'Tá pago': Treinar ajuda a tomar boas decisões financeiras, diz estudo

Por Rebecca Crepaldi 31 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Tá pago': Treinar ajuda a tomar boas decisões financeiras, diz estudo

Tem outro tipo de corrida que o brasileiro pratica: o corre para trabalhar, para pagar contas, para dar conta de tudo. Uma pesquisa da Creditas em parceria com a Opinion Box, chamada ‘O corre do brasileiro’, mostrou como está a realidade financeira da população: seis em cada 10 brasileiros começaram o ano correndo contra a maré.

“Já começamos o ano com IPTU, IPVA, material escolar para pagar, e, somado a isso, tem o dia a dia que pesa. O brasileiro entra no ano saindo da Black Friday, gastos com Natal e Ano Novo, daí já emenda o Carnaval e daqui a pouco é a Copa. Está todo mundo correndo o tempo todo”, afirma Felipe Schepers, da Opinion Box..

Dentre esses 59% que começaram o ano sob pressão financeira, 34% estavam preocupados, 14% em recuperação e 11% sob forte pressão.

Mas, quem é adepto das corridas – literalmente – se sobressai. Um achado curioso da pesquisa revela que quem pratica atividade física, toma melhores decisões financeiras.

Segundo o estudo, 51% dos brasileiros acreditam que quando se exercitam, escolhem melhor como organizar as contas – e três em cada 10 praticam a corrida. No meio do exercício, parar e respirar é o que traz o alívio para a saúde física e financeira, explicam os especialistas.

“Se eu tenho uma disciplina de manter um plano de corrida, eu consigo carregar ela para a vida financeira, é um efeito dominó. Disciplina e constância é igual entre ambos. Na pausa e no descanso do treino, há um tempo para respirar. É o efeito de pensar no chuveiro, a atividade física faz a mesma coisa”, diz Schepers.

Mexer o corpo mexe no bolso

Entre os principais impactos percebidos, 41% dos que se exercitam afirmam ter mais disposição para buscar oportunidades, o que pode se refletir em decisões mais ativas na carreira e nos investimentos. Outros 34% dizem ter mais foco em metas e no longo prazo — um dos pilares para quem quer poupar e investir com consistência.

A prática regular de exercícios também aparece ligada ao controle emocional: 28% relatam menor impulsividade, enquanto 26% dizem lidar melhor com o estresse financeiro. Esse ponto é relevante porque decisões precipitadas — como compras por impulso ou resgates mal planejados — costumam prejudicar a saúde financeira.

Além disso, 27% apontam ganho de disciplina, e 24% relatam mais confiança para tomar decisões financeiras. Na prática, isso pode significar desde manter um orçamento até sustentar uma estratégia de investimentos mesmo em momentos de volatilidade.

“A palavra chave é disciplina. A vida financeira das pessoas é uma maratona, não um sprint”, brinca Lucas Madeira, head de marketing e comunicação.

Renda extra é necessária

Quase todo brasileiro sente que precisa de uma renda extra para fechar as contas. O levantamento mostra que 95% afirmam ter necessidade de complementar os ganhos — um indicativo claro de que o salário principal já não é suficiente para sustentar o custo de vida.

A pressão não é apenas financeira, mas também emocional. Segundo o estudo, 66% dizem viver sob pressão constante para produzir mais e manter a estabilidade, o que reforça a sensação de que é preciso estar sempre “no corre” para evitar o desequilíbrio no orçamento.

“A renda extra é parte da realidade do brasileiro, que tem dois, três empregos e aproveita datas corporativas para produzir alguma coisa. No carnaval, vende latinha, espuma. Na Páscoa, faz confeitaria. Tem loja na Shopee, entre outras coisas”, destaca Schepers.

Na visão de Guilherme Casagrande, educador financeiro da Creditas, a renda extra aparece como um caminho relevante para quem busca aumentar os ganhos, mas, isoladamente, não resolve o problema financeiro. Sem equilíbrio e sem autoconhecimento, esse esforço tende a perder eficácia, o que reforça a importância das finanças comportamentais.

Isso pode ser visto também nos dados. O pódio das metas financeiras mostra que 56% dos brasileiros querem guardar dinheiro regularmente, enquanto 54% querem organizar suas finanças e, em terceiro lugar, 53% esperam desejam aumentar a renda. Assim, o brasileiro trocou o desejo puro de consumo pela necessidade urgente de respiro e organização – ou seja, se planejar fica na frente de ter casa e carro próprio.

Com juros em alta, inadimplência pesa

Apesar do início do afrouxamento monetário, com o Copom reduzindo a Selic de 15% para 14,75%, ela está em patamares extremamente altos, o que é ruim para o brasileiro. Com juros elevados, a inadimplência atingiu o maior patamar da série histórica, em 81,7 milhões de endividados, segundo os últimos dados da Serasa.

Para Casagrande, prever o mercado é difícil e o próprio Banco Central (BC) se contradiz. “Essas idas e vindas nunca são referências práticas”, diz.

Mas, segundo ele, 2025 fechou com um ponto positivo, ficando dentro da meta estabelecida para inflação. Com isso, o ano começou no caminho certo, com o Copom reduzindo a Selic, mas com todas as questões geopolíticas, principalmente a Guerra do Oriente Médio que impacta o petróleo, o BC deverá frear os cortes.

“Então começar o ano pressionado não é nenhuma escolha, é uma imposição. A gente está num cenário que é difícil e aí essas variáveis, num ano onde o cenário político está diferente, onde a gente tem Copa do Mundo, onde a gente tem conflitos acontecendo no mundo inteiro, economicamente isso tem um um impacto muito grande”, comenta.

Tal qual a corrida previne de problemas de saúde, Casagrande orienta a enxergar a vida financeira não como algo que é uma consequência, mas sim algo que pode ser tratado de maneira preventiva.

“Do mesmo jeito que a gente faz exame a cada seis meses, um check-up, do mesmo jeito que a gente vai na academia para ficar mais forte e ter talvez uma velhice mais tranquila, as escolhas financeiras que eu estou fazendo hoje também vão reverberar no meu futuro. Então acho que esse caminho se traduz também sob uma ótica de prevenção.”

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