Taste São Paulo: milhares de quilos de insumos e milhões movimentados
Já fui a algumas edições do Taste São Paulo ao longo da última década. Talvez o mais interessante de acompanhar o festival de perto seja perceber como ele deixou de ser apenas um evento gastronômico para se transformar em um indicador do peso econômico que a comida ganhou na cidade. Na edição de 2026, que começa nesta sexta-feira, 22 de maio, no Parque Villa-Lobos, a expectativa é movimentar R$120 milhões e gerar cerca de 7 mil empregos diretos e indiretos em setores que vão muito além dos restaurantes, passando por hotelaria, turismo, transporte e entretenimento.
Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Em dez anos de evento, que teve a primeira edição na Hípica Santo Amaro, o Taste cresceu mais de 450% em área ocupada, quadruplicou de público — de 16 mil para cerca de 80 mil visitantes — e ampliou sua operação de três para nove dias. O avanço acompanha um movimento mais amplo do setor de eventos e da própria gastronomia paulistana, que vive um momento de expansão acelerada. Demonstra, também, que experiências gastronômicas de todas as faixas de preço nunca estiveram tão em alta globalmente, e a capital não está fora disso: segundo a São Paulo Negócios, em 2025, o segmento de eventos, em geral, movimentou R$ 12,8 bilhões no primeiro semestre, alta de 12,83% em relação a 2024. Na gastronomia, o avanço foi ainda mais expressivo, com crescimento de 135% no número de eventos gastronômicos (dados do Observatório de Turismo e Eventos da SPTuris).
Estrutura e participantes do festival
Entre os dias 22 e 24 de maio, 29 e 31 de maio e 4 e 7 de junho, o parque recebe 30 restaurantes, com curadoria de Luiz Américo Camargo. Juntos, somam mais de 100 pratos nos menus, com preços que vão de R$ 25 a R$ 60. Convidativos, quando pensamos no ticket médio dos restaurantes participantes, entre novidades, como Aiô, Varanda, Terraço Notiê, Lita, Thai Food Shop, P’Lek Bar, Fôrno e Cora; e clássicos que conquistaram o público ao longo dos anos, como Mocotó, Le Jazz, Aizomê, Ema, Z Deli e Tasca da Esquina.
Além dos números, o Taste São Paulo consolidou ao longo dos anos uma fórmula que mistura gastronomia, entretenimento e experiência. Nesta edição, a programação reúne mais de 50 aulas e workshops com chefs como Alex Atala, Rodrigo Oliveira e Edson Leite, enquanto o palco musical recebe nomes como Mariana Aydar. Marcas também possuem estandes, sejam de vendas, sejam expositivos. O festival também reforça sua vocação familiar, com espaço infantil dedicado e atividades monitoradas para crianças — um movimento que ajuda a explicar como o evento ampliou o público e a sua relevância em uma década.
Os bastidores
Para o público, é maravilhoso aproveitar uma curadoria bem-feita e provar toda a pluralidade de cozinhas reunidas num mesmo ambiente, a passos de distância. Mas o evento tem uma logística única e desafios mil por parte dos restaurantes e chefs. Muitas vezes, quem está do lado do consumidor, não consegue perceber - mas com certeza, é curioso.
A Bráz Trattoria, uma gigante quando pensamos em culinária italiana na cidade e veterana no festival gastronômico, tem 14 unidades físicas, que seguem funcionando normalmente durante os dias de evento. João Ragna, gerente de operações da Bráz, revela alguns números: “A operação mobiliza uma quantidade significativa de insumos. Entre os principais ingredientes utilizados, estão: mais de 500 kg de farinha italiana (entre Caputo 00 e Grano Nostrum), cerca de 400 kg de queijos, entre fior di latte, muçarela, Cuesta Azul e Tulha e em torno de 300 kg de tomate italiano Mutti.”
Para eles, a logística começa cerca de 45 dias antes, o que envolve muitos testes, para o padrão que possuem no dia a dia das casas ser mantido. Pratos como arancini, rigatoni com ragú, e a famosa pizza castelões, receita clássica que leva queijo mozzarella e linguiça defumada, entre outros, estão no menu.
