Supermercado é só mais um concorrente, diz presidente de associação de farmácias

Por André Martins 29 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Supermercado é só mais um concorrente, diz presidente de associação de farmácias

A liberação de farmácias dentro de supermercados deve aumentar a concorrência no varejo farmacêutico, mas sem alterar de forma estrutural a dinâmica do setor no Brasil.

Essa é a avaliação é de Edson Tamascia, presidente da Farmarcas, que classifica a mudança como “mais manchete do que transformação real”.

A nova legislação, sancionada nesta semana, autoriza supermercados a operarem farmácias em suas dependências, desde que em espaços segregados e com cumprimento integral das normas sanitárias. A medida mantém exigências como presença obrigatória de farmacêutico e controle rigoroso na dispensação de medicamentos.

“O supermercado é só mais um concorrente entre as 94 mil farmácias existentes no Brasil”, afirma Tamascia.

Para ele, a regulamentação trouxe segurança jurídica ao setor ao impedir a venda de medicamentos em prateleiras comuns — proposta que gerava maior resistência entre entidades.

Segundo o executivo, o texto aprovado preserva a chamada isonomia regulatória, termo que define regras iguais para todos os operadores do mercado, evitando vantagens competitivas artificiais.

Na prática, a mudança altera apenas a localização das farmácias dentro dos supermercados — antes restritas a áreas externas ou galerias. “É igualzinho uma farmácia de rua. Não mudou absolutamente nada na operação”, diz o presidente da Farmarcas.

Hoje, cerca de 20% dos supermercados já contam com farmácias anexas, operadas como negócios independentes. A expectativa do setor, porém, não é de expansão acelerada desse modelo.

Tamascia afirma que a operação farmacêutica exige estrutura própria, profissionais especializados e gestão específica, o que limita ganhos de sinergia com o varejo alimentar.

“Não é o mesmo negócio. O supermercado vai ter que operar como qualquer farmácia”, diz.

Presidente da Farmacas destaca a força do setor com ou sem farmácias dentro dos supermercados (Farmarcas/Divulgação)

Concorrência e estratégia no varejo farmacêutico

Para o executivo, o debate público superdimensiona o impacto da medida. Ele aponta que grandes redes farmacêuticas seguem expandindo em ritmo mais acelerado do que qualquer iniciativa do varejo alimentar.

“Enquanto se fala que supermercados vão abrir dezenas de unidades, grandes redes abrem centenas por ano. O ambiente competitivo já existe”, afirma.

A avaliação também se estende à atratividade do modelo. Segundo Tamascia, experiências anteriores de farmácias dentro de supermercados tiveram desempenho limitado, em parte pela diferença no comportamento de compra do consumidor.

O raciocínio é simples: enquanto o supermercado atende compras planejadas ou recorrentes, a farmácia muitas vezes atende demandas urgentes.

“O consumidor que sai do médico tende a buscar a farmácia mais próxima no caminho, não entrar em um supermercado”, diz.

Ainda assim, ele reconhece que o novo formato pode gerar conveniência em alguns casos, especialmente para compras ocasionais durante visitas ao mercado.

Crescimento acima do mercado reforça posição da Farmarcas

Além da discussão regulatória, o setor farmacêutico vive um momento de transformação estrutural. A Farmarcas, por exemplo, tem 146 novas unidades em fase de implantação, segundo o executivo.

O mercado brasileiro soma cerca de R$ 250 bilhões em faturamento anual e passa por mudanças impulsionadas pela digitalização e pela profissionalização da gestão.

A associação encerrou 2025 com R$ 10,1 bilhões em faturamento, alta de 14,4% — acima do crescimento de 11,3% do varejo farmacêutico brasileiro.

Geograficamente, a rede mantém forte capilaridade fora dos grandes centros, com presença relevante em cidades médias e no interior — regiões que concentram cerca de 52% da população brasileira.

“Ultrapassar R$ 10 bilhões é simbólico, mas o principal é crescer com consistência e acima do mercado”, afirma.

Nesse contexto, há uma tendência de concentração em redes mais estruturadas, enquanto pequenas farmácias enfrentam maior dificuldade para competir em tecnologia, logística e experiência do consumidor, segundo o especialista.

Tamascia destaca ainda que o papel da farmácia também evolui, ampliando sua atuação para além dos medicamentos. Categorias como dermocosméticos — produtos dermatológicos com apelo estético — e itens de saúde e bem-estar ganham espaço nas estratégias das redes.

A leitura do setor, portanto, é de continuidade: mais competição, maior profissionalização e crescimento seletivo — com ou sem supermercados no jogo.

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