Semana de Milão sinaliza reposicionamento das grandes marcas italianas

Por Júlia Storch 3 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Semana de Milão sinaliza reposicionamento das grandes marcas italianas

Assim como a Semana de Moda de Paris, no final do ano passado, com a estreia de nove designers, a Semana de Moda de Milão deste ano consolidou um momento de transição para a indústria italiana, combinando estreias de peso, mudanças na liderança das marcas e um cenário macroeconômico ainda desafiador.

A temporada trouxe “um bom momento em Milão”, com desfiles fortes e polarizadores, capazes de gerar debate. Em contraste com temporadas consideradas seguras no passado, desta vez muitos estilistas optaram por assumir riscos e defender visões mais claras.

A semana foi descrita por Carlo Capasa, presidente da Camera della Moda Italiana, como particularmente significativa, com estreias aguardadas e mudanças criativas que ampliaram a atenção internacional sobre a cidade. Em um mercado global complexo, ele afirmou que o sistema milanês respondeu com “substância, identidade forte e construção de valor de longo prazo”, segundo a Vogue.

O pano de fundo econômico ajuda a explicar a tensão. De acordo com a WWD, a Itália projeta crescimento de 0,7% do PIB em 2026 e encerrou 2025 com desemprego em 5,6%, um dos níveis mais baixos da história recente. Ainda assim, o setor de moda registrou queda de 2,6% nas vendas em 2025, para 93,3 bilhões de euros — desempenho melhor que a projeção anterior de retração de 3,6%, mas ainda negativo.

As exportações recuaram 3,6%, impactadas principalmente pela desaceleração da China, com queda de 16,7% nos embarques de têxteis, vestuário, couro e calçados, além de retração de 12,5% nos envios de joias, óculos e cosméticos para os Estados Unidos.

Esse contexto pressionou as marcas a usar a criatividade como motor de desejo e recuperação. Na Gucci, a estreia de Demna Gvasalia — considerada estratégica para a retomada do grupo Kering após trimestres de queda — foi cercada de expectativa. Ainda que tenha dividido opiniões sobre as peças, a apresentação revelou mais uma vez a capacidade de construir um “universo Gucci” relevante na economia da atenção. Algo já comum para o perfil de Demna, principalmente com a estética entregue por ele por anos na Balenciaga.

Na Fendi, Maria Grazia Chiuri apresentou sua primeira coleção apostando em silhuetas definidas e paleta majoritariamente monocromática. O CEO Ramon Ros afirmou à WWD que 2026 é “um ano crucial” para a maison romana, marcando um novo capítulo com foco em artesanato, excelência e visão integrada de marca.

A Marni também vive um momento de redefinição com a chegada de Meryll Rogge. Na apresentação, a estilista buscou reconectar a grife aos códigos originais e à vida real, enfatizando usabilidade — movimento relevante em um ambiente de consumo mais seletivo.

No grupo OTB, dono de Diesel e Maison Margiela, o CEO Ubaldo Minelli afirmou à WWD que a Diesel registrou seus melhores resultados em dez anos, fruto de investimentos em reposicionamento e racionalização do canal de atacado. A marca, sob direção criativa de Glenn Martens, é hoje a maior do grupo em vendas. O conglomerado também iniciou 2026 com nova liderança na Diesel e expansão de lojas globais.

Brunello Cucinelli, por sua vez, reportou crescimento de 10,1% em 2025, com receita de 1,4 bilhão de euros, e reiterou previsão de alta de 10% em 2026, mesmo após os impactos da recuperação judicial da Saks Global. Segundo o empresário, as vendas ao consumidor final seguem em trajetória positiva no início do ano.

Já a Versace atravessa um período de espera estratégica. A marca não desfilou nesta temporada e aguarda a chegada de Pieter Mulier em julho. As vendas caíram nos últimos dois anos sob a antiga controladora, mas, conforme relatado pela WWD, a nova gestão vê potencial de recuperação, mantendo a marca separada dentro do grupo Prada.

Criativamente, a temporada refletiu o clima de incerteza global. Ainda que a cor do ano da Pantone seja o branco, os desfiles demonstram o predomínio do preto, referências à proteção — como armaduras reinterpretadas — e forte presença de camadas, tendência vista como resposta prática a um mundo instável.

Ao mesmo tempo, houve espaço para maximalismo, com peles, rendas e botas over the knee, sinalizando que desejo e fantasia seguem como instrumentos comerciais importantes.

Entre desaceleração global, ajustes de portfólio e trocas criativas, as marcas italianas usam Milão como vitrine não apenas estética, mas estratégica — tentando transformar instabilidade em reposicionamento e longo prazo em vantagem competitiva.

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