Salário mínimo sobe acima da renda média em vários países e gera alerta

Por Rafael Balago 27 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Salário mínimo sobe acima da renda média em vários países e gera alerta

O termo “salário mínimo” é um dos mais buscados na internet brasileira, um sinal de sua importância para o dia a dia das pessoas e das empresas. Afinal, serve de referência para todos os trabalhadores e seu valor vem crescendo.

Em diversos países, o mínimo tem subido mais do que a renda média, e economistas debatem os efeitos dessa mudança. No Reino Unido, por exemplo, ele equivale a 61% da renda média do país. Há uma década, representava 48%. Efeito similar ocorreu em países como Alemanha e Espanha (veja quadro abaixo).

Diversos estudos recentes buscam analisar os efeitos dessa alta, inclusive com dados brasileiros. Um deles, do National Bureau of Economic Research, dos Estados Unidos, usou informações da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e chegou a duas conclusões. “Aumentos do salário mínimo ampliam os salários gerais e o emprego formal entre os trabalhadores mais produtivos, enquanto empurram os menos produtivos para a informalidade”, apontam os autores. Ou seja, as empresas podem ficar mais seletivas ao terem de pagar mais.

Já outro estudo, de Erik Hurst, da Universidade de Chicago, mostra que o aumento do mínimo traz ganhos imediatos a trabalhadores de baixa renda, mas pode gerar problemas no longo prazo, conforme as empresas ajustam seus processos para depender de menos funcionários.

“Programas de transferência, como de créditos de impostos, são mais efetivos para aumentar os ganhos de trabalhadores de renda mais baixa a longo prazo. Mas combinar programas com um aumento modesto do salário mínimo gera ainda mais ganhos a eles”, afirma Hurst.

O Brasil não é exceção ao fenômeno. Entre 2000 e 2025, houve ganho real no salário mínimo de 144,8%, segundo o Ipea, embora sua proporção em relação à renda média tenha ficado estável. No ano passado, o mínimo equivalia a 42% da renda média, segundo o IBGE. Nos últimos 25 anos, houve ainda queda da elevada informalidade no país, de 49% para 37,8%.

Túlio Cambraia, consultor de Orçamento da Câmara dos Deputados, concorda que a alta do mínimo pode levar trabalhadores menos produtivos para a informalidade, mas faz uma ponderação. “O impacto negativo do salário mínimo sobre a formalidade pode ser atenuado em contextos de crescimento econômico e de políticas de regulação eficazes”, afirma.

Por aqui, o debate traz ainda outro ponto delicado. Segundo dados da Previdência, cerca de 70% dos aposentados e outros beneficiados recebem exatamente um salário mínimo mensal. Como os reajustes anuais são indexados ao mínimo, isso pressiona — e muito — as contas públicas. O aumento de 2026, de 103 reais, gerará um gasto extra de 39 bilhões de reais ao governo. O modelo brasileiro de indexar o mínimo às aposentadorias é pouco usado no mundo. Na maioria dos países da OCDE, as aposentadorias são ligadas a outros indicadores, como a inflação.

Enquanto os estudos prosseguem, governos continuam a aumentar o salário mínimo. O novo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, promete elevar o salário mínimo na cidade de 16,50 dólares por hora para 30 dólares, até 2030. Na Indonésia, um dos países mais populosos do mundo, o valor subiu 6,17% em 2026, quase o dobro da taxa de inflação anual. A tendência é global e, ao que tudo indica, veio para ficar.

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