South Summit começa com foco em IA e impacto na vida das pessoas
O primeiro dia do South Summit Brazil 2026, em Porto Alegre, foi marcado por um tema que atravessou praticamente todos os painéis: o impacto da inteligência artificial na vida das pessoas — e o papel dos humanos no uso dessa tecnologia.
Ao longo desta terça-feira, 25 de março, no Cais Mauá, a discussão apareceu sob diferentes ângulos. De um lado, a capacidade dos sistemas de processar dados e automatizar decisões. Do outro, os limites dessa tecnologia e a necessidade de critérios humanos para orientar seu uso.
Na abertura do evento, essa linha foi colocada de forma direta. “A tecnologia, por si só, não gera valor. O que buscamos é utilizar a inovação como vetor de transformação econômica e social”, afirmou José Renato Hopf, presidente do South Summit Brazil.
Inteligência artificial e decisão humana
O ponto de maior repercussão do dia foi a participação do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso. No palco, ele descreveu a inteligência artificial como uma mudança estrutural, comparável a grandes marcos da história.
Segundo Barroso, a tecnologia representa a transferência de capacidades humanas para softwares, especialmente na análise de dados e na tomada de decisões. Ao mesmo tempo, destacou que esses sistemas não têm consciência própria e dependem de dados e objetivos definidos por pessoas.
“O progresso tecnológico não deve ser temido, mas orientado por regulações que garantam benefícios concretos à sociedade”, afirmou.
Ele também destacou que a inteligência artificial amplia a capacidade de análise em áreas como direito e medicina, ao permitir acesso e cruzamento de grandes volumes de informação em pouco tempo. Outro ponto citado foi o impacto na comunicação, com o uso de sistemas capazes de gerar conteúdo e alterar a forma como as pessoas consomem informação.
Ex-ministro do STF, Luís Roberto Barroso: tecnologia não deve ser temida, e sim regulada (João Pedro Rodrigues/Secom Gov RS/Divulgação)
Da venda ao serviço: o papel dos dados
A discussão sobre tecnologia apareceu de forma prática em painéis com executivos de empresas que estão mudando seus modelos de negócio.
No painel sobre plataformas de serviços, MadeiraMadeira, Neon e Dr. Consulta mostraram como deixaram de operar apenas com produtos ou serviços isolados para acompanhar toda a jornada do cliente.
Na MadeiraMadeira, a mudança começou ao perceber que a venda de móveis não resolvia toda a demanda do consumidor. “As pessoas não compram sofá todo mês. Então vimos que o serviço era uma oportunidade de ampliar a relação com os clientes”, disse Robson Privado, cofundador da empresa.
A partir disso, a empresa passou a incluir novos serviços na operação. “Percebemos que o cliente queria não era o produto, mas o sonho realizado. Começamos vendendo móveis, depois passamos a montar. E viramos uma plataforma de serviços, que participa de toda a jornada”, afirmou.
O modelo passou a incluir montagem, desmontagem e outros serviços domésticos, com gestão da operação do início ao fim.
No setor financeiro, a Neon adotou uma estratégia baseada no uso de dados para entender o comportamento dos clientes e ajustar a oferta de produtos. A lógica é reduzir etapas e antecipar necessidades dentro do aplicativo.
Na saúde, o Dr. Consulta estruturou a operação para manter o histórico do paciente e estimular acompanhamento contínuo. A proposta é evitar que o atendimento aconteça apenas em momentos pontuais e criar uma relação mais frequente com o usuário.
Nos três casos, a tecnologia aparece como ferramenta para organizar dados e apoiar decisões, mas com foco na experiência do cliente ao longo do tempo.
Serviços digitais e mudança de comportamento
Outro painel trouxe a visão de empresas maiores sobre o avanço dos serviços digitais. O CEO da Vivo, Christian Gebara, relembrou a transformação do setor de telecomunicações desde os anos 1990.
“Chegaremos em carros e máquinas autônomas, mas antes disso vemos muitas oportunidades de serviços digitais para os clientes”, afirmou.
Ele também chamou atenção para o uso intensivo de tecnologia no cotidiano. “Pensamos muito em saúde mental. Lançamos uma campanha para que as pessoas usem menos o celular. No Brasil as pessoas desbloqueiam o celular até 80 vezes ao dia”, disse.
A fala conecta com um ponto recorrente no evento: a tecnologia avança, mas também muda hábitos e exige ajustes no comportamento das pessoas.
Inovação, impacto e reconstrução
Além das discussões sobre empresas e tecnologia, o evento também trouxe temas ligados a políticas públicas e impacto social.
Um dos painéis apresentou o Impacta RS 2026, programa voltado a negócios com soluções ligadas a clima e desenvolvimento econômico no estado. A iniciativa reúne governo, bancos e organizações para apoiar empresas que atuam nesses temas.
O debate ocorre em um contexto recente de eventos climáticos no Rio Grande do Sul, com foco na reconstrução econômica e na criação de novos negócios.
Porto Alegre como ponto de encontro
A edição deste ano reúne startups, investidores, executivos e representantes do setor público em uma agenda que vai até o dia 27 de março.
Ao longo do primeiro dia, os painéis combinaram diferentes setores, mas com um ponto em comum: o avanço da inteligência artificial como base das discussões e a necessidade de definir como essa tecnologia será usada.
Entre exemplos práticos de empresas e discussões mais amplas sobre regulação e sociedade, o evento girou em torno de uma mesma questão: até onde a tecnologia pode ir — e qual é o papel das pessoas nesse processo.
A história do South Summit
Em meio à crise econômica que atingiu a Espanha no início da década passada, um evento surgiu com a proposta de conectar empreendedores e investidores. O South Summit foi criado em 2012, em Madri, pela empreendedora María Benjumea em parceria com a IE Business School, escola de negócios sediada na capital espanhola.
Naquele momento, o país enfrentava desemprego acima de 20% da população adulta e mais de 50% entre jovens. A falta de crédito e a incerteza sobre o futuro pressionavam empresas e profissionais.
A ideia do South Summit nasceu desse contexto. Benjumea reuniu acadêmicos da IE, executivos de grandes empresas e representantes do governo para criar um encontro voltado a negócios e inovação. “A Espanha estava muito mal naquela época”, afirmou a empreendedora à EXAME.
Empreendedora desde o fim dos anos 1970, Benjumea já havia criado negócios como uma galeria de arte, em 1981, e o Infoempleo, plataforma de empregos lançada nos anos 1990 com a chegada da internet.
A primeira edição do South Summit foi pequena, com algumas centenas de participantes e poucos fundos de investimento. Ao longo dos anos, o evento cresceu e passou a atrair startups e investidores de vários países.
Um dos pilares do encontro é a competição de startups, que seleciona empresas com potencial de crescimento. Entre as participantes estão companhias que depois atingiram valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares.
Com o tempo, o evento se consolidou como ponto de encontro do ecossistema de inovação na Espanha. Madri passou a atrair mais investimento em startups e ganhou espaço entre os principais polos de tecnologia na Europa.
A expansão internacional começou anos depois. Em 2022, o South Summit chegou ao Brasil, com a primeira edição realizada em Porto Alegre, no Cais Mauá. O evento reuniu cerca de 15 mil pessoas de 76 países.
A edição seguinte ampliou a estrutura, com aumento de área e número de palestrantes. Em 2025, o encontro manteve a realização na capital gaúcha mesmo após as enchentes que atingiram a região, reunindo mais de 20 mil participantes.
Hoje, o South Summit reúne startups, investidores e executivos em diferentes países, mantendo o formato baseado em conteúdo, conexões e apresentação de negócios.
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