SC ou ES: disputa no Congresso debate qual é a 'primeira cidade italiana' do Brasil
Uma disputa regional sobre memória histórica voltou a circular em Brasília. Na Câmara dos Deputados, um projeto reabriu o embate entre Espírito Santo e Santa Catarina sobre qual estado deve concentrar o reconhecimento oficial ligado ao início da imigração italiana no Brasil.
O ponto de atrito é a Lei 13.617, sancionada em 2018, que associou Santa Teresa, na Região Serrana capixaba, ao berço da imigração italiana. Desde então, grupos políticos de Santa Catarina tentam reverter esse enquadramento com o argumento de que há registros mais antigos de instalação de colonos italianos no Sul do país.
A ofensiva ganhou novo fôlego com a tramitação do Projeto de Lei 9.811/2018 na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. A proposta foi apresentada no mesmo ano da sanção da lei federal e busca retirar do município capixaba a primazia simbólica reconhecida pelo Congresso.
O centro da controvérsia está menos na presença de italianos em território brasileiro e mais no critério usado para definir pioneirismo. O lado catarinense sustenta que o marco deve recuar a 1836, quando um núcleo ligado a imigrantes da região que hoje integra a Itália foi instalado no atual território de São João Batista.
Já a defesa capixaba trabalha com outro recorte histórico. Em vez de considerar apenas uma chegada anterior, sustenta que o reconhecimento deve recair sobre o processo de imigração em escala mais ampla, com continuidade e formação de comunidade estável. Nessa leitura, o marco central passa pela chegada de levas ao Espírito Santo a partir de 1874 e pela ocupação do núcleo que deu origem a Santa Teresa.
Esse ponto ajuda a explicar por que o embate ganhou dimensão política. Mais do que discutir uma data, os dois estados disputam a definição oficial do que vale como começo de um fluxo migratório: presença pioneira ou colonização organizada.
Disputa simbólica mobiliza prefeitos, deputados e memória regional
Embora o reconhecimento não altere repasses federais, ele tem peso político e cultural. O título ajuda a fortalecer identidade local, turismo histórico e capital simbólico para cidades que construíram parte de sua imagem pública em torno da herança italiana.
Por isso, a reação capixaba incluiu mobilização de prefeitura, parlamentares e documentos levados à Câmara em defesa da manutenção da lei de 2018. Do lado catarinense, autoridades locais e associações de descendentes pressionam por uma revisão que, segundo esse grupo, corrigiria uma interpretação histórica incompleta.
A discussão também expõe um traço recorrente da política brasileira: disputas de memória costumam sair do campo acadêmico e migrar para o Legislativo quando passam a envolver reconhecimento oficial, pertencimento regional e narrativa de origem.
Sem data definida para votação final, o projeto mantém aberta a briga entre documentos históricos e identidade local.
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