Estreias e expectativas das casas
Para aqueles que estreiam, caso do Cora, restaurante localizado no ultimo andar de um prédio retrofitado na Vila Buarque, no Centro da cidade, as expectativas são, principalmente marcar presença: “Não só como marca, mas também para mostrar um pouco do nosso trabalho para perfis diferentes de pessoas. Acho isso importante nessa fase em que estamos - completamos 5 anos de Cora em 2026”, conta Pablo Inca, chef e sócio da casa. Toda a equipe do restaurante, de 16 pessoas, foi mobilizada em torno do evento, além da contratação de extras, para manter todas as pontas funcionando, inclusive o restaurante de portas-abertas.
Sobre os ingredientes, Pablo supõe as seguintes quantias: “A gente não tem uma noção certa de quanto vai ser vendido, mas dentro da minha contagem, estamos falando de aproximadamente 100 kg de atum para todo o evento. Além disso, uma quantidade de aproximadamente 40 kg de quiabo e 3 mil pães”. Queridinhos do menu do Cora, caso do atum, coalhada e tomates crocantes, estarão disponíveis no estande, além da torta basca de doce de leite, entre outros.
Tássia Magalhães, a melhor chef mulher da América Latina em 2025, segundo o 50 Best, também levará suas três operações para o Taste: Nelita e Mag Market, que já estiveram antes, e o Lita, seu bar de vinhos, que estreia em 2026. “O festival tem uma energia diferente, porque aproxima a gastronomia de um público muito diverso, curioso e aberto a conhecer novos trabalhos. Para nós, é uma oportunidade de apresentar a essência do restaurante em um formato mais dinâmico e acessível, mas sem perder identidade, cuidado e qualidade”, introduz a chef.
No seu caso, participar do Taste significa colocar as equipes das três casas para por a mão na massa. “De alguma forma, todo mundo participa, seja na organização, na produção, na logística ou no serviço. Já durante o evento, trabalhamos com uma equipe fixa e também organizamos uma escala para que diferentes pessoas da equipe possam participar pelo menos um dia, viver a experiência do festival e ver o trabalho chegando diretamente ao cliente”. Por final de semana, são entre 300 e 400kg de insumos, considerando as preparações, bases, finalizações e, se necessário, reuniões. O “famoso bolo de chocolate”, que leva sua fama por ser extremamente fofinho, chocolatudo e com uma calda cheia de sabor, para chocólatra algum colocar defeito, está entre as opções.
Grandes operações e logística de pescados
Em seu segundo ano de evento, a Frescatto - marca de pescados e frutos do mar, com mais de 80 anos de história - conta que o seu estande superou as expectativas. Foram mais de 10 mil passantes em 2025, que aproveitaram experiências imersivas e educativas:”Este ano, teremos uma programação robusta, com mais de 20 chefs convidados, experiências gastronômicas exclusivas, ativações interativas e uma curadoria especial de pescados nacionais e importados — incluindo o bluefin, vindo da Espanha”, conta Lívia Cravo, gerente de marketing da Frescatto.
O espaço recebe uma programação exclusiva com vagas limitadas, com participação de chefs como André Saburó, que conduz a cerimônia Kaitai, de abertura do atum. Para garantir que tudo funcione, são mais de 3 meses que antecedem o evento nos preparos. “A operação exige uma logística extremamente cuidadosa para garantir frescor, quality e excelência em cada preparo servido ao público”, finaliza Lívia.
A coluna Por trás dos pratos, publicada semanalmente na Casual EXAME, traz os bastidores da gastronomia em entrevistas com chefs, empresários, restaurateurs e profissionais que constroem a cena atual, sob a visão de uma jornalista com formação culinária, que busca observar, entender e traduzir essa “cena invisível” para o leitor. As conversas abordam cozinha, negócios e pessoas, revelando um ecossistema que não aparece nos menus, mas sustenta cada serviço.
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