Showroom imersivo de imóvel na planta já movimenta cerca de R$ 20 bi

Por Caroline Oliveira 10 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Showroom imersivo de imóvel na planta já movimenta cerca de R$ 20 bi

Um dos maiores desafios da venda de imóveis na planta sempre foi transformar um projeto futuro em algo concreto para o cliente. Afinal, como convencer alguém a investir milhares — ou até milhões — de reais em um espaço que ainda não existe? Para reduzir essa distância entre imaginação e decisão de compra, incorporadoras passaram a apostar em experiências imersivas capazes de transportar o consumidor para dentro do empreendimento antes mesmo de a obra sair do papel.

Por meio de projeções, sons, aromas e narrativas sensoriais, os visitantes conseguem não apenas visualizar como será o imóvel, mas experimentar a atmosfera e o estilo de vida propostos pelo projeto.

Em um cenário ainda marcado por juros elevados e incertezas econômicas, as salas imersivas multissensoriais ganharam espaço como ferramenta estratégica no mercado imobiliário. A aposta das incorporadoras é clara: encurtar o ciclo de decisão, aumentar o valor percebido dos lançamentos e se diferenciar em um ambiente cada vez mais competitivo.

A proposta vai além de apresentar imagens de um empreendimento ainda em construção. O objetivo é transformar o estande de vendas em uma experiência sensorial capaz de fazer o consumidor se projetar emocionalmente naquele espaço.

Por trás de alguns dos principais cases dessa transformação está a gaúcha Neorama, especializada em experiências imersivas de arquitetura e narrativas audiovisuais para o mercado imobiliário. Somente nos últimos anos, a empresa atuou em projetos que, juntos, somam cerca de R$ 20 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV).

“O mercado imobiliário vende uma promessa. É algo que ainda não existe fisicamente e que só será vivenciado daqui a dois, três ou quatro anos. O que a Neorama faz é dar forma para essa promessa”, afirma Cássio Carvalho, sócio da empresa.

Segundo ele, a estratégia combina audiovisual, arquitetura, design, narrativa e neuromarketing para criar ambientes que estimulam visão, som, tato e até olfato. “A decisão de compra não acontece apenas na razão. Ela acontece no corpo inteiro. [...] Quando a pessoa sente o som, a textura, o aroma e a atmosfera do futuro lar, ela já vive emocionalmente o espaço antes de comprá-lo”, diz.

Para a Neorama, esse movimento representa uma mudança estrutural na forma como o marketing imobiliário vem sendo construído. “O mercado todo tem olhado para isso, do altíssimo padrão ao médio padrão e até produtos de entrada”, declara Carvalho. “As incorporadoras passaram a buscar formas de gerar desejo e aprofundar a experiência de consumo por meio de estímulos sensoriais e emocionais”.

Por que as incorporadoras estão comprando essa ideia

O ponto de partida dessa estratégia está na própria natureza do produto imobiliário. Entre a assinatura do contrato e a entrega das chaves, podem se passar de dois a quatro anos — ou até mais.

Antes da construção do empreendimento, o comprador precisa sustentar emocionalmente uma decisão de alto valor financeiro baseada, muitas vezes, apenas em planta baixa, maquetes, imagens projetadas e decorados. A compra de um imóvel exige um exercício constante de projeção.

“O cliente tenta imaginar como será sua rotina naquele espaço no futuro, ao mesmo tempo em que pondera não apenas o que está escolhendo, mas também aquilo que está deixando de escolher”, explica o executivo.

É nesse contexto que entram conceitos ligados ao marketing e ao neuromarketing, especialmente o chamado “ensaio emocional”: a tentativa de antecipar como será a sensação de viver naquele ambiente. Quando o imóvel ainda não existe, esse processo depende da capacidade de abstração do comprador.

Ele observa imagens, percorre plantas baixas e tenta construir mentalmente a experiência de morar ali. Diante desse desafio, surgem as salas imersivas.

A experiência como “máquina do tempo emocional”

A Neorama define suas salas imersivas como uma espécie de “máquina do tempo emocional”.

“O tempo de espera entre fechar negócio e receber o produto – no caso um apartamento – quase sempre é um tempo longo no mercado imobiliário. Neste aspecto o percurso imersivo funciona como uma máquina do tempo emocional, em que o espectador é transportado para o futuro e consegue ter uma projeção muito potente da futura realidade naquele lugar”, explica o executivo.

“A gente não pede para que a pessoa faça um esforço para se imaginar ali. A gente cria as condições para que essa projeção aconteça naturalmente. Sem perceber, ela começa a imaginar quem vai se tornar naquele espaço. Não trata-se apenas de como ela vai viver, mas sim quem vai se tornar”, afirma.

O efeito nos clientes e nos números

O impacto dessa estratégia já aparece nos números. A Even, por exemplo, desenvolveu para o projeto Faena São Paulo uma das maiores salas de imersão da América Latina, segundo a incorporadora, com projeção mapeada e visão em 270 graus.

“O cliente chega preparado para vivenciar o universo Faena e já se reconhece dentro do empreendimento pelo aspecto transformacional e pelo componente cultural que o nome carrega. A sala de imersão proporciona uma experiência sensorial única do projeto e de seus diferenciais”, explica João Paulo Laffront, diretor de incorporação da Even.

