Reunião do Fed tem maior 'racha' entre membros em mais de 30 anos
O principal destaque da decisão do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos) nesta quarta-feira, 29, não foi a manutenção dos juros, amplamente esperada pelo mercado, mas o grau de divisão interna. Quatro membros do comitê discordaram do resultado, o maior nível de dissidência desde 1992, de acordo com dados da CNBC.
Os membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) mantiveram a taxa básica no intervalo entre 3,5% e 3,75% pela terceira reunião consecutiva, em linha com a expectativa unânime captada pela ferramenta FedWatch, do CME Group.
Ainda assim, a decisão expôs um racha relevante dentro do FOMC, que votou por 8 a 4.
De um lado, o diretor Stephen Miran voltou a defender um corte de 0,25 ponto percentual, posição que vem sustentando desde que ingressou no banco central, em 2025.
Do outro, os presidentes regionais Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan também divergiram, mas por um motivo oposto. As autoridades concordaram com a manutenção dos juros, porém rejeitaram o sinal, no comunicado, de que cortes podem estar no horizonte.
O ponto central de incômodo foi a inclusão de uma formulação que indica possíveis "ajustes adicionais" na taxa básica, interpretação vista como um indicativo implícito de que o próximo movimento seria de queda. Para esse grupo, antecipar esse viés é prematuro diante de um cenário ainda pressionado pela inflação.
Guerra contribui para "alto nível de incerteza"
O cenário que chegou ao comitê segue de dupla pressão. De um lado, o núcleo do PCE, índice de inflação preferido do Fed, segue em 3,1%, bem acima da meta de 2%. De outro, a guerra entre Estados Unidos, Irã e Israel, que completou nesta terça, 28, dois meses, e derrubou a visibilidade sobre os preços de energia, com o barril de Brent acima de US$ 100.
Ao decidir nesta quarta pela manutenção dos juros, as autoridades monetárias citaram que os últimos indicadores sugerem que a atividade econômica tem se expandido a um ritmo sólido.
A criação de empregos tem permanecido baixa, em média, e a taxa de desemprego apresentou pouca variação nos últimos meses, destacam. Mas a inflação segue elevada, em parte refletindo o recente aumento dos preços globais da energia.
"O Comitê busca alcançar o máximo emprego e uma inflação de 2% no longo prazo. Os acontecimentos no Oriente Médio contribuem para um alto nível de incerteza quanto às perspectivas econômicas. O Comitê está atento aos riscos para ambos os lados de seu duplo mandato", afirmou o BC dos EUA.
As autoridades monetárias ressaltaram, porém, que podem ajustar a postura da política monetária conforme apropriado caso surjam riscos que possam impedir o alcance de seus objetivos.
Para isso, o FOMC afirmou que avaliará uma "ampla gama de informações, incluindo dados sobre as condições do mercado de trabalho, pressões inflacionárias e expectativas de inflação, bem como desenvolvimentos financeiros e internacionais".
Última reunião do Fed com Powell na presidência
A decisão também ganha relevância por marcar o fim do mandato de Jerome Powell como presidente do Fed, previsto para 15 de maio. O atual chair já indicou que permanecerá no cargo até que seu sucessor seja confirmado pelo Senado. O nome indicado pelo presidente Donald Trump para sucedê-lo é o de Kevin Warsh.
Mais cedo, a Comissão Bancária do Senado aprovou a nomeação de Warsh para a presidência do Fed. A votação seguiu as linhas partidárias, mas prepara o terreno para a votação final de confirmação do indicado do presidente Donald Trump no Senado, controlado pelos republicanos.
Diante disso, o foco dos investidores deve se concentrar na coletiva de imprensa do presidente de Powell. O mercado buscará sinais sobre o rumo da política monetária ao longo de 2026.
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