Rhodia e Pantys adotam créditos sociais para levar dignidade menstrual a 70 mil pessoas

Por Letícia Ozório 3 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Rhodia e Pantys adotam créditos sociais para levar dignidade menstrual a 70 mil pessoas

Para milhares de meninas brasileiras, faltar à escola durante o período menstrual não é consequência de doença, problemas familiares ou falta de transporte. Muitas vezes, o motivo é mais simples — mas igualmente preocupante: a ausência de absorventes e de condições adequadas de higiene durante esses dias.

O problema afeta milhões de pessoas no país. Segundo dados do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do UNICEF, cerca de 15 milhões de brasileiras não têm acesso adequado a produtos de higiene menstrual. Ao mesmo tempo, mais de 321 mil alunas estudam em escolas sem banheiros em condições de uso e cerca de 713 mil meninas vivem em casas sem acesso a banheiro ou chuveiro.

Em situações extremas, a falta de recursos leva adolescentes a improvisarem alternativas com papel, pano, jornal e outros materiais inadequados, aumentando riscos à saúde e comprometendo a frequência escolar.

É diante desse cenário que a Solvay, multinacional química que atua no Brasil com a marca Rhodia, e a Pantys, fabricante de calcinhas absorventes reutilizáveis, decidiram ampliar uma parceria iniciada em 2018 para criar um modelo que pretende tornar as ações de combate à pobreza menstrual financeiramente autossustentáveis.

A iniciativa, divulgada com exclusividade para a EXAME, combina doações de produtos, educação menstrual e um sistema de créditos sociais que transforma impactos sociais comprovados em ativos certificados. A expectativa é alcançar cerca de 7 mil pessoas ainda em 2026 e ultrapassar 70 mil beneficiadas até 2028.

O sonho de acabar com a pobreza menstrual

A Pantys já mantém programas de doação voltados para meninas em idade escolar, mulheres de periferias e comunidades indígenas. Segundo Emily Ewell, CEO e cofundadora da empresa, a nova parceria busca resolver um desafio recorrente de iniciativas sociais: a dificuldade de escalar o impacto.

"A Pantys tem o sonho de acabar com a pobreza menstrual no Brasil. Queremos eliminar uma barreira que limita o desenvolvimento de meninas e mulheres em todo o país", afirma.

A executiva explica que o produto reutilizável permite um impacto de longo prazo quando comparado aos absorventes descartáveis. "Quando você oferece um absorvente descartável para uma menina, garante algumas horas de proteção. Quando oferece uma calcinha absorvente, entrega uma solução que pode durar anos. Isso significa mais acesso à educação, ao trabalho e à dignidade menstrual", diz.

Emily Ewell, CEO de Pantys: "Criamos um mecanismo em que o próprio impacto gerado ajuda a financiar sua expansão" (Divulgação/Divulgação)

Como funcionam os créditos sociais

O principal diferencial do projeto é a utilização dos chamados créditos sociais.

O mecanismo funciona de forma semelhante aos créditos de carbono. Em vez de medir a redução de emissões, porém, os créditos quantificam melhorias na vida das pessoas atendidas.

Entre os indicadores considerados estão frequência escolar, acesso ao trabalho, ganho de tempo, saúde e bem-estar. O processo segue a metodologia internacional W+ Standard, desenvolvida pela organização WOCAN, e passa por auditorias independentes antes da emissão dos créditos.

"Muitas iniciativas sociais dependem de doações contínuas. Com os créditos sociais, criamos um mecanismo em que o próprio impacto gerado ajuda a financiar sua expansão", afirma Emily.

Parte dos recursos obtidos com a comercialização desses créditos retorna para financiar novas doações e programas educacionais. Outra parcela é destinada diretamente às comunidades participantes.

"Nossa expectativa é multiplicar em quatro ou cinco vezes o volume de doações ao longo dos próximos anos, criando um ciclo permanente de reinvestimento nas comunidades", diz a executiva.

