Selic de 15% a 12% é pouco para empresas endividadas, diz gestora
Quem investiu em crédito privado no ano passado encontrou retornos mais baixos. Em condições normais, isso indicaria uma redução do prêmio de risco exigido pelo mercado — movimento que, em tese, estaria associado a um ambiente mais favorável para o endividamento das empresas.
Mas não foi exatamente isso que aconteceu.
Segundo Helena Lage, gestora de crédito privado da Inter Asset, o comportamento dos ativos foi muito mais influenciado pelo fluxo de recursos do que por uma melhora estrutural nos fundamentos. “O volume de dinheiro entrando fez muito mais preço e, de certa forma, determinou muito mais até do que os fundamentos.”
Em 2025, por exemplo, houve uma forte corrida por alocações em crédito privado, impulsionada por eventos específicos — como a discussão da MP 1.303, que trouxe incertezas sobre a tributação de CRIs, CRAs e debêntures incentivadas.
Mas o cenário parece ter se voltado novamente para os fundamentos. Após um período em que o fluxo teve papel predominante na formação de preços, a tendência é que os spreads passem a refletir de forma mais clara a qualidade de crédito das empresas.
“Empresas que têm uma estrutura de capital tranquila, fizeram o dever de casa nos últimos anos, não têm desafio operacional, elas estão com seus spreads estáveis, em alguns casos até vendo os spreads fechando, porque há uma migração de recursos”, diz Lage.
Por outro lado, companhias mais pressionadas — seja por alavancagem elevada, apostas em queda de juros que demoraram a se concretizar, movimentos intensos de M&A ou dificuldades setoriais — têm seguido o caminho oposto, com abertura de spreads.
“No mesmo setor, tem empresa que está indo bem, tem empresa que está indo mal”, comenta Marcelo Mattos, CIO.
A queda de juros tende a beneficiar empresas alavancadas, que, por consequência, poderiam melhorar a percepção de risco do mercado, fazendo os spreads se comprimir.
Entretanto, segundo Lage, é preciso que essa perspectiva de alívio no balanço devido à queda de juros se concretize. “E pensando 2026, Selic de 15% para 12%, ainda parece cedo para esses casos mais estressados”.
‘Somos conservadores’
Daniel Castro, CEO da Inter Asset, enfatiza que a estratégia dos fundos de crédito privado da casa é conservadora.
“Estamos falando de crédito high grade, os menores riscos de mercado”. Segmentos cíclicos, por exemplo, eles avaliam duas vezes antes de entrar. “A barra tem que ser mais alta. Mas isso não quer dizer que não entramos, depende do grupo.”
Casos recentes no crédito privado não passaram despercebidos pela Inter Asset. “Grupo que já reestruturou uma vez, você analisa como foi a reestruturação. Se pediu um prazo, respeitou e no final deu certo, ponto positivo. Reestruturou, mas punindo o credor: se fez uma vez, pode fazer de novo. Esse tipo de coisa que tem ficar atento”, comenta Mattos.
Para ele, o que pode influenciar o mercado é o momento de euforia – tomar risco fora do mandato ou descer a régua de risco.
A Inter Assset possui 80 fundos, sendo que 40 são de crédito privado. Atualmente, a casa soma R$ 26 bilhões em ativos sob gestão e espera crescer esse número entre 20% e 30% ao ano.
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