Tarifas atrapalham os EUA na disputa com a China, dizem analistas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, diz com frequência que as tarifas são um elemento chave para fazer a América grande de novo e derrotar seus rivais, especialmente a China, na disputa pela liderança global. Para especialistas, no entanto, a politica tarifária pode ter o efeito justamente contrário.
"Você não pode lutar uma guerra tecnológica se está lutando uma guerra comercial", disse Navin Girishankar, líder da área de segurança econômica e tecnologia do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), em um debate sobre as tarifas de Trump, com outros três especialistas do instituto, baseado em Washington.
"A industrialização e a inovação são processos extremamente complexos e distribuídos globalmente. E tendem a crescer em um ambiente de políticas estáveis. O ambiente tarifário tem sido tudo menos estável", afirmou Sujai Shivakumar, pesquisador do CSIS em industrialização e inovação.
"Em vez de fazerem qualquer tipo de investimento a longo prazo, muitas empresas estão simplesmente esperando a volatilidade passar da melhor maneira possível", acrescentou. "Se este ambiente de incerteza persistir, isso torna os investimentos de capital de longo prazo em tecnologia cada vez mais difíceis."
Shivakumar disse ainda que, após anos do processo de envio de indústrias para o exterior, o chamado offshoring, os EUA precisam formar uma força de trabalho qualificada, construir a infraestrutura necessária e simplificar o ambiente regulatório para a produção nacional. "O debate sobre tarifas está desviando a atenção do que realmente importa, que é a nossa principal tarefa", disse.
Os analistas apontaram que a criação de um ecossistema de inovação depende de diversos fatores. Não basta ter dinheiro: é preciso ter acesso a um ecossistema de pesquisadores e materiais de ponta, fabricados em várias partes do mundo. A criação de tarifas trava esse processo e reduz o interesse dos aliados em trabalhar com os americanos.
"Temos visto uma série de visitas de Estado à China. Os chineses estão com uma postura muito simpática, que só é possível porque os EUA estão parecendo o ator desonesto, tendo destruído a ordem internacional de comércio com as tarifas e parecendo um valentão", disse Scott Kennedy, especialista-líder em economia chinesa do CSIS.
Energia em xeque
Durante o debate, analistas apontaram uma contradição: o governo Trump tem defendido medidas para baixar o custo da energia, mas as tarifas dificultam os investimentos em infraestruturas para melhorar a capacidade de geração e de distribuição, o que aumentará a oferta e, por consequência, baixará os preços.
"Esperamos que as tarifas da Seção 122 continuem a incidir sobre muitos dos equipamentos necessários para o desenvolvimento do setor energético", disse Joseph Majkut, especialista em segurança energética e mudanças climáticas do CSIS.
Esses equipamentos incluem aço para brocas de perfuração, oleodutos e gasodutos, e instalações de exportação de gás, além de transformadores, painéis solares e outros aparelhos.
Enfraquecimento de posição
Os especialistas avaliam que o cenário das tarifas ainda parece longe de um desfecho, mas que a decisão da Suprema Corte, que considerou as tarifas recíprocas impostas por Trump como irregulares, tem um efeito importante no curto prazo: enfraquecimento da posição americana para a reunião entre o líder dos EUA e o presidente chinês Xi Jinping, em março.
Os americanos já estavam em desvantagem após o movimento da China de restringir o acesso a terras raras, apontam os analistas. Agora, a decisão da Justiça americana reduziu o poder de Trump para impor tarifas, o que reduz suas opções para pressionar os chineses.
"Não espero que os EUA consigam exercer qualquer tipo de pressão sobre a China para que ela recue em sua política industrial ou reequilibre sua economia. Esta será uma reunião muito confortável para os chineses", disse Kennedy.
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