risco está posto em função do processo em curso nos Estados Unidos. É um cenário em que a gente trabalha e atua para evitar. É um processo conduzido pela própria autoridade americana. Há imprevisibilidade quanto à política tarifária. Isso faz com que o potencial do comércio [entre os dois países] tenha dificuldade de se materializar.

Em um evento da Amcham, a senhora disse que os minerais críticos são elementos importantes na negociação com os Estados Unidos. De que forma essas conversas podem avançar?

Do ponto de vista da agenda positiva que pode nos unir aos Estados Unidos, há vários temas com potencial. Esse é um deles, mas há outras oportunidades para, por exemplo, uma agenda produtiva na área energética e na área agrícola, Brasil e Estados Unidos são duas potências energéticas e agroalimentares. Há um potencial para colaboração na área de tecnologia e serviços críticos e estratégicos que fazem parte do universo de temas em que pode haver uma cooperação. A questão é construir essa agenda de interesses comuns, porque o Brasil tem interesse em agregar valor no país e estimular o processamento [de minerais críticos] no Brasil.

O tarifaço ajudou o Brasil a conseguir mais acordos comerciais e negócios com outros países?

Há um esforço para fortalecer relações com países interessados em comércio e investimentos baseados em friend-shoring. Vários atos importantes estão sendo firmados nesse mundo afora. Aí é um pouco a interpretação que cada um deseja dar. Mas a convicção do lado do governo brasileiro, e que antecede a mudança de governo nos Estados Unidos, é a de que nos interessa criar a rede de acordos comerciais do Brasil.

O Brasil, historicamente, tem uma rede limitada de acordos comerciais. A gente começou a mudar essa história em 2023 com acordo entre Mercosul e Singapura, depois em 2025 com acordo Mercosul-EFTA, depois de 2026, com a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, que entra em vigor em 1º de maio

Quais serão os benefícios iniciais do acordo com o Mercosul?

Estamos falando do principal acordo comercial da história, e da liberalização e da abertura comercial pro segundo maior parceiro comercial do país. Da mesma maneira, do nosso acesso livre ao mercado europeu, que é o segundo maior das nossas vendas. Quando eu digo livre, eu me refiro a uma cobertura de comércio de mais de 90%. Cerca de 95% de tudo o que os europeus importam do Mercosul é tarifa zero.

O acordo foi negociado de maneira a que a liberalização na Europa seja concentrada no início do processo. O processo [de implantação] pode ser longo, mas o acordo foi negociado de maneira a que metade, um pouco mais da metade de tudo o que o Brasil exporta para a União Europeia tenha alíquota zero na entrada em vigor do acordo. Parte disso já era zero, mas parte disso não era zero e passa a ser zero com a entrada em vigor do acordo.

De maneira muito objetiva, o acordo tem cerca de 10.000 produtos. Mais de 5.000 produtos terão tarifa zero na Europa a partir de 1º de maio. Será ao contrário aqui no Brasil: mais da metade do que a gente importa da União Europeia terá tarifa zero a partir de 10 anos da entrada em vigor do acordo.Então, a eliminação de tarifas do lado do Mercosul é mais lenta e mais concentrada ao final do período da redução tarifária. Na União Europeia o processo é mais curto, mas é mais concentrado no início do período de vigência do acordo.

Neste ano, estamos tendo choques na economia por causa da guerra no Irã. Como o conflito tem afetado o comércio exterior brasileiro?

O cenário de instabilidade no Oriente Médio afeta o comércio exterior do Brasil de diferentes maneiras. Há impacto sobre o petróleo, que em 2025 e 2024 foi o maior item de exportação do país, mas também afeta as nossas importações de derivados e de combustíveis, inclusive de fertilizantes. A grande variável aí para que a gente possa avaliar o impacto da guerra é o período em que ela dura. Nós seguimos otimistas em relação ao desempenho do nosso comércio e às nossas exportações neste ano.

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