Show de Joss Stone em Florianópolis celebra 100 anos da ponte e foco na nova economia
A celebração do centenário da Ponte Hercílio Luz, considerada o maior símbolo de Florianópolis e principal cartão-postal do Estado, vai muito além do show gratuito da cantora britânica Joss Stone, neste sábado (16/5), a partir das 20h, na capital de Santa Catarina. O evento é a cereja do bolo na extensa programação festiva.
Ela foi planejada para ser uma espécie de turning point no modelo de geração de receita, turismo, investimentos e novos negócios em Florianópolis. Conhecida carinhosamente pelos catarinenses como “a velha senhora”, a estrutura inaugurada oficialmente em 13 de maio de 1926 chega aos 100 anos transformada em ícone de uma nova Capital — mais conectada ao turismo internacional, à inovação, à economia criativa, aos grandes eventos e à atração de investimentos bilionários.
A expectativa oficial é de que cerca de 100 mil pessoas acompanhem o espetáculo, mobilizando hotéis, restaurantes, transporte e toda a cadeia econômica da cidade dentro da estratégia de movimentar Florianópolis economicamente ao longo do ano inteiro.
A apresentação internacional integra a programação oficial do centenário da estrutura considerada o principal símbolo urbano catarinense. Ao longo do dia, Florianópolis recebeu apresentações culturais, reforço em mobilidade urbana, ações turísticas e uma operação especial de segurança para receber milhares de pessoas na região continental da Capital.
O prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, tratou o evento como um marco para a imagem da cidade e vinha reforçando publicamente, nas entrevistas e peças de divulgação da programação, o objetivo de transformar Florianópolis em uma cidade preparada para receber grandes eventos nacionais e internacionais.
Nos bastidores da administração municipal, a leitura é de que o centenário da ponte representa uma oportunidade rara de ativar simultaneamente turismo, economia criativa, infraestrutura urbana e projeção institucional.
Os efeitos econômicos começaram a aparecer antes mesmo do início da programação oficial. Dados do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Florianópolis apontam ocupação média de 47,7% na rede hoteleira durante o fim de semana do evento — crescimento de quase 30% em relação ao fim de semana anterior. Apenas na região central da Capital, mais de 760 unidades estavam reservadas. No Continente, a ocupação se aproximou de 40%.
A plataforma Airbnb também registrou aumento de 22% na demanda por hospedagem para a data do show em comparação ao mesmo período do ano passado, indicando atração de visitantes de outras regiões do estado e de fora de Santa Catarina.
O movimento reforça uma estratégia cada vez mais clara dentro da prefeitura, do governo estadual e do setor produtivo: Florianópolis tenta reduzir sua dependência histórica do turismo de verão e consolidar uma economia permanente baseada em eventos, inovação, experiências urbanas e turismo corporativo.
A cidade trabalha para se reposicionar como um polo permanente de eventos corporativos, tecnologia, inovação, esportes e grandes ativações urbanas capazes de movimentar hotéis, restaurantes, transporte e serviços durante todo o ano.
Investimentos bilionários
O exemplo mais citado dentro desse novo modelo é o Floripa Airport. A modernização do terminal administrado pela Zurich Airport Brasil alterou a percepção de mercado sobre Florianópolis e ampliou significativamente a conectividade internacional da cidade. O aeroporto passou a integrar o grupo de terminais brasileiros com maior crescimento proporcional na movimentação de passageiros estrangeiros, ampliando a presença de turistas internacionais e viajantes corporativos na Capital.
A transformação da infraestrutura aeroportuária também começou a atrair investimentos de grandes grupos internacionais de hotelaria. Um dos movimentos mais recentes foi o anúncio da chegada da rede norte-americana Hilton ao entorno do aeroporto internacional. O projeto do Hilton Garden Inn prevê investimento de aproximadamente R$ 94 milhões, com 288 quartos, centro de convenções, coworking e estrutura voltada principalmente ao turismo corporativo.
