Saiba por que só a bolsa da Coreia do Sul entrou em 'circuit breaker'

Por Ana Luiza Serrão 5 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Saiba por que só a bolsa da Coreia do Sul entrou em 'circuit breaker'

A bolsa de valores da Coreia do Sul foi a única entre os principais mercados globais a acionar o mecanismo de paralisação automática de negociações, conhecido como circuit breaker, após uma queda superior a 12% do índice Kospi nesta quarta-feira, 4, em meio à escalada de conflitos no Irã.

O movimento envolve fatores estruturais do mercado sul-coreano, a magnitude do rali recente e a própria composição setorial do índice. Também não é a primeira vez que a bolsa do país aciona o mecanismo de circuit breaker: o recurso já foi utilizado em outros episódios de forte aversão global ao risco.

O principal índice da Coreia do Sul teve negociações interrompidas em momentos de estresse sistêmico, como na crise financeira global de 2008, após a quebra do Lehman Brothers, e no auge do pânico provocado pela pandemia de covid-19, em março de 2020.

Para o diretor de análise da The Link Investimentos, Artur Horta, o circuit breaker foi impulsionado por um fluxo intenso de capital a mercados emergentes nos últimos meses, o que levou as cotações a se descolarem dos fundamentos e a atingirem níveis superiores ao que os resultados das empresas justificariam.

Na avaliação do analista, o prêmio de risco para investir em emergentes havia se comprimido de forma significativa. Com o agravamento do conflito no Oriente Médio, que envolve outras potências como Estados Unidos (EUA) e Israel, o ajuste foi, de fato, mais intenso onde havia mais espaço para correção.

Falta de petroleiras na bolsa pesou

O Kospi é fortemente concentrado em tecnologia, semicondutores e manufatura, o que o torna mais sensível a oscilações nesses setores. No pregão de maior turbulência, as ações da Samsung Electronics recuaram quase 12%, enquanto a SK Hynix caiu cerca de 10%, ampliando a pressão sobre o índice.

A diretora de pesquisa de ações para a Ásia da Morningstar, Lorraine Tan, afirmou à CNBC que essa concentração amplifica movimentos em momentos de estresse. Pesa, ainda, a ausência de setores tradicionalmente defensivos em cenários de guerra, como petróleo e mineração, segundo Horta.

O especialista ressalta que, ao contrário de outros emergentes, a Coreia do Sul não possui peso relevante de empresas ligadas a commodities energéticas. "O que segura a nossa bolsa aqui em dias de guerra? Petroleiras. O que sustentou a bolsa brasileira nos últimos tempos? Vale, minério de ferro, ouro, metais", afirmou.

Ele argumenta que muitos mercados emergentes contam com fatia relevante de petróleo e outras commodities — justamente os ativos que tendem a se valorizar no conflito. "Como a Coreia não tem petróleo, ela ficou sem goleiro", disse. "Não tinha nada para salvar, e foi isso que levou ao circuit breaker, na minha opinião."

Sensibilidade a energia e comércio global

A vulnerabilidade é ampliada pela dependência energética do país. Grande importadora de petróleo e gás, a economia sul-coreana é intensiva em manufatura e altamente integrada às cadeias globais. A perspectiva de alta nos preços da energia, em meio à instabilidade no Estreito de Ormuz, adicionou pressão.

O estrategista da Yuanta Securities, Daniel Yoo, pontuou à CNBC que o mercado acionário sul-coreano é particularmente sensível a oscilações nos preços do petróleo e a choques externos. Na sua visão, uma normalização tende a ocorrer à medida que os preços da energia se estabilizem.

Por que outros mercados não pararam?

Índices como o Nikkei, no Japão, e o S&P 500, nos Estados Unidos, têm maior diversificação setorial desses mercados.

Além disso, a presença de empresas de energia e de commodities contribuiu para limitar as quedas. Esses setores tendem a se valorizar em cenários de alta do petróleo, compensando perdas em outros segmentos e funcionando como um fator de sustentação em momentos de choque geopolítico.

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