Safra recorde, lucro apertado: o dilema da soja no Brasil

Por César H. S. Rezende 23 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Safra recorde, lucro apertado: o dilema da soja no Brasil

Os analistas e os produtores são unânimes em estimar que o Brasil deve renovar o recorde na produção de soja em 2025/26, com 178 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Mas, ao mesmo tempo, outro cenário se desenha para a atual temporada e para a próxima (2026/27): o de margens apertadíssimas para o agricultor de soja, as piores dos últimos 20 anos, como aponta projeção da Cogo Consultoria.

Uma combinação de fatores de cinco anos para cá levou a esse contexto, como a queda no preço das commodities e a alta na produção, enquanto os produtores fizeram grandes investimentos — mas o principal é o aumento dos custos, especialmente dos fertilizantes. Como o Brasil importa cerca de 85% desses insumos, a valorização média do dólar nos últimos anos ampliou essa pressão.

“Os custos de produção nunca voltaram para os níveis anteriores, enquanto o preço das commodities voltou. Logo, o produtor continuou pagando mais caro para formar a lavoura”, diz Joana Colussi, pesquisadora da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos.

Um estudo dela, em parceria com outros pesquisadores, com fazendas-modelo em Mato Grosso — principal estado produtor —, mostra que os custos totais cresceram 96%, passando de 172 dólares para 337 dólares por tonelada de 2021 a 2025.

No mesmo período, a produção brasileira de soja cresceu 40%, em razão de melhor produtividade e da forte demanda internacional, especialmente da China, principal compradora do grão brasileiro. As margens caem desde 2021/2022 e, na atual safra, devem atingir 3,9% — eram 55,6% em 2020, avalia Carlos Cogo, CEO da Cogo Consultoria.

Cenário parecido vivem os EUA, segundo maior produtor global, mas por motivos distintos.

Enquanto no Brasil pesam os custos de fertilizantes, nos EUA o impacto vem do aumento dos preços das terras.

No Meio-Oeste, em estados como Illinois e Iowa, cerca de 75% dos agricultores são arrendatários. Por lá, os custos cresceram 13% nos últimos cinco anos, o que deixou as margens negativas; nem mesmo o pacote de 12 bilhões de dólares, anunciado pelo presidente Donald Trump para o agro local, deve aliviar o impacto.

Para Marcos Rubin, CEO da Ve-eries, consultoria agrícola, no longo prazo não há razão para acreditar que essas margens devem melhorar, justamente porque grandes produtores, como Brasil, EUA e Argentina, só aumentam sua produção. Segundo ele, o agricultor brasileiro continua plantando porque recebe alguma coisa, ainda que insuficiente para cobrir os custos.

“Temos hoje um ciclo de superoferta. Estamos acumulando soja em cima de soja, e é por isso que os preços estão baixos”, diz.

Mas, ainda assim, há alguns caminhos do lado tanto da oferta quanto da demanda para melhorar os preços, avalia o CEO. “Implementar, de fato, um biodiesel B16 [com 16% de biodiesel no diesel] ou acelerar o programa de biocombustíveis no Brasil pode ajudar a melhorar os preços pelo lado da demanda”, diz. “Pelo lado da oferta, choques, normalmente relacionados ao clima e à quebra de safra, fazem os preços reagirem.”

Na visão de Cogo, diante de perspectivas pouco positivas, o produtor deve diminuir a área plantada com a soja e optar por culturas mais lucrativas.

“Se houver um movimento generalizado entre os produtores, com grande parte deles tomando a iniciativa de reduzir a área plantada por causa das margens muito baixas e do alto risco, a produção pode ser impactada”, afirma.

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