Selic em 14,25%: vale aumentar os investimentos em ações?

Por Clara Assunção 18 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Selic em 14,25%: vale aumentar os investimentos em ações?

Menos juros e fim de uma guerra costumam ser uma combinação positiva para o mercado de ações. Nesta semana, os investidores receberam justamente essas duas notícias: o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros, a Selic, para 14,25% ao ano e Estados Unidos e Irã anunciaram um acordo para encerrar o conflito que vinha pressionando o mercado de petróleo há quatro meses. Ainda assim, o alívio não foi suficiente para mudar de forma relevante a percepção sobre como ficam os investimentos na bolsa de valores local.

Para analistas consultados pela EXAME, os juros continuam em patamar restritivo e os riscos domésticos seguem pesando mais do que as boas notícias vindas do Banco Central do Brasil e do Oriente Médio.

Na prática, juros menores tendem a tornar aplicações conservadoras um pouco menos atrativas e favorecem os investimentos em ações e empresas mais dependentes de crédito e atividade econômica. Mas o corte de 0,25 ponto percentual, anunciado nesta quarta-feira, 17, foi considerado "pequeno" e, sozinho, ele não deve alterar significativamente o cenário para os investidores.

"O efeito é positivo para quem investe em ações, mas estamos falando de uma queda muito pequena. Você sai de 14,5% para 14,25%. Ainda são juros muito altos", afirma Renato Reis, analista da Blue3 Investimentos.

Fernando Siqueira, head de Research da Eleven Financial, avalia que o seria positivo neste momento é o Copom sinalizar que pode continuar reduzindo os juros por mais tempo. "Do lado negativo, sinalizar que foi o último corte seria mal recebido". A mesma avaliação é compartilhada por Nícolas Mérola, analista da EQI Research. Segundo o especialista, o mercado está mais atento ao que vem pela frente do que ao corte em si.

"Esse corte tem um viés diferente dos demais, porque pode marcar uma pausa no ciclo. Para as ações, ele é residual. Um alívio verdadeiro para as companhias viria apenas com um ciclo maior, mais longo ou mais profundo de redução dos juros", afirma.

Mérola acrescenta que, caso o Banco Central indique que pretende interromper os cortes em 14,25%, o benefício esperado para empresas mais endividadas ou de menor capitalização pode acabar sendo adiado.

O que muda para quem já investe em ações

Mesmo sem provocar uma transformação imediata, a queda dos juros melhora o ambiente para a bolsa. Com crédito mais barato, empresas tendem a enfrentar menores despesas financeiras e encontram condições mais favoráveis para crescer. Além disso, juros menores costumam estimular a atividade econômica e aumentar o interesse por ativos de risco.

"Você tem uma atividade econômica maior, que ajuda no crescimento das empresas. Também existe uma menor atratividade da renda fixa e um ambiente melhor para as companhias em cenários de juros menores", diz Reis.

O analista ressalta, porém, que a relação não é automática. "Não é simplesmente juros caiu e bolsa sobe. Existem outras variáveis importantes, como inflação, estabilidade política, cenário fiscal e o ambiente internacional."

A decisão do Copom nesta quarta ocorreu a poucos dias do anúncio de um acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã, no domingo, 14, para encerrar o conflito iniciado em fevereiro e reabrir o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo. O entendimento, que deve ser formalizado na sexta, 19, reduziu temores sobre interrupções no fornecimento global de petróleo e provocou queda nas cotações da commodity.

Para os investidores, isso pode ter um efeito indireto importante. "Acabando a guerra, o petróleo cai. Com o petróleo caindo, a inflação também tende a cair. E uma inflação menor permite que os juros caiam mais. Isso cria um ciclo virtuoso para a bolsa", afirma Reis.

"O fim do conflito, a queda do petróleo e uma valorização do real indicariam que os juros poderiam cair mais à frente. Isso seria positivo para as ações", acrescenta Siqueira.

Mas o alívio geopolítico não elimina os desafios domésticos. O economista-chefe da Genial Investimentos, José Camargo, disse à EXAME que a principal preocupação do Banco Central continua sendo interna. Segundo Camargo, fatores como expansão dos gastos públicos, programas de crédito subsidiado, mercado de trabalho aquecido e expectativas de inflação desancoradas seguem pressionando a autoridade monetária.

"O país entrou muito cedo no debate sobre 2026, e isso tende a gerar mais incerteza. O governo Lula mantém uma política fiscal e parafiscal bastante expansionista, com crédito subsidiado para compra de caminhões, carros e motocicletas, o que aumenta a demanda e gera pressão inflacionária", disse o economista.

Quais ações saem vencedoras da queda da Selic

Entre os segmentos mais sensíveis aos juros, construção civil e indústria aparecem entre os principais beneficiados. "Empresas muito alavancadas sentem bastante a queda dos juros porque passam a ter menor despesa financeira. Construção civil e indústria são os setores mais impactados positivamente", afirma Reis.

O analista cita empresas como Empresas como Simpar, Movida, Assaí, Cury, Cyrela, Eztec, Randon e Tupy estão entre os exemplos de companhias mais sensíveis à trajetória dos juros.

Já Mérola destaca que, enquanto a Selic permanecer em níveis elevados, os setores mais resilientes continuam sendo os mais bem posicionados. "Mineração, saneamento e energia elétrica seguem entre os vencedores porque são menos afetados pelos juros restritivos e possuem melhores condições de financiamento", afirma.

"Ainda não acreditamos que seja o melhor momento para se expor às empresas puramente domésticas pois mesmo que tenhamos tido algum nível de corte de juros, ele está aquém de causar um alívio grande o suficiente para beneficiar essas empresas. Elas devem continuar pressionadas até que um corte mais profundo aconteça", acrescenta.

Na Eleven, a preferência também permanece em negócios mais defensivos. "Com a Selic alta, as seguradoras são os melhores investimentos. Elas passaram a se destacar na bolsa com a manutenção de juros elevados por mais tempo", diz Siqueira.

O que o investidor de ações deve fazer

Apesar da redução da Selic, os especialistas são unânimes ao afirmar que o investidor não deve alterar sua estratégia apenas em função do terceiro corte de juros no valor de 0,25 ponto percentual.

Para Reis, o principal erro é abandonar uma alocação equilibrada para perseguir os ativos que estão performando melhor no momento. "Não é porque a renda fixa passou de 15% para 14,25% que faz sentido sacar tudo do CDI e colocar na bolsa. O mais importante continua sendo manter disciplina e respeitar a alocação adequada ao seu perfil de risco".

"É muito importante ter essa disciplina seguindo seu padrão de volatilidade. Para o nível de risco que eu quero correr, o certo é ter 90% em renda fixa e 10% em bolsa. [O correto] é você ir rebalanceando", complementa o analista da Blue3.

Siqueira também recomenda cautela e a manuteção de uma carteira mais conservadora. "Nossa visão é que vale a pena misturar empresas grandes, pagadoras de dividendos e exportadoras, características que historicamente tiveram desempenho melhor em momentos de juros altos, crescimento baixo e maior incerteza", disse o head de Research da Eleven.

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