Spotify, Deezer e Apple Music: como artistas ganham dinheiro no streaming?
Os streamings musicais correspondem hoje a por 69% da receita de US$ 29,6 bilhões da indústria musical global. Os dados são da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) referentes a 2024. Ou seja, US$ 20,4 bilhões foram gerados no streaming em apenas um ano.
O Spotify afirma ser responsável por cerca de 30% da receita global de músicas gravadas, uma fatia que configura a empresa como líder no setor.
No ano passado, a companhia pagou mais de US$ 11 bilhões em royalties para artistas que disponibilizam suas músicas na plataforma. O dado vem do relatório Loud and Clear, publicado pela empresa no início de maio.
Apesar dos números em ascensão, o modelo de remuneração do Spotify é alvo de diversas críticas. Há mais de uma década, Taylor Swift afirmou que a plataforma prejudica artistas menores e retirou seu catálogo de lá.
Recentemente, foram levantados questionamentos mais focados em negócios, como o quão sustentável é um modelo cuja receita é majoritariamente direcionada ao pagamento de royalties. É diferente da Apple Music e da Amazon Music, cuja divisão de streaming é apenas parte de uma suite maior de serviços tecnológicos.
Outro ponto levantado é a valoração de um stream. Plataformas como a Deezer, por exemplo, usam um sistema de remuneração em que artistas com engajamento mais fidelizado têm um pagamento melhor, até como forma de incentivar a conexão com fãs.
Como funciona a política de royalties do Spotify?
A política de royalties no Spotify é baseada na participação de cada artista no total de streams da plataforma, não por uma taxa fixa por reprodução.
Se a música de um artista representa 1% de todos os streams, ele recebe cerca de 1% do fundo de royalties. Em 2025, artistas que representavam 1 em cada 1 milhão de streams geraram, em média, mais de US$ 11 mil.
Existem dois tipos de royalties gerados no Spotify. Os royalties por gravação são pagos aos detentores dos direitos da música gravada e repassados aos artistas por meio de gravadoras ou distribuidoras.
Já os royalties de publicação são destinados aos compositores ou detentores dos direitos da composição, cobrindo direitos de performance. Eles são pagos a editoras e organizações de direitos de execução (PROs).
Cerca de dois terços da receita do Spotify, proveniente de assinaturas Premium e publicidade, é destinada ao pagamento desses royalties, sendo aproximadamente 80% para gravação e um quinto para publicação.
Os pagamentos são feitos aos detentores de direitos, que então repassam os valores a artistas e compositores de acordo com seus contratos individuais.
As limitações do modelo por volume
A principal crítica ao modelo do Spotify não vem necessariamente dos números, que seguem crescendo, mas da lógica que os sustenta.
Para Lui Fuller, diretor de inteligência e novos negócios da agência Digimakki, o problema estrutural é que a plataforma continua priorizando quantidade em detrimento de conexão real.
"O Spotify prioriza os top charts, quem tem mais streams, e isso é algo bem manipulável hoje em dia", afirma. "Você acaba priorizando quem consegue o maior número, e não quem de fato consegue mais conexão."
Nessa lógica, streams podem ser comprados, playlists com grande volume também, e artistas com números inflados podem não ter público real para shows.
Fuller relata casos de artistas que planejaram turnês em arenas com base em métricas que não refletiam engajamento genuíno, e a disparidade só ficou evidente na hora de vender ingressos.
Do lado financeiro, há uma tensão estrutural menos discutida: quanto mais um artista cresce no Spotify, mais royalties ele recebe, mas o custo para a plataforma cresce na mesma proporção, sem que haja um retorno multiplicado.
Diferente de outros modelos de negócio, o streaming musical não se beneficia de economias de escala da mesma forma: mais streams significam mais pagamentos, e não necessariamente mais lucro proporcional para a empresa.
