Raízen: 6 pontos sobre o maior caso recuperação extrajudicial do Brasil
A Raízen (RAIZ4) entrou com um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas financeiras, no que já é considerado o maior processo desse tipo já registrado no Brasil.
O pedido, confirmado nesta quarta-feira, 11, foi protocolado no Tribunal de Justiça de São Paulo e ocorre após a companhia acumular dívida bruta superior a R$ 70 bilhões, resultado de um ciclo de investimentos bilionários e de uma deterioração do desempenho operacional nos últimos anos.
Controlada pela Cosan e pela Shell, a companhia afirma que o processo tem escopo exclusivamente financeiro e que as operações seguem normalmente, com pagamentos a fornecedores e parceiros preservados.
Entenda a recuperação extrajudicial da Raízen:
Desde sua Oferta Pública Inicial (IPO) em 2021, a Raízen executou um ambicioso plano de expansão baseado na produção de etanol de segunda geração (E2G). De acordo com dados compilados por analistas, a companhia investiu cerca de R$ 46,8 bilhões desde a abertura de capital, sendo mais de 80% desse valor direcionado à construção e ampliação de usinas de E2G.
A estratégia buscava posicionar a empresa como líder global em biocombustíveis avançados. A expectativa era que as novas plantas elevassem a lucratividade, a geração de caixa e o crescimento da receita, criando um novo ciclo de expansão.
Na prática, porém, os retornos financeiros demoraram mais do que o previsto para aparecer, pressionando o balanço da companhia.
2. Expansão financiada por bancos e investidores
Grande parte desse ciclo de investimentos foi financiada por capital de terceiros. A Raízen recorreu a empréstimos com bancos locais e investidores internacionais, incluindo detentores de títulos de dívida como debêntures, CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) e bondholders no exterior.
A expectativa desses investidores era que os projetos de E2G impulsionassem receita, margens de lucro e geração de caixa, permitindo à empresa pagar a dívida e distribuir dividendos. Com o desempenho abaixo do esperado, porém, o custo da dívida passou a pesar cada vez mais na estrutura financeira da companhia.
3. Quebras de safra reduziram a produção
Além da pressão financeira, a Raízen enfrentou problemas operacionais no campo. Nos últimos anos, a companhia registrou quebras sucessivas na safra de cana-de-açúcar, matéria-prima fundamental para a produção de etanol.
Mesmo com a alta do preço do etanol no mercado, a menor disponibilidade de cana reduziu a produção e, consequentemente, o volume vendido. O resultado foi uma receita abaixo do necessário para sustentar o ritmo de investimentos e o crescimento do endividamento, comprometendo a geração de caixa da empresa.
Em outubro do ano passado, a agência de classificação de risco Fitch Ratings rebaixou a nota de crédito da Raízen de ‘BBB’ para ‘BBB-’ nas dívidas de longo prazo em moeda estrangeira e local.
Segundo a agência, o rebaixamento reflete a "deterioração da estrutura de capital" da companhia, resultado do aumento do endividamento e de um fluxo de caixa operacional mais fraco do que o esperado.
"O rebaixamento reflete a deterioração da estrutura de capital da companhia devido ao aumento do endividamento e um enfraquecimento do fluxo de caixa operacional maior do que o esperado para o exercício fiscal de março de 2026", afirmou a Fitch em nota na época.
A decisão ocorreu um dia após a divulgação da prévia operacional da Raízen, que apontou queda nas vendas de açúcar e etanol próprios no segundo trimestre da safra 2025/26.
4. Alavancagem financeira disparou
Com menos receita e fluxo de caixa pressionado, a estrutura de capital da companhia se deteriorou rapidamente. A relação entre dívida líquida e Ebitda da Raízen chegou a cerca de 5,3 vezes, um nível considerado elevado para o setor.
A dívida líquida atingiu R$ 55,3 bilhões, o que representa um aumento de 43% em apenas um ano.
Um dos objetivos centrais da reestruturação é reduzir essa alavancagem para menos de três vezes o Ebitda, patamar considerado mais sustentável para a operação.
5. Derrocada das ações desde o IPO
A deterioração financeira da companhia também se refletiu no desempenho das ações. Quando estreou na bolsa em agosto de 2021, os papéis da empresa foram lançados a R$ 7,40, em um IPO que levou o valor de mercado da companhia a cerca de R$ 76 bilhões.
Às vésperas do pedido de recuperação extrajudicial, porém, a empresa passou a valer cerca de R$ 700 milhões — menos de 1% do valor registrado na estreia.
Em relatório recente, o analista Flávio Conde, da Levante Investimentos, atribuiu a trajetória da empresa a decisões estratégicas equivocadas do controlador. Segundo ele, a história recente da companhia foi marcada por "megalomania, ganância e imprudência de Rubens Ometto", controlador da Cosan.
6. Como funciona o plano de recuperação
O plano de recuperação extrajudicial apresentado pela Raízen prevê a renegociação de cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras.
Entre as principais medidas estão a suspensão temporária do pagamento de juros por 90 dias, período conhecido como standstill; a conversão de aproximadamente 40% da dívida em participação acionária e o alongamento de prazos e possível renegociação de condições com credores.
Durante esses três meses, a companhia buscará obter a adesão de credores que representem mais de 50% da dívida, requisito previsto na legislação para a homologação do plano.
Em paralelo, a empresa negocia um plano de capitalização, que inclui aporte de R$ 3,5 bilhões da Shell e R$ 500 milhões do empresário Rubens Ometto, por meio da Aguassanta Investimentos.
Apesar da reestruturação financeira, a companhia afirma que a recuperação extrajudicial não inclui obrigações operacionais, o que significa que fornecedores, clientes e parceiros continuam sendo pagos normalmente.
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