Outro investimento relevante veio da portuguesa Vila Galé, que confirmou a construção do primeiro empreendimento do grupo em Santa Catarina. O resort será instalado no Sapiens Parque, no Norte da Ilha, com investimento estimado em R$ 200 milhões e foco combinado em lazer, eventos empresariais e turismo de experiência.
Somados, apenas os dois empreendimentos representam quase R$ 300 milhões em novos aportes privados diretamente ligados ao turismo e à hospitalidade de padrão internacional.
Mas os investimentos previstos para Florianópolis vão além da hotelaria. Entre os projetos considerados estratégicos está a futura implantação do Parque Urbano e Marina da Beira-Mar Norte — uma intervenção planejada há décadas e que pretende criar um novo eixo de turismo náutico, gastronomia, entretenimento e convivência urbana na Baía Norte. O investimento é de aproximadamente R$ 400 milhões.
Embora os valores oficiais variem conforme os modelos de concessão e execução, estimativas ligadas ao conjunto de obras estruturantes envolvendo hotelaria internacional, marina, revitalizações urbanas, novos equipamentos turísticos e expansão imobiliária associada ao turismo corporativo já superam a casa de R$ 1,5 bilhão em investimentos diretos e indiretos previstos para os próximos anos em Florianópolis.
Outro vetor decisivo dessa transformação econômica está no fortalecimento do ecossistema de inovação e tecnologia, hoje liderado principalmente pela ACATE e pelo Sapiens Parque. A Associação Catarinese de Tecnologia e Inovação que o setor de tecnologia catarinense já movimenta mais de R$ 42 bilhões por ano, emprega mais de 100 mil pessoas e responde por cerca de 7,5% do PIB estadual. Já o Sapiens Parque consolidou-se como um dos principais habitats de inovação do país, reunindo mais de 120 empresas, centros de pesquisa, laboratórios e operações ligadas à inteligência artificial, inovação urbana e economia criativa em uma área superior a 4 milhões de metros quadrados no Norte da Ilha.
A combinação entre tecnologia, turismo qualificado, qualidade de vida e ambiente universitário passou a consolidar Florianópolis como um dos principais polos da nova economia brasileira.
A ACIF também passou a defender de forma mais intensa a ampliação do turismo de negócios e do calendário anual de eventos como política econômica permanente para a Capital. A entidade avalia que Florianópolis reúne características raras no país: qualidade de vida, forte ecossistema de tecnologia, ambiente universitário, turismo consolidado e capacidade crescente de atrair eventos nacionais.
Nos últimos anos, eventos ligados à inovação, empreendedorismo, tecnologia, esportes e economia criativa passaram a integrar uma agenda praticamente contínua na cidade, reduzindo gradualmente os efeitos da sazonalidade tradicional.
O governador Jorginho Mello também passou a vincular o centenário da ponte à estratégia de promoção econômica e turística do estado. Em manifestações recentes, classificou a Hercílio Luz como “o maior símbolo de Santa Catarina” e destacou o potencial da estrutura como ativo permanente de turismo e promoção institucional.
Empresa catarinense
O evento deste sábado também serviu de vitrine para outro elemento importante dessa nova narrativa urbana: a iluminação cênica da ponte.
Inaugurado em dezembro de 2024, o projeto executado pela catarinense Quantum Engenharia transformou a estrutura em uma plataforma permanente de espetáculo visual e ativação turística. O sistema utiliza 7.096 pontos de LED RGB distribuídos em luminárias, projetores e fitas de LED semelhantes às tecnologias aplicadas no Cristo Redentor e na Torre Eiffel.
Ao todo, foram instalados mais de 7 mil projetores, incluindo 124 projetores LED RGB concentrados principalmente nas torres centrais e cerca de 5,5 mil pontos LED distribuídos nos pendurais da ponte, em um projeto que consumiu investimentos de aproximadamente R$ 9 milhões.
