O tesouro escondido nas cavas: como a mineração pode se transformar na bateria do Brasil?
A trajetória de sucesso de expansão das fontes eólica e solar no Brasil é inegável, fazendo com que o país avance em direção a uma matriz cada vez mais limpa. No entanto, à medida que as fontes renováveis se tornaram mais presentes na matriz energética, surgiu o desafio de garantir a estabilidade do sistema quando não há sol nem vento. Nesse contexto, as usinas reversíveis podem ser inseridas na matriz como aliadas dessas renováveis.
Para viabilizar essa aliança sem a necessidade de construção de novas barragens, pode-se reaproveitar as cavas de mineração exauridas (ou seja, escavações nas quais esgotou-se a exploração de minérios) para formar os reservatórios, transformando um passivo ambiental em um ativo energético. Ao utilizar a topografia escavada de uma mina desativada para formação de pelo menos um dos reservatórios de uma usina reversível, é possível criar uma bateria de água em circuito fechado.
Experiências internacionais indicam um caminho de sucesso nessa solução. Na Austrália, o projeto Kidston Pumped Storage, liderado pela fornecedora de energia de Sydney Genex Power, está convertendo uma antiga mina de ouro em Queensland em uma usina reversível de 250 megawatts (MW). Segundo a Agência Australiana de Energia Renovável (ARENA), o projeto é um exemplo de economia circular, dando um novo propósito econômico a uma estrutura que, sem qualquer benefício, traria apenas um custo fixo de manutenção.
A grande vantagem competitiva desse modelo, especialmente para um país como o Brasil, é o aproveitamento de uma infraestrutura herdada, incluindo acessos e instalações da rede elétrica existente. Ademais, a ocupação de áreas já afetadas por intervenção humana podem ser um fator simplificador do licenciamento ambiental.
O Brasil possui grande potencial para o desenvolvimento de projetos desse tipo, principalmente no Quadrilátero Ferrífero (MG) e em Carajás (PA). E o setor de mineração já começou a demonstrar interesse nessa parceria. Itabira (MG) iniciou o debate sobre os usos futuros das cavas exauridas na região, que podem vir a ser usadas para geração de energia ou abastecimento de água, sendo este um dos temas centrais do eixo de diversificação econômica do plano Itabira Sustentável.
Neste contexto, o país já possui três pilares para a implementação deste modelo: engenharia qualificada, cavas disponíveis e demanda por armazenamento. O elo faltante é o arcabouço regulatório. A definição de regras claras para remunerar os serviços prestados por essas usinas poderá deixar o Brasil em uma posição de destaque na convergência entre mineração e renováveis.
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