Em Porto Alegre, a Melnick também registrou quantitativamente a estratégia. Dados da ferramenta de Business Intelligence (BI) da incorporadora mostram que o estande do Cidade Nilo, que recebeu a experiência “Universo Nilo”, recebeu 1.649 visitas nos três primeiros meses de implantação — alta de 708% em relação a empreendimentos sem a experiência imersiva.

Já a sala do empreendimento Square Garden, também da Melnick, recebeu 1.837 visitantes no mesmo período, alcançando recorde de visitação. Segundo a incorporadora, o efeito vai além do aumento de fluxo.

No Cidade Nilo, a experiência deixou de funcionar apenas como preparação para o atendimento comercial e passou a concentrar toda a jornada de venda. Dentro da sala imersiva, em escala real, acontecem apresentação, narrativa e negociação.

“Stands com salas imersivas atraem mais público, geram leads mais preparados e elevam a conversão. No fim do dia, isso significa produtividade comercial, VGV ampliado e mais competitividade para as incorporadoras”, afirma Márcio Carvalho, também sócio da Neorama.

Outros projetos reforçam o potencial de valorização associado às experiências multissensoriais.

No Kempinski Laje de Pedra, em Canela, também no Rio Grande do Sul, a transformação do antigo hotel em um centro de experiências imersivas ajudou o valor do metro quadrado a ultrapassar R$ 80 mil, de acordo com a Neorama.

Em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, a empresa gaúcha participou da construção narrativa de um projeto de ilha privada idealizado por um sheik.

“Quando ele viu o vídeo, disse: ‘ok, agora vamos construir’. De certa forma, o sonho virou realidade a partir daquele material que produzimos”, afirma Carvalho.

Neorama: a revolução imersiva movimenta R$ 20 bilhões e acelera vendas no mercado imobiliário

Do luxo à base da pirâmide: qual é o público-alvo?

Embora a Neorama tenha nascido e se consolidado no segmento de alto padrão, sua metodologia começa a permear diferentes faixas de produto. Hoje, mais do que a renda do comprador, o que define a viabilidade do serviço é o porte do empreendimento.

Segundo Carvalho, o critério típico de entrada é o tamanho do projeto: lançamentos a partir de aproximadamente R$ 400 milhões em Valor Geral de Vendas (VGV) costumam ter margem para incorporar uma sala imersiva no orçamento. Em geral, isso significa empreendimentos de médio-alto e alto padrão, principalmente em grandes centros urbanos.

Ao mesmo tempo, a Neorama já desenvolveu projetos para produtos enquadrados em programas habitacionais como o Minha Casa Minha Vida, assim como para torres residenciais no topo do mercado. Para o executivo, o mercado de luxo funciona, nesse contexto, como laboratório e lançador de tendência: primeiro as experiências chegam ao altíssimo padrão, depois escorrem para outras camadas do setor.

A lógica que sustenta esse movimento é comportamental, não financeira. Independentemente do tíquete, o comprador precisa se enxergar no espaço e projetar como será sua rotina naquele ambiente daqui alguns anos.

“Em qualquer mercado, em todos os segmentos, as pessoas estão olhando para como gerar desejo de consumo ou uma experiência de consumo mais profunda através de experiências sensoriais e emocionais”, afirma Carvalho. “Qualquer pessoa quer se enxergar em algum lugar, quer se projetar em algum lugar”.

Esse entendimento também começa a aparecer do lado das incorporadoras. A Melnick, por exemplo, relatou que a experiência imersiva deixou de ser um diferencial para se tornar parte fundamental da estratégia comercial em diferentes tipos de empreendimento.

“Hoje, a experiência é essencial nos estandes de venda, independentemente do padrão do empreendimento. Ela ajuda a trazer clientes para o estande e melhora a conversão porque tangibiliza o produto e ativa o lado emocional da decisão”, explica Juliano Melnick, CFO da companhia.

Cidade Nilo: stand de vendas com experiência imersiva recebeu 1.649 visitas nos três primeiros meses de implantação (Divulgação)

Aquecimento do mercado impulsiona demanda

O avanço das experiências imersivas acontece em paralelo a um ciclo de aquecimento do mercado imobiliário brasileiro, sobretudo nos segmentos médio e alto padrão. Mesmo com juros elevados e consumidores mais seletivos, o volume de lançamentos se manteve robusto em diversas capitais, acirrando a concorrência.

Nesse ambiente, a disputa deixou de ser apenas por localização e especificações técnicas. Com muitos produtos similares em oferta, as incorporadoras passaram a buscar diferenciais que atuem diretamente na percepção de valor e na velocidade de venda. É nesse ponto que a Neorama posiciona sua metodologia como instrumento de investimento.

“Existe uma grande diferença entre custo e investimento. Em um cenário com muita oferta, as empresas precisam se diferenciar”, diz o executivo.

A empresa garante que a sala imersiva não substitui elementos tradicionais — como apartamentos decorados ou campanhas publicitárias —, mas adiciona uma camada de profundidade emocional à jornada.

Esse movimento se reflete nos números informados pela empresa: o faturamento da Neorama com salas imersivas cresceu 240% entre 2023 e 2026; ao todo, são 24 ativas desenvolvidas para 12 clientes no país. No faturamento geral, a companhia avançou 60% no mesmo período.

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