A tecnologia permite programações temáticas, alterações de intensidade e espetáculos sincronizados para datas especiais, campanhas institucionais e grandes eventos. Além do show de Joss Stone, algumas surpresas cênicas e ativações visuais também estão previstas para a noite deste sábado, reforçando o conceito de transformar a Ponte Hercílio Luz em uma plataforma permanente de experiências urbanas e turísticas.
Outro desafio relevante da obra foi a questão climática e operacional. Como a Ponte Hercílio Luz permanecia aberta ao tráfego durante o dia, os trabalhos de instalação da iluminação só podiam ser realizados entre 21h e 5h da manhã, período em que a estrutura era fechada para o trânsito. A operação mobilizou seis alpinistas eletricistas especializados em trabalho em altura e acesso por corda, que também enfrentaram as condições severas da Baía Norte.
Em diversos momentos, ventos fortes, umidade elevada e neblina impediram o avanço das atividades, exigindo paralisações temporárias e protocolos rigorosos de segurança ao longo da execução do projeto.
O desafio técnico foi ampliado pelo fato de a ponte ser patrimônio histórico tombado. Nenhuma perfuração estrutural poderia ser realizada. Para viabilizar a instalação, a Quantum desenvolveu suportes metálicos sob medida capazes de preservar integralmente a estrutura original.
A iluminação da ponte também projeta nacionalmente a expansão da Quantum Engenharia, empresa especializada em iluminação pública, energia solar fotovoltaica e subestações de transmissão de energia. Hoje, o principal carro-chefe da companhia é justamente a atuação em iluminação pública municipal, seja diretamente pela Quantum ou por meio de consórcios estruturados em Parcerias Público-Privadas.
A empresa já administra mais de 500 mil pontos de iluminação pública no Brasil e consolidou crescimento em cidades de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo. A projeção interna da companhia é alcançar, até 2030, uma receita estimada em R$ 500 milhões.
A empresa é liderada pelo engenheiro elétrico Gilberto Vieira Filho, natural de Criciúma, no Sul catarinense. No fim da década de 1980, mudou-se para Florianópolis para cursar Engenharia na UFSC. À época, o plano era se formar e retornar para a cidade natal, onde pretendia abrir um pequeno negócio que, segundo ele próprio costuma brincar, se chamaria “Loja dos Fios”. Mas, ao concluir a graduação, acabou contratado para atuar em projetos de instalações elétricas na Capital — cidade da qual nunca mais saiu e onde posteriormente fundou a Quantum Engenharia.
“A iluminação pública há muito deixou de ser apenas uma questão de serviço urbano. Em um país com mais de 5,5 mil municípios, ela também passou a representar um elemento importante de segurança pública. E agora avançamos rapidamente para projetos de smart cities, que incluem, além da iluminação, câmeras de monitoramento, conectividade e redes de wi-fi para a população”, afirma Gilberto Vieira Filho.
Entre os projetos de destaque da Quantum estão PPPs em Porto Alegre, Joinville, Palhoça, Itajaí, Garopaba e Ribeirão das Neves, além de contratos em cidades como Florianópolis, São José, Blumenau, Navegantes e Santos.
“A iluminação cênica da Ponte Hercílio Luz foi um projeto desafiador tecnicamente, mas hoje podemos afirmar que o maior símbolo de Santa Catarina, reconhecido internacionalmente, dispõe de uma estrutura de iluminação tão moderna quanto a de alguns dos principais monumentos do mundo, como a Torre Eiffel e o Cristo Redentor”, afirma Gilberto Vieira Filho.
Se a intenção do planejamento construído entre prefeitura, governo do Estado e iniciativa privada era unir tradição, modernidade e inovação, utilizando a Ponte Hercílio Luz como símbolo dessa consolidação da nova economia local, a estratégia começa a dar sinais claros de que a virada de chave pretendida para Florianópolis já está em curso.
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