Rede de Paola Carosella mira R$ 100 milhões e aposta em lojas sem atendentes
Falta de mão de obra, consumidores mais cautelosos e margens cada vez mais apertadas. Poucos setores enfrentam tantas mudanças ao mesmo tempo quanto o food service brasileiro. Mesmo nesse cenário, a La Guapa decidiu acelerar.
A rede de empanadas fundada pela chef Paola Carosella e pelo empresário Benny Goldenberg projeta ultrapassar 100 milhões de reais em faturamento neste ano, crescimento entre 30% e 40% sobre 2025. O plano inclui cerca de 24 novas unidades, avanço das franquias e um modelo de loja que funciona praticamente sem interação entre clientes e atendentes.
O movimento acontece em um momento de transformação para o setor. A chegada de novos aplicativos de delivery, o avanço dos medicamentos da classe GLP-1, as famosas canetas emagrecedoras, e a escassez de trabalhadores têm levado redes de alimentação a rever seus modelos de crescimento.
"O mercado está sofrendo por todos os lados", afirma Goldenberg. "Mas a gente vem trabalhando a expansão de maneira muito consciente e responsável, olhando os desafios da companhia e do mercado".
O executivo acredita que a combinação entre franquias, digitalização e delivery será determinante para sustentar o próximo ciclo de crescimento da marca.
Delivery já representa metade do negócio
A expansão da La Guapa passa necessariamente pelo delivery.
Hoje, cerca de 50% das vendas da rede acontecem fora das lojas, considerando tanto os aplicativos de entrega quanto o aplicativo próprio da marca.
A empresa opera atualmente com iFood e 99Food. Segundo Goldenberg, a chegada dos novos concorrentes chineses ao mercado brasileiro levou a companhia a revisar parte de sua estratégia de expansão.
Ao mesmo tempo, a rede busca fortalecer os canais próprios. O aplicativo reúne programa de fidelidade, promoções e retirada sem filas, além de permitir que a empresa conheça melhor seus consumidores.
"O aplicativo nos permite ter um relacionamento direto com quem consome a marca. Isso é cada vez mais importante", afirma.
O peso do delivery também influenciou a estratégia de franquias. A companhia decidiu evitar sobreposição entre áreas atendidas por lojas próprias e franqueadas para reduzir conflitos relacionados às entregas.
A nova aposta são as lojas digitais
Mas o projeto que mais chama atenção dentro da nova fase da La Guapa não está nas franquias.
A empresa começou a operar unidades digitais nos shoppings Morumbi e Tamboré, em São Paulo. Nessas lojas, os clientes fazem seus pedidos por aplicativo ou totens de autoatendimento e retiram os produtos sem passar por um caixa tradicional.
Além de acompanhar mudanças de comportamento do consumidor, o modelo ajuda a reduzir custos.
Uma loja convencional da rede exige investimento entre R$ 500.000 e R4 550.000. Já o formato digital pode ser implantado por cerca de R$ 350.000.
A diferença também aparece na operação. Como há menos etapas de atendimento, a necessidade de mão de obra diminui.
"O consumidor está cada vez mais confortável com experiências digitais. E esse formato permite uma operação mais eficiente", diz Goldenberg.
A empresa também inaugura neste mês seu primeiro quiosque no Catarina Fashion Outlet. O modelo exige investimento próximo de R$ 200.000 e poderá ser oferecido aos franqueados após o período inicial de testes.
Franquias entram em fase de aceleração
A entrada da La Guapa no franchising foi anunciada há dois anos. Desde então, a companhia trabalhou na formatação do modelo e na escolha dos primeiros parceiros.
Hoje, a rede soma 45 lojas e já comercializou mais de dez franquias. A expectativa é encerrar o ano com cerca de 25 contratos vendidos e pelo menos metade deles em operação.
O foco está em empreendedores que tenham capacidade de desenvolver mais de uma unidade.
"Não quero abrir uma loja para um franqueado e depois vender a segunda para outra pessoa. Queremos crescer junto com quem já está dentro da rede", afirma.
Natal está entre as próximas praças da companhia. A primeira unidade da capital potiguar deve abrir ainda neste semestre, enquanto uma segunda operação já está sendo discutida com o mesmo franqueado.
O desafio da mão de obra
Se existe uma preocupação comum entre os executivos do setor, ela está ligada à contratação de funcionários.
Goldenberg afirma que a escassez de mão de obra se tornou uma das principais dores do food service.
A discussão sobre o fim da escala 6x1 ganhou força nos últimos meses, mas o executivo acredita que a solução vai além das mudanças na jornada de trabalho.
"Não acho que a resposta esteja apenas na escala. Ela passa por treinamento, desenvolvimento, plano de carreira e por entender melhor as expectativas dessa nova geração de trabalhadores", afirma.
Segundo ele, o mercado já sente os efeitos do problema.
"Tenho visto marcas que não conseguem abrir no horário do almoço ou que ficam sem produtos básicos porque faltam funcionários."
Uma fábrica pronta para crescer
Por trás da expansão existe uma operação industrial com capacidade ociosa.
A fábrica da La Guapa, localizada na Vila Leopoldina, em São Paulo, possui 2.500 metros quadrados de área produtiva e capacidade para produzir até 3 milhões de empanadas por mês.
Hoje, a produção gira em torno de 650.000 unidades mensais. A estrutura abastece todas as lojas da rede e deve sustentar a próxima fase de crescimento, incluindo as franquias que serão abertas fora dos grandes centros.
Para Goldenberg, a categoria de empanadas ainda tem muito espaço para crescer no Brasil. A aposta é que formatos mais leves, operações digitais e uma expansão controlada permitam à empresa continuar avançando mesmo em um dos momentos mais desafiadores para o setor de alimentação.
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