Para Fuller, enquanto o modelo privilegiar volume puro, a plataforma continuará "refém dessa lógica de custo crescendo". Uma saída, na sua visão, seria o Spotify remunerar melhor streams com engajamento direto comprovado, usuários que buscam ativamente um artista, em vez de apenas receber recomendações algorítmicas. "Se ele começar a pagar melhor quem de fato tem o fã interessado, classificar melhor as comunidades e não só o volume, é uma saída", defende.
A força das big techs no mercado musical
Se o modelo de streaming puro já enfrenta pressões de rentabilidade, a chegada das grandes empresas de tecnologia ao setor adiciona outra camada de complexidade competitiva.
Apple Music e Amazon Music operam sob uma lógica distinta, onde a música não é o produto final, mas parte de um conjunto de produtos disponíveis em apenas uma assinatura. Ele funciona como retenção de usuários dentro de um produto maior. "A própria Alexa te leva automaticamente para o Amazon Music", diz Fuller. "Faz sentido o streaming estar dentro de um ecossistema maior."
Para o Spotify, que tem a música como único núcleo de negócio, a equação é bem mais exigente.
Quanto à remuneração de artistas, a Apple pratica uma política de royalties que se diferencia por uniformidade. A empresa paga a mesma taxa base de 52% a todos os detentores de direitos, ao contrário de outras plataformas que oferecem condições melhores a gravadoras maiores.
A taxa média por reprodução em planos pagos individuais é de US$ 0,01, e a empresa afirma não reduzir royalties em troca de inclusão em playlists editoriais criadas por suas equipes.
A Amazon Music segue o modelo padrão da indústria, em que royalties são pagos a detentores de direitos com base no uso em cada país e em cada tipo de assinatura, que então os repassam a artistas conforme seus contratos.
O modelo Deezer de remuneração
Enquanto o debate sobre royalties se concentra no Spotify, a Deezer tem desenvolvido uma abordagem estruturalmente diferente, que começa a ser observada pela indústria como uma alternativa possível ao modelo de pagamento por volume.
O sistema da plataforma, chamado Artist Centric Payment System (ACPS), parte de um princípio simples: nem todo stream tem o mesmo valor.
Em vez de distribuir royalties proporcionalmente ao total de reproduções, o modelo multiplica o valor de um stream de acordo com o tipo de engajamento que o gerou. "Se o usuário foi diretamente à página de um artista e tocou uma música a partir dali, esse stream recebe um incentivo — ele pode valer o dobro de um stream tradicional", explica Pedro Kurtz, diretor de operações e conteúdo para as Américas na Deezer. O mesmo vale para buscas diretas pelo nome do artista.
O raciocínio é que engajamento ativo, não algorítmico, reflete uma conexão real entre artista e ouvinte e deve ser melhor remunerado.
O modelo também bonifica artistas que constroem audiências consistentes. Quem acumula pelo menos 1.000 streams mensais vindos de 500 usuários diferentes recebe um incentivo adicional no seu pool geral de royalties. Isso favorece artistas de nicho com bases fiéis, em detrimento de perfis inflados por reproduções passivas ou automatizadas.
Para combater justamente esse tipo de distorção, a Deezer implementou um limite de monetização por usuário. Após determinado número de streams, as reproduções excedentes de um único perfil deixam de gerar royalties, uma medida para conter fazendas de streaming e garantir que os pagamentos reflitam engajamento real.
O ACPS, lançado para música gravada em 2023, foi expandido em janeiro de 2025 para os direitos editoriais, em parceria com a Sacem, maior organização de gestão coletiva de direitos da França.
Trata-se, segundo as duas organizações, da primeira atualização global no modelo de remuneração de direitos editoriais desde a introdução do streaming, há mais de quinze anos. "O ACPS premia a verdadeira música, exclui o ruído e contabiliza melhor a diversidade de estéticas e gêneros ouvidos na plataforma", disse Cécile Rap-Veber, CEO da Sacem, no anúncio da parceria.
O modelo não torna a Deezer mais lucrativa diretamente. "O dinheiro é o mesmo no final das contas, a gente só tira de um lugar e coloca em outro", admite Kurtz.
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