São as águas de março: guerra e petróleo freiam rali global
Depois de um início de ano marcado por recordes, março interrompeu o rali e impôs cautela aos mercados globais. A combinação de tensão geopolítica e disparada do petróleo elevou a percepção de risco. E fez até o Ibovespa, que flertava com os 200 mil pontos, recuar.
O principal índice do mercado brasileiro fechou a segunda-feira, 30, em 182.514 pontos, com queda acumulada entre 3% e 4% em março. Ainda assim, sustenta alta de cerca de 12% a 15% no ano, após atingir máxima histórica próxima de 190.534 pontos em fevereiro.
Nos Estados Unidos, o S&P 500 fechou ao redor de 6.350 pontos na segunda, com recuo de aproximadamente 1% a 2% no mês, em desaceleração frente ao ritmo observado em 2025, embora permaneça positivo no acumulado do ano.
O Dow Jones, próximo de 45.300 pontos, ficou próximo da estabilidade. Já o Nasdaq, em torno de 22.900 pontos, recuou em magnitude moderada, pressionado pela combinação de juros elevados e aumento do risco geopolítico.
Mercado de ações: início forte e travamento em março
Na Europa, o movimento foi contrário.
O DAX, perto de 22.500 pontos, e o CAC 40, ao redor de 7.770 pontos, registraram leves ganhos em março, sustentados pela melhora nas expectativas de crescimento e pela recuperação de setores sensíveis ao ciclo global, como bancos e exportadoras.
Segundo a Bloomberg Intelligence, bancos europeus tendem a ser mais impactados pela situação, devido à maior exposição ao Oriente Médio e ao aumento dos custos energéticos, que afetam cadeias logísticas e margens.
O Nikkei 225, no Japão, destoou. Mesmo operando próximo de 51.900 pontos, o índice recuou em patamar intermediário no mês, pressionado pela volatilidade do iene e pelo aumento da aversão global ao risco.
Após a valorização concentrada no início do ano, os mercados passaram a reagir de forma mais desigual entre regiões, com maior sensibilidade a juros, câmbio e choques externos. O banco suíço Julius Baer descreve o momento como um ajuste “longo e desorganizado”, com recomendação de cautela na tomada de risco.
Barril caro e ouro em alta
As commodities se tornaram protagonistas em março.
O movimento reflete a escalada das tensões entre Irã e Estados Unidos, com impacto direto sobre o Estreito de Ormuz, além de decisões de oferta da Opep+.
O ouro permaneceu em patamar elevado, entre US$ 4.510 e US$ 4.520 por onça. Mesmo com recuo de cerca de 15% em relação ao pico de março, acumula valorização de aproximadamente 44% a 46% em base anual.
O Bank of America passou a recomendar aumento de exposição a ativos considerados defensivos, como energia, ouro e setores mais resilientes, e redução em posições mais sensíveis ao ciclo, como ações de crescimento e empresas de menor capitalização, diante do risco de estagflação global.
O banco também aponta para um cenário de aversão ao risco persistente, com possibilidade de deterioração adicional ao longo do segundo semestre de 2026 caso o conflito com o Irã se prolongue, mantendo o petróleo acima de US$ 100 por barril e pressionando inflação e atividade.
O dólar como abrigo e volatilidade cambial
No mercado de câmbio, o dólar se valorizou frente ao real ao longo do mês. A cotação saiu de cerca de R$ 5,13 para R$ 5,24 no fechamento do dia 30.
O movimento acompanha o aumento do prêmio de risco global e a busca por ativos considerados mais seguros. Parte desse prêmio, segundo casas de análise, já reflete um novo patamar de risco associado à energia e à geopolítica, e não apenas fatores domésticos.
A valorização do dólar também está ligada à revisão das expectativas de juros nos Estados Unidos. Com o mercado passando a precificar taxas elevadas por mais tempo, a moeda americana ganha força relativa frente a divisas emergentes.
O câmbio também reflete saída de capital de mercados de maior risco, em um ambiente de risk-off, o que amplia a pressão sobre moedas como o real e reforça a volatilidade no curto prazo.
Risco-off e o impacto nos mercados emergentes
O ambiente de risk-off foi reforçado pela revisão das expectativas de política monetária. O mercado passou a precificar juros “mais altos por mais tempo”, diante da pressão inflacionária associada à alta da energia.
No Brasil, o impacto já aparece nas projeções. O Focus elevou a estimativa de inflação para 4,31% em 2026, ante 4,1% antes da escalada do conflito, e passou a projetar Selic em torno de 12,5% ao fim do período, acima dos 12% anteriores.
Economistas apontam uma mudança na natureza da inflação, que passa de demanda para custo, com impacto direto de combustíveis e derivados. O efeito prático é a redução do espaço para cortes rápidos de juros e maior pressão sobre ativos sensíveis ao custo de capital.
Isso reduziu o apetite por risco e limitou ganhos adicionais nas bolsas, especialmente em tecnologia e mercados emergentes.
O cenário reforça uma transição no comportamento dos mercados. Após um início de ano impulsionado por liquidez e expectativa de crescimento, o fim do primeiro trimestre indica maior seletividade dos investidores, com peso crescente de fatores como geopolítica, inflação e trajetória de juros. Definitivamente, são as águas de março fechando o verão dos mercados globais.
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