A previsão é que a geração de créditos sociais salte de aproximadamente 40 mil em 2026 para até 450 mil em 2028. O objetivo é criar uma estrutura capaz de crescer sem depender exclusivamente de aportes corporativos ou campanhas pontuais.

Aposta da Rhodia em impacto social mensurável

Para a Rhodia, a iniciativa também representa uma evolução na forma como empresas medem resultados sociais.

Segundo Daniela Manique, CEO da Solvay para a América Latina, o diferencial está na capacidade de transformar impacto em métricas verificáveis. "Não basta dizer que você gera impacto. Hoje é preciso medir, comprovar e auditar os resultados. É isso que dá credibilidade às iniciativas sociais", afirma.

A executiva destaca que a empresa já utiliza mecanismos semelhantes em projetos ligados à descarbonização e viu nos créditos sociais uma oportunidade de aplicar a mesma lógica ao campo social.

"Quando a Pantys nos apresentou a possibilidade de acompanhar e comprovar esses resultados por meio de uma metodologia robusta e auditada por terceiros, entendemos que havia uma oportunidade muito relevante de ampliar o alcance das ações", diz.

Segundo Daniela, a parceria também conecta duas organizações com perfis bastante distintos, mas objetivos semelhantes. "É um encontro interessante entre uma empresa com mais de 160 anos de história e uma startup extremamente inovadora. O que nos une é a ideia de usar a inovação para melhorar a qualidade de vida das pessoas", afirma.

Daniela Manique, presidente do Grupo Solvay (Rhodia) na America Latina: "É preciso medir, comprovar e auditar os resultados do impacto social gerado"

Da química à dignidade menstrual

A relação entre as duas empresas começou por meio da tecnologia Amni Soul Eco, desenvolvida pela Rhodia no Brasil. Trata-se de uma poliamida biodegradável utilizada nos tecidos das calcinhas absorventes da Pantys. Segundo a companhia, o material foi criado para acelerar a decomposição após o descarte, tanto em ambientes terrestres quanto marinhos.

"A química muitas vezes é vista apenas pelos impactos negativos, mas ela também é responsável por avanços fundamentais para a qualidade de vida. Nosso desafio é desenvolver soluções que tragam benefícios sociais com o menor impacto ambiental possível", afirma Daniela.

A executiva cita a própria parceria como exemplo dessa estratégia. "A calcinha absorvente da Pantys é um dos melhores exemplos da química aplicada para gerar melhorias de saúde sem prejudicar o planeta", diz.

Segundo ela, a fábrica da Rhodia em Paulínia, responsável pela produção da matéria-prima utilizada na tecnologia, já opera próxima da neutralidade de carbono e deve atingir entre 97% e 98% de redução líquida das emissões até 2027.

"Queremos mostrar que a química pode ser parte da solução para desafios ambientais e sociais. Esse projeto reúne exatamente essas duas dimensões", afirma.

Fábrica da Rhodia (Solvay) em Paulínia, no interior de São Paulo: unidade que produz tecido biodegradável deve atingir até 98% de redução nas emissões no próximo ano

Um problema que ainda afeta milhões

O desafio, porém, continua sendo enorme. Dados do UNFPA e do UNICEF mostram que até 60 milhões de pessoas menstruam atualmente no Brasil. Além da falta de infraestrutura em escolas e residências, o custo dos absorventes ainda pesa no orçamento de milhões de famílias, já que um pacote ao redor do Brasil hoje pode custar de R$ 20 a R$ 55.

Ao longo da vida, uma mulher pode gastar milhares de reais com produtos menstruais. Para famílias em situação de vulnerabilidade, esse valor frequentemente compete com despesas consideradas prioritárias, como alimentação, transporte e moradia.

Por isso, para as executivas, ampliar o acesso a produtos menstruais significa criar condições para que meninas e mulheres possam estudar, trabalhar e participar da vida social sem interrupções.

A expectativa das empresas é que o novo modelo de créditos sociais ajude a criar uma fonte permanente de financiamento para iniciativas de combate à pobreza menstrual, permitindo que o alcance dos programas cresça ano após ano.

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